EDITORIAL – O governo no confessionário?

Imagem2Segundo a Bíblia, Jesus concedeu aos apóstolos o poder de perdoar os pecados. A Igreja Católica (tal como a Ortodoxa e a Anglicana) atribuiu ao clero a dignidade de sucessores dos apóstolos e o poder de ministrar também o sacramento da confissão, da remissão e do perdão pelos pecados. Nos chamados reality shows tipo Big Brother, como é a «Casa dos Segredos» há um confessionário. E as confissões daquela gente são ouvidas por milhões de telespectadores como se de coisa séria se tratasse.

E, decalcado daquele exemplar lixo televisivo, temos agora a moda da confissão dos erros e da assunção da responsabilidade. A senhora opulenta e solene que ocupa a cadeira da Justiça, com o ministério mergulhado num caos, veio assumir a responsabilidade e pedir desculpa; o senhor ministro do Ensino e Cultura, no meio da maior barafunda e de toda uma classe profissional desmoralizada, em pânico, veio assumir a responsabilidade e pedir desculpa… Como se com uma formalidade bacoca resolvessem os problemas.

Na realidade, sabe-se que os ministros não são directamente culpados pelos erros, havendo toda uma cadeia de incompetências por onde o disparate faz caminho. Muitas vezes a atribuição de lugares de responsabilidade, bem remunerados, a jotas e a amigos, é no que dá. Talvez a confessando, assumindo a culpa e… demitindo-se, as coisas se recompusessem. Mas não. Ninguém demite ninguém e ninguém se demite. Aqueles rabos só largam as cadeiras com novas eleições ( ou com um bom pontapé).

 O país transformou-se numa versão gigante da abominável “Casa dos Segredos” – embora haja uma diferença importante: só entra naquele universo alternativo de imbecilidade quem prime o botão  do comando que lhe dá acesso, podendo sair logo que se queira – da casa dos segredos que é dirigida a partir de São Bento, não existe botão que nos liberte. Fomos nós que lá instalámos os actuais inquilinos. Temos de confessar, de assumir a responsabilidade  e de agir em conformidade.

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