Esta é também a história do chefe de uma tribo sioux, «Urso Enraivecido», homem robusto dos seus 60 anos que, sem o saber, era poeta e vidente… Expliquemo-nos…
Poeta, como o definiu Goethe, é o homem que tem o sentimento vivo das situações e a faculdade de as exprimir numa síntese única, excepcional… Vidente, porque anteviu o desastre antes de ele ter invadido a nossa actualidade…
Tudo começou assim…
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O local cheirava tanto o petróleo que para muitos era uma pena ver toda aquela lama negra sem ninguém que dela tirasse partido. Nem um tufo de erva. Nenhum vestígio da passagem de animal… Nem mesmo a pachorra venerável dos búfalos se deixava iludir. Uma vez nas proximidades dos negros charcos, os animais contornavam o fétido pântano. Às vezes, os índios aproveitavam-se dele as vezes, usando a sua lama para pintarem o corpo, durante as cerimónias sazonais do Ano Novo, sempre associadas ao amadurecimento do milho.
Algures no Dakota do Norte, do outro lado do rio, face às velhas peles das tendas do povoado sioux, uma fileira de casas de madeira estendia-se ao longo da margem, numa extensão de meia milha (cerca de 800 metros). Numa colina um pouco distante, os especialistas, os engenheiros e pesquisadores de três companhias petrolíferas haviam aí instalado o seu quartel-general. Enfim, nessa margem do rio, acampava uma multidão de cosmopolitismo maltrapilha. Garimpeiros de oiro desiludidos, de bigode encardido, chapéu roto e mau-feitio; lavradores de origem irlandesa cujas charruas enferrujaram na luta contra os grandes proprietários de gado; “cow-boys” de botas remendadas e pilecas quase moribundas; donos de bares à beira da falência; mulheres brancas de várias nacionalidades e porte duvidoso, seguindo os seus clientes em busca dum casamento durável; chineses, muitos chineses precipitados sobre todo o tipo de trabalho, de forma sistematicamente escrava…
De tempos a tempos, o vento norte do Dakota trazia até esta margem do rio, pairando sobre formigueiro humano, provocadoras baforadas de cheiro a petróleo. Então, o silêncio caía sobre aquela gente suja, miserável e febril, que tinha abandonado tudo, na esperança de enriquecer rapidamente graças aos charcos de “oiro negro”, entretanto descobertos.
Este fabuloso tesouro natural não fora, até então, explorado por uma única razão: – Encontrava-se na margem oposta do rio Wappoko, por conseguinte em pleno território da reserva da tribo de índios sioux que, nas últimas décadas do século XIX, para ali tinham sido transferidos pelos soldados de farda azul da Cavalaria de um general Mackenzie… qualquer coisa! Na verdade, os peles-vermelhas tinham baptizado aquele enorme espaço pantanoso da sua reserva com o nome de «Terras Incultas» e, a exemplo dos escassos bisontes que por ali vagueavam, evitavam o local cuidadosamente…
Um dia, o governador dos brancos enviou uma delegação de três homens “bem-falantes” ao chefe «Urso Enraivecido» que, na altura, se chamava só «Pai Urso», com a missão de levar a tribo a trocar as «Terras Incultas» e restante território da reserva por um vale regado por afluente do rio Wappoko. Como as duas partes encontrassem a troca a seu contento, as negociações não foram longas, apenas duraram o tempo de trocarem umas cachimbadas no velho cachimbo da tribo que, diga-se de passagem, os brancos logo enjoaram… Ficou combinado que a tribo tomaria posse do seu novo domínio no dia seguinte à Lua Cheia, enquanto os brancos ocupariam as «Terras Incultas» logo a seguir. A notícia espalhou-se por imensos aglomerados urbanos e lamacentos daquela parte do Dakota. Caravanas de carros, homens a cavalo seguidos de famílias, aventureiros, troca-tintas e desgraçados surgiram de todos os lados para se inscreverem nas listas da administração regional. Segundo o costume em vigor, a terra a distribuir do outro lado do rio, pertenceria ao primeiro ocupante. Isto é, àquele que conseguisse cravar quatro estacas antes dos outros, em determinado local por si escolhido.
Para informar o leitor convém dizer que nenhum daqueles homens pretendia iniciar a pesquisa de petróleo. A única ambição que acalentava era a de “cortar uma fatia do bolo”, por assim dizer, vendendo-a à companhia petrolífera que oferecesse mais.
Fosse como fosse, a proximidade da data sobreexcitou os brancos que, no entender dos sioux, pareciam cães esfomeados espreitando de longe um grosso osso. Armaram-se zaragatas, ouviram-se tiros isolados e, com o estimulo do uísque, numa garrafa escura debaixo do casaco, a lama dos escassos arruamentos povoou-se de homens embriagados que se esmurravam “desportivamente”… Assim se anunciava que o “oiro negro” vinha cercado da auréola das maldades e violências mais abomináveis… Premonição do chefe, ainda chamado «Pai Urso»?!
A noite da Lua Cheia estava prestes a descer. O chefe «Pai Urso» ergueu-se e, avançando um passo para o centro do círculo formado pelos anciãos do seu conselho, voltou-se para um jovem vestido como os brancos.
«-Que tens de tão importante a dizer-nos, para me pedires a convocação dos anciãos?». O interpelado ergueu-se sobre a manta no chão onde se sentava e, por sua vez falou, correndo o olhar pela assembleia: «-Vim a galope porque soube que ireis abandonar a reserva e as “Terras Incultas”! Os brancos, como sempre, enganaram-vos!». O chefe: «-Pretendes tu dizer que essas rochas e terras mal cheirosas valem mais do que um vale onde há caça e água límpida?». Respondeu o jovem índio vestido à europeia: «-A caça acabará por se extinguir, com a vossa teimosia em só daí retirarem a alimentação em carne, mas essa lama que vós desprezais, aos olhos dos brancos, vale tanto como um rico filão de oiro ou mil peles de castor. A posse das “Terras Incultas” que acabaste de ceder aos brancos, poderia assegurar o bem esta da tribo por muitos milhares de Luas Cheias!». Mas «Pai Urso» retorquiu: «-Tu não sabes nada! Se tivéssemos recusado, os brancos desalojavam-nos pela força… e haveria mortes!». O rapaz índio, entusiasmado: «-Pois eu trago-lhes o meio de ficarem com as “Terras Incultas”… Não pela violência, mas pela astúcia.». Logo o chefe: «– Quem nos diz que podemos confiar em ti?». Respondeu o rapaz: «-Devo lembrar que minha mãe era da vossa tribo e foi ela que me educou e ensinou a nossa língua… Não faço mais do que honrar a memória de minha mãe!». A segurança e a sentimentalidade do jovem convenceram o chefe «Pai Urso» e a assembleia de anciãos. O jovem explicou que pela parte do pai era cidadão americano e, portanto, poderia legitimamente inscrever-se e participar na corrida para a posse dos terrenos nas «Terras Incultas»…
O rio Wappoko saía de um lago natural, formado por uma barragem de rochas, mergulhando no desfiladeiro com esplêndida e bela queda de água de uns dez metros de altura. Os índios mais vigorosos da tribo chegaram ao local manhã cedo e, com energia redobrada, entregaram-se a uma misteriosa tarefa…
Perto do meio-dia, hora fixada para o início da corrida, na margem do lado dos brancos as canoas alinhavam-se, e os que as não possuíam, montavam os cavalos em que pretendiam atravessar o Wappoko, seguindo depois em direcção às «Terras Incultas». Um dos homens da administração apontou para o ar o revólver, e disparou o esperado tiro de partida. No mesmo instante, um rumorejar de águas distantes aproximou-se, tornando-se num rugido e, depois, numa torrente impetuosa do Wappoko, acontecida sabe-se lá como e porquê… Alguns cavaleiros só a muito custo foram salvos da corrente. Os donos das canoas viram as embarcações arrastadas pela corrente e despedaçadas contra as rochas das margens, felizmente não tinham tido tempo de entrar nelas de remo em punho…
Então todos olharam o rio: – Numa frágil canoa, sem empunhar remo algum, um jovem índio alcançava o meio do rio puxando simplesmente uma corda, amarrada a uma árvore do lado da reserva dos sioux!
A multidão de aventureiros, estupefacta e lançando gritos de ódio, ainda viu o jovem saltar para a margem e dirigir-se para os lados das «Terras Incultas»… Súbito, ouviu-se um tiro de carabina! O jovem deu um salto no ar e tombou, mortalmente atingido! O administrador Smith garantiu desta forma que o petróleo seria somente dos brancos!
Instantes depois, o chefe deixou-se ficar onde o jovem caíra, não fazendo qualquer tentativa para o levantar. De olhos vidrados, começou a executar uma canção dirigida ao poder total, a «manitu»…
Ignorando até onde o poderia levar a abjecta cobardia, o administrador Smith aproximou-se do chefe que, já então, se havia transformado em «Urso Enraivecido»! Nessa altura, o punho do índio desferiu-lhe um potente murro em plena cara!
Foi então que «Urso Enraivecido», se voltou para a multidão que o presenciava e gritou: «-Seus cobardes! Suas bestas!»… Depois pronunciou na sua língua uma praga imensa, e atirou terra para o ar… Desde então, e não só entre os brancos, “a corrida ao petróleo” por esse mundo fora só tem produzido intenções belicosas, guerras continentais horrorosas, poluição ambiente, crimes rodoviários todos os dias, e desastres económicos em todo o planeta.


