Deus descansou ao sétimo dia, está escrito na «Sagrada Escritura»: Sabatto nullum opus facies!
O sábado era o dia festivo, o dia em que os judeus se libertaram da escravidão do Egipto, portanto, dia de descanso. Mas veio Jesus Cristo, que foi liberto pela Ressurreição no domingo. Então, os cristãos mudaram o dia de descanso e festa para o domingo e, em vez do estreito exclusivismo religioso dos judeus, fundaram assim a nova libertação de toda a Humanidade.
Seja como for, podemos considerar que durante seis dias Deus trabalhou o Universo, com engenho e arte, fez o Homem e deu-lhe uma companheira, duas estupendas maravilhas da Sua criação. Depois de examinar a tessitura da composição de todas as coisas, exausto do labor, talvez não esgotado mas provavelmente já aborrecido, o Patriarca descansou. Era pois o sétimo dia, isto é, domingo!
O domingo ficou, por conseguinte, dia sem qualquer intervenção do eterno Patriarca e, surpreendentemente, acabou por mergulhar em profundidade na vulgaridade humana…
A Igreja Católica Apostólica e Romana percebeu de imediato o perigo, e tentou amortecer os efeitos nocivos deste malogro chamado domingo, pois viu o maligno perfilar-se no horizonte para fincar os dentes laminados no corpo temporal deste dia. Foi seguramente também por isto que a Igreja santificou o dia, introduzindo-lhe a obrigatoriedade que cada fiel tem de assistir à missa, ou seja, à cerimónia da eucaristia, ritual litúrgico consagrado ao sacrifício de Jesus Cristo na cruz e à sua Ressurreição…
Não restam dúvidas que a Igreja viu quanto o domingo se punha a jeito, de forma a encetar uma aventura mundana, sem qualquer correspondência, por mais remota, com o Divino! – Enfim, urgia, portanto, contrariar as infiltrações do maligno!
No entanto, o ritual que a Igreja consagra ao infortunado dia, o qual pretende ser travão da aventura sacrílega, acabou por resultar apenas num fino e curioso sainete que termina breve, com o sacerdote despedindo os fiéis, com requintes cerimoniosos de uma compostura arcaica («Ite missa est»), deixando-os, após cerca de uma hora de esperança, espiritualmente soltos, desprotegidos e infelizes, sem emprego no seio do espesso e uivante domingo!
Sem Deus e sem nada que o possa ocupar, conspurcado pelo maligno, o domingo emerge da sua negra antiguidade de coliseu romano pronto mergulhar o Homem, por todos os séculos dos séculos, na alienação dos afectos, na crueldade mental do tédio que leva ao niilismo, abraçado às vezes ao espectro da morte através do suicídio.
Astucioso e com vistas largas, o domingo cultiva no Homem o orgulho e a vaidade, iludindo-o com a futilidade dos jogos espectaculares, onde multidões ululantes e peganhentas se disfarçam de olímpicas gentes. Multidões que, aborregadas, absorvidas em banalidades, julgam ter ganho a partida, supõem ter preenchido o domingo e ludibriado o maligno. Enfim, incapaz de olhar de frente o dia vago, empedrado de impotências travestidas de “boas intenções”, indeterminado como um deserto de estúdio hollywoodiano, o Homem mal houve bater o relógio da sua existência, porque quem marca a pulsação com intoxicante bonomia é o domingo!
Onde poderá o Homem ir buscar um conteúdo para o domingo, este dia propicio aos impulsos violentos, às inquietações impensadas, às monstruosidades da insignificância? Porque teria Deus “descido” a este extremo da imprevidência? – Deus, o Criador, tinha a “obrigação” de não desbotar a Sua obra com um dia vazio, com um dia sem socorro, como é o domingo!
Teria Ele, em sua sofreguidão divina, “medo” de esgotar o rol da Sua infinita imaginação e, depois, para emparelhar com os mortais, pro forma, resolvido às três pancadas descansar ao sétimo dia? – Poderemos imaginar o acontecimento de tal decisão? Poderá entender-se tal “sem-cerimónia” de Deus que, sendo o Criador de tudo, denuncia desta forma quanto não tem o sentido das realidades e, por momentos, perdendo toda a Sua solenidade tradicional, começou impensadamente a bocejar?
“Cansado” ao fim de seis dias de trabalhos, Deus acabou por deixar que se “derretesse” a Sua infinita vontade e, ao sétimo dia, “assistido” pelo universal sono que o cosmos sempre provoca, terá deixado, sem se “aperceber”, que o domingo se sumisse na voragem da Criação, ficando para toda a eternidade como uma bagatela sem importância, um monte de cinza, um veneno açucarado que, por via de regra, o maligno todas as semanas nos cobiça com engodos novos?

