Da transparência “democrática”… à sociedade desavergonhada!- por Joaquim Palminha Silva

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O  escritor inglês George Orwell (1903-1950), na sua obra «1984», denunciou o perigo do totalitarismo mental e cultural vigiando, “24 sobre 24 horas”, a privacidade dos cidadãos, controlando as suas ideias e os seus gostos. A ficção de Orwell assentava claramente na ideia de que tal seria levado a cabo exclusivamente pelo Estado. De resto, na 1ª metade do século XX, a Leste perfilava-se o totalitarismo estalinista e a Ocidente, brutais regimes autoritários, de ideologia nazi ou fascizante, invadiam de forma “inusitada” alguns países europeus, organizando a sinistra vigilância espiritual (se assim se pode dizer), cultural e mental dos cidadãos, policiando os seus gostos e as suas ideias mais banais.

Com o restabelecimento da Democracia no Ocidente, sobretudo a partir da 2ª metade do século XX, cimentou-se a ideia de que as sociedades devem ser transparentes, desde o anónimo cidadão até ao político ou figura pública! A Democracia fez da transparência da vida de figuras públicas, com responsabilidades comunitárias ou de Estado, uma norma moral, uma modalidade da liberdade, que é suposto travar o uso e abuso da hipocrisia.

Subsistindo em permanência sob os projectores da opinião pública, o homem público e o político profissional, modificaram os seus comportamentos sociais, ora tornando invisíveis as suas existências privadas, ora usando uma privacidade encenada, para colher votos ou “passar” nas sondagens com “boa percentagem” de simpatias populares. Para alcançar este objectivo, os meios de comunicação social são convidados a colaborar, quando não a negociar a montagem cénica da “privacidade” familiar. Mas este esquema de há muito que acabou por gerar, por questões comerciais, a sua própria negação, com o aparecimento dos paparazzis, fotógrafos equipados hoje com sofisticada tecnologia. “Caçadores” fotográficos da verdadeira privacidade? – Pior! Autênticos invasores da vida privada, familiar, de cada figura pública!

Se porventura alguma personagem pública tenta evitar que os paparazzi invadam a sua privacidade, se por acaso manifesta alto e bom som o seu desacordo com esta estranha “liberdade” de imprensa, de publicitar imagens, então ainda é pior: – Se a figura pública assim procede, dizem “todos” à uma, é porque há na sua vida alguma sujidade, qualquer facto menos “limpo” da sua existência deve “andar” escondido. Adiante…

Esta forma de transparência das existências privadas de todos e de cada um, digamos assim, cresceu sem balizas e sem regras, transformando-se num negócio rentável, multiusos e multinacional, além de inaugurar uma efectiva desmoralização do que deve ser a Democracia.

Pior! – Fascinado pela tecnologia da informação, o cidadão anónimo não só aceita a vigilância contínua, como é ele próprio a promove-la sobre si e sobre os outros, através do Google, Amazon, Facebook. Fascinado pela rapidez desta tecnologia, o cidadão comum embriaga-se de exibicionismo, tornando-se “militante” de uma nova espécie de voyeurismo que começa por si próprio. A “casa dos segredos”, de um canal de televisão, é um exemplo acabado deste generalizado e doentio estado mental!

As notícias (em alguns jornais e canais de televisão) chegam ao cúmulo de serem sempre um pouco mais do que a simples “narrativa” de tal ou tal facto, rasgando a privacidade dos seus protagonistas que, ao contrário do que podíamos imaginar, apreciam este descortinar público da sua vida íntima. O cidadão anónimo está pronto a tudo mostrar e tudo dizer publicamente. Fica mesmo zangado se não o deixam “desnudar” a sua “alma” na praça pública!

O cidadão anónimo, ao apreciar este tipo de vigilância sobre si e sobre os outros, ao aceitar este tipo de servidão contínua, sob os olhares interessados do “mundo” do “business”, fascinado por se encontrar supostamente a manipular informações e revelações, tornou-se na realidade o arquitecto de uma sociedade policiada (cultural e materialmente). Paradoxalmente, já não é o Estado que promove a instauração da sociedade de voyeuristas e fanáticos vigilantes, mas milhões de cidadãos!

Esta perversa ideia da transparência em Democracia, está aos poucos a transformar a sociedade, abrindo caminho desavergonhadamente (por excesso de consentimento e falta de regras) para a instauração de uma “nova ordem” que, sob tutela do mundo dos negócios, é capaz de nos empurrar para os braços de políticas totalitaristas… Tal como na economia o liberalismo extremista, impondo a sua filosofia, empobrece países e milhões de pessoas, esta desavergonhada transparência adultera a liberdade e corrói a Democracia

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