Os “índios” da reserva transtagana .- Joaquim Palminha Silva

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           Não é a primeira vez que com um caldo de contactos directos, memórias e opiniões ad hoc, e um assustador desconhecimento ou desprezo pela história da cultura portuguesa, antropólogos estrangeiros ou bastante estrangeirados, correm a definir o alentejano como um “povo” sui generis, circunscrito à região sul (além-Tejo) do País que, depois, identificam de tal forma que parece estarem a elaborar uma monografia sobre um povo estranho, aparecido sabe-se lá como, entretanto circunscrito numa “reserva” territorial, onde mantém cristalizadas tradições culturais de uma ruralidade e sociabilidade “únicas” no contexto da Europa e quase estranhas à História de Portugal, portanto, muito de acordo com a receita empregue para o estudo do Homem e das sociedades fora do Ocidente “civilizado”, “sem memória escrita”, segundo o modelo de investigação antropológica de Radcliffe-Brown.

            Sabe-se que os contactos destes investigadores com os alentejanos, são o que lhes ficou dos ocasionais encontros na imediata actualidade. Encontros nem sempre livres de contaminações indesejáveis, porque marcados, ora pelo travestismo do turismo rural e outras habilidades de exportação, ora guiados pelo interesse político do “esquerdismo” habitual, culturalmente pouco credível, artilhado quase sempre de lugar-comuns e municiado com um “folclore” ideológico de importação. Encontros mais ou menos prolongados, onde se podem evidenciar alguns “destroços” pitorescos, artesanais, de mentalidade considerada genuína, com seus usos e práticas ancestrais, que o investigador julga só possível achar aqui, na reserva a sul do Tejo, onde se fixaram (supõe-se) há muito tempo estas “tribos de índios apaches”, camponeses trigueiros europeizados, a quem chamamos alentejanos.

Enfim, a primeira e mais evidente síntese de tudo isto, e que salta logo à vista, é a implícita desconsideração e perversa interpretação que se produz sobre a existência dos alentejanos, ao considerar que estes parecem não fazer parte do lar lusíada a tempo inteiro e completamente, como os minhotos, madeirenses, os algarvios, os ribatejanos, etc..

            Iludido pela “castiça” imagem supostamente invulgar do exemplar em estudo, o investigador acredita ter encontrado à porta da Europa e, portanto, sem os perigos do “trabalho de campo” na selva tropical, matéria suficiente para o livro, para o documentário filmado, para a tese de mestrado ou doutoramento.

            Creio que é este o contexto (seguramente bem intencionado) do documentário de Sérgio Tréfaut, intitulado «Alentejo Alentejo». Na origem do filme (documentário) está a intenção de criar um movimento de simpatia em relação ao cante alentejano, que a Câmara Municipal de Serpa se lembrou de candidatar, junto da UNESCO, a «Património Imaterial da Humanidade».

            O escusado da intenção é evidente, para não lhe chamar ridícula ideia, pois o cante alentejano não precisa de nenhum registo da UNESCO, certidão de nascimento e identificação, para viver por si mesmo, e provar a sua existência como uma das caracteristicas do “colectivismo” alentejano. De resto, o cante alentejano, certamente distinto de outras expressões artísticas (vira, malhão, fandango, fado), é parte integrante de um todo e não, como pode levar a crer este género de narrativas antropológicas, uma sobrevivência cultural exclusiva, sem correspondência com a História de Portugal, uma das mais homogéneas nações europeias.

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Grupo de mondadeiras nos anos 50 do século XX. Campos de cultura de cereais no Concelho de Montemor-o-Novo.

            Parece que os europeus do norte continuam a exercitar sobre os alentejanos (e portugueses) a sua académica antropologia e, neste caso, são favorecidos pela bajulação ignorante do “indigenato” que, subserviente a tudo o que vem do estrangeiro, se põe a jeito para ser ridicularizado, incapaz do desabafo de cordial hostilidade, lembrando aos investigadores que, como portugueses, os alentejanos até já foram pioneiros na descoberta do outro, participando na aventura dos bandeirantes, remontando o rio Amazonas e levando a fronteira do Brasil até aos Andes. Quando o norte europeu ainda era… Bem, fiquemos por aqui…

            Enfim, a evidência histórica não sugere que os alentejanos sejam um fenómeno único, como a fantasmagórica Atlântida ou as estátuas da ilha de Páscoa. Por conseguinte, os alentejanos não carecem de “protecção especial” como as espécies em vias de extinção, com ou sem o lamuriento cante!

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O bandeirante António Raposo Tavares, natural de Beja.

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