A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – O transatlântico e o elefantinho

 

 

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Quando, às vésperas das eleições de 2002, Lula resolveu assinar a Carta aos Brasileiros,  a reviravolta provocou emoções  e suspeitas.

Aquilo seria mesmo para valer? Para o PT,  Lula estava sendo “esperto”. O negócio era “chegar lá”. Chegando lá, ele voltaria às origens. Os conservadores desconfiavam: se ele “chegasse lá”, não seria tentado a voltar às origens?

Equivocaram-se quanto às “origens” do homem. Elas não eram radicais, embora tenha ele assumido, em certo momento, um verbo  radical.  Com o tempo, porém, o verbo tornou-se “apenas um quadro na parede” e,  ao contrário do que disse o Poeta,  já nem doía mais.

Lula, de fato, voltou às origens,   à natureza do ventre que o gerou: uma estrutura corporativa criada sob uma ditadura,  que sobreviveu e prosperou sob uma outra, informada pelo controle do Estado, vertical,  destinada à negociação, capaz de lutas, mas sem enfrentamentos  com a Ordem vigente.

Lula e o PT aceitaram os parâmetros  que regeram os dois governos de FHC, consolidando ampla aliança social, esboçada pelo antecessor e desenhada  desde fins do Estado Novo. Compreendia, por cima, os bancos, a indústria e o agro-negócio, assegurando-lhes garantias institucionais e prosperidade. Por baixo, as classes médias e os trabalhadores, através de políticas distributivas  e de incentivos à educação e à cultura, sem falar na política externa, que exaltava o orgulho patriótico. Estruturada a frente policlassista, podia-se pensar num projeto histórico, “de vinte anos”, como sonhara José Dirceu.

Foi pensando nisto que se cunhou a metáfora do transatlântico. O Brasil era grande demais para pensar em bruscas viradas. Ou a do elefantinho. Um outro bicho, mais leve,  galoparia à solta, mas o Brasil, um elefantinho, só poderia  trotar. Getulio Vargas assinaria embaixo.

E foi trotando, no contexto de uma imensa autossatisfação, que irromperam as manifestações de junho de 2013. Logo depois, pesquisas de opinião pública informavam que 70% das gentes queriam mudanças. Nos serviços públicos e  nas instituições políticas. Reformas para “democratizar a democracia”. Aquilo não estava em nenhum radar. Algo não dera certo. Os marqueteiros avisaram  aos candidatos que deveriam ser mudancistas, fosse como fosse. O que importava era ganhar as eleições. E, assim, os três candidatos principais – Dilma, Aécio e Eduardo, depois, Marina – tão parecidos entre si,  colados ao sistema e à aliança que o sustenta, se fizeram mudancistas. Aécio quer mudar para o passado. Dilma quer mudar,  mantendo o presente, e o levando “às últimas consequências”. Já Marina, massacrada pelos adversários, tanto se desdisse e contradisse, que deixou mais dúvidas do que esperanças. De sorte que, a poucos dias do primeiro turno, há uma  atmosfera de perplexidade. Haverá mesmo mudanças? E como navegaria o transatlântico num mar revolto? Como se comportaria o elefantinho, obrigado a galopar?Um problema para o futuro. Quanto aos candidatos, eles querem votos, e agora, em 5 de outubro.

Daniel Aarão Reis

Professor de História Contemporânea

Universidade Federal Fluminense/UFF

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