DIA DE LISBOA – LISBOA, LIVRO DE BORDO (de José Cardoso Pires) – por Manuel Simões

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Sob os auspícios da EXPO ‘98’ publicou-se em 1997 o excelente volume de José Cardoso Pires, Lisboa, Livro de Bordo. Vozes, olhares, memorações (Pub. Dom Quixote), com a indicação explícita de que a edição portuguesa saía simultaneamente em alemão, francês, castelhano e italiano, pelo que, tratando-se de encomenda, poderia sugerir que se tratava de um guia da cidade. O volume não indicava o género literário em que seria possível integrá-lo, embora o leitor bem cedo se terá dado conta que conviria tomar à letra o Autor e considerar o texto como “livro de bordo”, de acordo até com o indicador expresso pelo subtítulo, não contrariando, porém, a possibilidade de o entender como crónicas avulsas, aceitando igualmente o outro subtítulo: “vozes, olhares, memorações”.

O carácter metafórico de “livro de bordo” é legitimado pelo texto de abertura que, para além da sua grande densidade poética, situa o sujeito no contexto do imaginário, conferindo-lhe o estatuto de escrivão (no sentido nobre do termo) que privilegia o olhar: «Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar. Não me admiro: sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, e até a brisa que corre me sabe a sal». E é deste exórdio, desta síntese de encantamento, que se parte para a viagem ao coração de Lisboa, perscrutando as tais vozes ou recuperando a memória do tecido urbano num processo que, a cada ângulo do espaço (e do texto), pressente a superfície líquida que transfigura a cidade-navio: «Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso».

Deste modo, todo o texto é percorrido por um campo sémico ligado às coisas marítimas. Daí as referências aos «labirintos do roteiro», aos «reflexos dum rio…conforme as marés», e as evocações dos lugares míticos de Lisboa de que é paradigma o espaço do Alto de Santa Catarina, «lugar como o miradouro duma viagem que se sonha e se vai a nossos olhos», ou os espaços mão menos míticos do Autor, de que são exemplo os bares revisitados, «navegações pessoalíssimas», para não falar dos «mares, memórias, navegações» a cada passo representados nas ruas, praças e avenidas, sinais iconográficos do imaginário cultural: «naus errantes, legendárias, ou galeões de rota pensada atravessam-se nos caminhos de calçada à portuguesa, e há desenhos de quadrantes e de ondulações a marcar o andamento».

Funcionando o texto com estas coordenadas, é desde logo intuível que o mesmo só se pode fruir, intensa e cabalmente, possuindo a chave destes muitos códigos, isto é, conhecendo a “alma” da cidade, a sua gíria ou modo de se entregar a quem ultrapassou o limbo das aparências, a quem conhece a sua luz e a capacidade de, por ela, medir o tempo, as suas vozes e cheiros, em suma o que lhe está «mais no íntimo». É por isso que no corpo textual se vitupera o olhar apressado de quem chega e debita a seguir umas quantas considerações desfocadas, desde a “cegueira” de Alain Tanner (mas é evidente que “A Cidade Branca” se constrói com base num ponto de vista metafórico) a outras figuras de maior ou menor peso, veneradoras do exotismo, «e os portugas à la page ainda lhes ficam agradecidos». Mas é por isso também que o texto se torna improponível como “guia turístico”, visto que se trata de um roteiro sentimental, de um discurso só para iniciados na cultura portuguesa ou, ainda mais especificamente, para quem se adentrou nas raízes profundas de Lisboa, sem esquecer as gírias («mandar-vir» ou «cuspir fininho», por exemplo) e outros subtis modos de dizer que fatalmente escapam a quem não possui as chaves de descodificação.

Esclarecidas estas questões sobre o eventual destinatário, preferivelmente um iniciado no labirinto da “cidade-nave”, o volume cumpre cabalmente a sua função de “livro de bordo”, uma espécie de manual em que lugares, paisagens ou figuras interferem, a diferentes níveis, na textura fascinante dum discurso que se revela um grande texto literário.

 

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