CONTOS & CRÓNICAS – “O harém do kiwizeiro” – por Eva Cruz

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O ano fora chuvoso e difícil o tempo da poda. Tiveram preferência as videiras em desfavor das árvores de fruto e ficaram por podar as árvores dos kiwis. Sem poda anual, os seus ramos cresceram descontrolados junto ao alpendre da lenha.

Dá gosto passar por ali. De um lado, molhinhos de vides, achas encasteladas nascidas dos golpes do machado nos troncos de castanheiro velho ou de carvalhas derrubadas no desbaste dos matos, sacos de linhagem cheios de pinhas e algum reliço de folhas e cascas secas, bom para acender ou atear o lume da lareira. Do outro lado, os braços dos kiwizeiros formando uma cortina de verdura até ao chão, deixando apenas uma passagem estreita sobre a pedra incerta do carreiro que leva ao canastro. Um túnel de frescura onde a custo entram os raios do sol nos dias mais quentes de Verão.

Ali vivem o kiwizeiro macho e seis fêmeas. Numa ponta da ramada lá está ele, de braços abertos, empoleirado e imponente, à cabeça das suas fêmeas alinhadas. Um macho pode fecundar até seis fêmeas, diz a sabedoria de quem trata e lida com estas espécies.

Na Primavera todas estas árvores deram flor. As flores do macho eram maiores, de um branco pérola, muito perfumadas e em grande abundância. Rondavam-nas os pássaros, as abelhas e outros insectos, em frenético voltejo de cio e de amor.

Com a necessária lentidão do tempo, as florinhas foram dando lugar a pequenas bolas verdes escondidas no ventre da ramada. A brisa acariciadora da Primavera e o calor incubador do Verão fizeram nascer os frutos castanhos amarelados, aos molhos, pendentes, presos pelo cordão umbilical aos ramos das mães kiwizeiras.

O macho, carregado de folhas grandes e largas contempla orgulhoso as suas mulheres e as abundantes crias, montes de kiwis pendurados nas suas hastes. Do corpo nu do kiwizeiro nada pende, nem um único fruto. Apenas gerara flores para a fecundação.

Lá para Novembro serão colhidos os frutos deste harém de verdura. São mais miudinhos por não terem poda. Filhos de tão grande amor da natureza, mais doces e suculentos hão-de ser, de certeza.

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