2014: ANO EUROPEU DO CÉREBRO E DAS DOENÇAS MENTAIS – MUSICOTERAPIA por clara castilho

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Decorre o Ano Europeu do Cérebro e das Doenças Mentais escolhido pelo Parlamento Europeu, considerando que se trata de um problema que poderá ter causas e tentativas de intervenção comuns a alguns países da Europa. Continuamos a reflectir sobre o assunto.

Porque hoje é Dia Mundial da Música, falemos da importância que ela pode ter na nossa vida e como ela, em casos de doença, pode também ser um “instrumento” de cura.

Desde sempre a música tem sido indicado como factor importante para despertar e estimular emoções. O uso da música como método terapêutico tem uma longa história. Encontram-se registos que apontam para isso nas obras de Aristóteles e de Platão. Consideravam eles que as pessoas a ela eram sensíveis. Aos guerreiros determinada escala deveria ser dada a ouvir para os tornar mais agressivos…

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A música pode produzir reacções fisiológicas. O medo e a alegria podem ser acompanhados por transpiração, excitação com determinados andamentos rápidos. Tristeza ou serenidade pode ser provocada por andamentos mais calmos. Estas reacções ocorrem independentemente da “vontade” do ouvinte. Outros estudos mostraram que a música activa as mesmas zonas cerebrais que participam do processamento de emoções.

Vieillard, (2005), defende que “uma das hipóteses neurobiológicas postula a existência de uma via cerebral específica para o processamento de emoções musicais”.

O som da voz, por exemplo, é produzido pela vibração das cordas vocais,que se propaga no ar sob a forma de onda. O ouvido, assim como os outros órgãos do sentido, a pele, e o sistema nervoso, são originados de um mesmo tecido embrionário a ectoderme. Existe, portanto, uma ligação íntima e primitiva entre o sistema nervoso e o ouvido. Por isso, o contacto com sonoro tem como repercussão, por exemplo, reacções emocionais.

As ondas sonoras são captadas não só pelo ouvido, mas também pelas células sensitivas do corpo todo. Talvez pelo fato de o ouvido ser o órgão mais sensível às ondas sonoras, a sensação corporal táctil da vibração do som tenha ficado em segundo plano para muitos. Os deficientes auditivos parecem estar mais atentos a esta propriedade vibratória do som.

Nos meios de tratamento de perturbações psiquiátricas, desde o séc. XIX que a música é utilizada, numa denominada musicoterapia. E tratava-se simplesmente de assistirem a concertos e coros compostos pelos doentes. Pensava-se que os doentes poderiam melhorar no que respeita a “normais morais” e “comportamento socialmente adaptável”.

Os resultados positivos não eram muito visíveis…e entretanto outros métodos surgiram, ultrapassando os electrochoques, pela introdução de medicamentos mais eficazes no objectivo a atingir – acalmar os doentes. É a partir dos anos 70 que se retomam sessões com música, agora podendo ser os próprios técnicos a manejá-la: com a reprodução em gravação.

A Musicoterapia surgiu oficialmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando a música passou a ser utilizada cientificamente e com fins terapêuticos na reabilitação e recuperação dos soldados feridos.

O primeiro plano de estudos acerca dos efeitos terapêuticos da música (como e porque eles eram alcançados) foi elaborado em 1944, em Michigam (EUA).

Benezon (1982) define a musicoterapia desta forma: “Do ponto de vista científico, musicoterapia é um ramo da ciência que lida com o estudo e a investigação do complexo som-homem, onde o som pode ser musical ou não, bem como dos métodos terapêuticos e dos elementos diagnósticos que lhe são inerentes. Do ponto de vista terapêutico, a musicoterapia é uma disciplina paramédica que utiliza o som, a música e o movimento para produzir efeitos regressivos e para abrir canais de comunicação que nos permitirão iniciar um processo de tratamento e recuperação do paciente para a sociedade”.

E os técnicos questionaram-se: qual a melhor forma:individual, em grupo? Quais as melhores músicas: calmas ou agitadas? Qual a melhor metodologia: só ouvirem ou praticarem, ou até construir instrumentos?

A musicoterapia pode ser usada em contextos de tratamento psiquiátrico ou em contextos educacionais. A utilização deste método pode ser feita individualmente ou em grupo. Pode envolver actividades musicais (escuta musical, canto, improvisação vocal e instrumental, expressão corporal e outras que envolvam som e movimento). Pode ser  num processo planificado e continuado no tempo, pode ser mais pontual.

No que se refere à sua utilização a nível terapêutico, pode ser para pessoas com : hiperactividade, autismo, síndrome de Down, Rett e Turner, paralisia cerebral, lesões cerebrais, deficiências sensoriais, (visual e auditiva), dislexia, dificuldades de aprendizagem, depressão, ansiedade.

Terapeuticamente, a música ultrapassa o seu papel de entretenimento, de enriquecimento cultural, (…), para servir de suporte a técnicas particulares de psicoterapia(…).A originalidade das técnicas comparadas com outros métodos de psicoterapia, consiste na participação do terapeuta e dos pacientes numa mesma experiência emocional, quer se trate de uma audição em comum ou da criação de uma obra musical que nasce da improvisação. A relação torna-se terapêutica na medida em que, como mostrou Winnicott, a melodia de jogo do paciente cruza-se com a do terapeuta.” – Verdeau-Paillès, 1983

 

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