PRAÇA DA REVOLTA – Notas sobre uma entrevista a Noam Chomsky:– 2 – por Carlos Loures

Eugène Delacroix - La Liberté guidant le peuple

O entrevistador lembrou que Obama,  em recente discurso na televisão, anunciou aos americanos e ao mundo, que os Estados Unidos vão voltar ao Iraque, agora contra Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIS). Será o Iraque um assunto pendente ou essa situação é apenas um resultado inevitável da agenda estratégica do Império do Caos?

Chomsky respondeu que o aparecimento do EIIL e o alastramento do jihadismo radical é uma consequência muito natural de Washington empunhar a sua clava perante a frágil sociedade do Iraque, que mal se mantinha de pé ao fim de uma década de sanções dos EUA-Reino Unido, tão onerosas que os respeitados diplomatas internacionais que as administravam através das Nações Unidas se demitiram em protesto, acusando-as de serem “genocidas”:Vale a pena notar que o fanatismo religioso se  está a espalhar no Ocidente também, à medida que a democracia se corrói.

Lembrou a opinião de conceituado analista do Médio Oriente,  o ex-agente da CIA, Graham Fuller. “Penso que os Estados Unidos são um dos principais criadores do EIIL. Não planearam a formação do EIIL, mas as suas intervenções destrutivas no Médio Oriente e a guerra no Iraque foram as causas básicas do seu nascimento”. Tem razão, pois a situação sendo um desastre para os EUA, é um resultado natural da sua invasão. Uma das consequências sombrias da agressão EUA-Reino Unido foi o ter reacendido conflitos sectários que agora estão a fragmentar o Iraque e se espalharam por toda a região, com terríveis consequências.

O EIIL parece representar um novo movimento jihadista, com uma enorme tendência inerente para a barbárie ao prosseguir a sua missão de restabelecer um Califado islâmico, aparentemente ainda mais capaz de recrutar jovens muçulmanos radicais do coração da Europa, e mesmo até da Austrália, do que a própria al-Qaeda. Na sua opinião, por que é que o fanatismo religioso se tornou a força motriz por trás de tantos movimentos muçulmanos em todo o mundo?

Como a Grã-Bretanha fizera antes, os EUA têm tendido a apoiar o Islão radical e a opor-se ao nacionalismo secular que ambos os Estados imperiais têm considerado como mais ameaçador para os seus objetivos de dominação e controlo. Quando opções seculares são esmagadas, o extremismo religioso preenche o vácuo frequentemente. Além disso, o principal aliado dos Estados Unidos ao longo dos anos, a Arábia Saudita, é o estado islâmico mais radical do mundo e também um estado missionário que usa os recursos em petróleo para promulgar as suas doutrinas extremistas wahabitas/salafitas, ao estabelecer escolas, mesquitas, e por outras formas, e que também tem sido a principal fonte de financiamento de grupos radicais islâmicos, juntamente com os Emirados do Golfo – todos eles aliados dos EUA.

Vale a pena notar que o fanatismo religioso está a alastrar no Ocidente também à medida que a democracia se corrói. Os EUA são um exemplo impressionante. Não há muitos países no mundo em que a grande maioria da população acredite que a mão de Deus guia a evolução e quase metade destes pense que o mundo foi criado há alguns milhares de anos. E como o partido republicano se tornou tão extremista a servir a riqueza e o poder corporativo a ponto de não poder apelar ao público quanto às suas políticas reais, tem sido compelido a confiar nestes setores como base eleitoral, dando-lhes uma influência substancial na política.

Os EUA cometeram grandes crimes de guerra no Iraque, mas os atos de violência cometidos nestes dias contra civis no país, principalmente contra crianças e pessoas de diversas comunidades étnicas e religiosas, também são simplesmente chocantes. Dado que o Iraque exibiu o seu mais longo período de estabilidade política sob Saddam Hussein, que lições didáticas se podem retirar da situação extremamente complicada de hoje naquela parte do mundo?

A lição mais elementar é que é prudente aderir às normas civilizadas e ao direito internacional. Não é que a violência criminosa de Estados bandidos como os EUA e Inglaterra tenha consequências catastróficas garantidas, mas dificilmente podemos dizer que ficamos surpreendidos quando as tem.

Os ataques dos EUA contra bases do EIIL na Síria sem a aprovação e colaboração do regime sírio de Bashar al-Assad, constituiriam uma violação do direito internacional, alegaram Damasco, Moscovo e Teerão antes do início do bombardeamento. No entanto, não se dá o caso de a destruição das forças do EIIL na Síria reforçar ainda mais o regime sírio? Ou será que o regime de Assad tem medo de ser o «senhor que se segue»?

O regime de Assad tem estado bastante silencioso. Não apelou, por exemplo, a que o Conselho de Segurança agisse para pôr fim ao ataque, o que é, sem dúvida, uma violação da carta da ONU, base do moderno direito internacional (e se interessar a alguém, parte da “Lei suprema da terra” nos Estados Unidos, nos termos da Constituição). O regime assassino de Assad sem dúvida pode ver o mesmo que o resto do mundo: o ataque dos EUA ao EIIL enfraquece o seu principal inimigo..

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