DOS COMPROMISSOS DA ESQUERDA DE ONTEM AOS FALHANÇOS TRÁGICOS DA ESQUERDA DE HOJE: QUESTÕES À VOLTA DE UMA SÉRIE DE CAPITULAÇÕES. – EIS POIS A RAZÃO PELA QUAL A VOSSA ESQUERDA ESTÁ MUDA – por ÉLISABETH LÉVY

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

mapa_francaEis pois a razão pela qual a vossa esquerda está muda

 

ÉLISABETH LÉVY, ET VOILÀ POURQUOI VOTRE GAUCHE EST MUETTE

Causeur nº 17, Outubro de 2014

esquerdavaimorrer - VIesquerdavaimorrer - VII

“Se não nos ocupamos da esquerda, é a direita que vai cuidar de nós.” Frédéric Lordon, economista oficial dos anti-sistemas não se dá ao trabalho de mencionar o pavor que naturalmente nos deve inspirar uma tal perspectiva. Na imaginação do leitor-tipo do Monde Diplomatique, a palavra ‘direita’ deve-se referir seja a um cínico banqueiro ou a um fascista dos duros – gerador de situações de fome e de violência. E a acreditar no que Lordon escreve, há mesmo esse risco no país: a direita está em toda parte, especialmente à esquerda. Pode-se ficar descansado, no entanto: “a esquerda não pode morrer”, proclama Lordon.  A verdade nunca morre. Seria injusto reduzir Lordon a estes slogans e a um aflitivo e angustiante maniqueísmo, que o impede de falar com os seus adversários. Resta-nos que esta boa consciência inata que se torna surda a toda e qualquer contradição é, talvez, o último denominador comum de “ser de esquerda”: ser de esquerda, é ter razão.

Quanto ao resto, não se sabe muito bem o que significa uma palavra de que Frédéric Lordon e Pierre Moscovici se reclamam simultaneamente. Daí a importância de ser o depositário da marca, o garante da qualidade controlada.

E se a esquerda não fosse mais do que isso, um totem – um significante  que se  empalha sem ver que o cadáver do seu referente está já em decomposição? Isto é uma das curiosidades francesas: uma metade dos responsáveis políticos (a boa metade) gasta muito tempo para mostrar a pata esquerda, a protestar que eles são a “verdadeira esquerda”, a lembrar a sua folha de serviços à esquerda ou ainda a desmascarar os imitadores que usurpam a palavra mágica. Se Arnaud Montebourg deixa o governo, é porque este governo não faz uma política de esquerda, se Aurélie Filipetti o acompanha na saída não é, de forma nenhuma, pelo que se pode ver em grande título em Paris-Match, o que irão pensar, mas sim porque ela continua de esquerda,  se os contestatários estão contra François Hollande é porque ajudar as empresas, é estar a ajudar os patrões e isso não é de esquerda. A evidência, escreve-se nas redes sociais, de que o Presidente não é de esquerda está em que ele não gosta de pobres – os sans-dents. Dois séculos de revoluções, lutas sociais, controvérsias doutrinárias, para se chegar aqui, a explicar que a esquerda gosta dos pobres, é, sem dúvida, a razão pela qual os pobres não são de esquerda (eles também não gostam dos pobres). O mais chocante é que o presidente se sentiu obrigado a desmentir.

Na ausência de um Papa reconhecido por todas as capelas, ou um pequeno livro vermelho venerado por todos os fiéis, devemo-nos  render à evidência: na esquerda, todos querem estar, mas ninguém sabe o que ela é. Certamente, é  Lordon quem  nos ensina que a esquerda é uma ideia: “igualdade e verdadeira democracia, eis pois a ideia do que é a esquerda. ” Não se vê quem, mesmo à direita, se oporia a este ideal. A fórmula é, portanto, ou perfeitamente insignificante ou então um pouquinho assustadora – algo me diz que esta “verdadeira democracia” poderia ter um ar de Comissão de Salvação Pública. Em suma, não avançamos nada na percepção do que é. É verdade que Lordon não se contenta com esta frase simples: “ser de esquerda é negar a soberania do capital.” Apesar da desconfiança que inspiraram as soluções para aqui se conseguir chegar, seria simplesmente errado ficarmos satisfeitos com a ironia que se pode levantar sobre este programa em que se concentram as aspirações de milhões de cidadãos que sentem que os comandos escapam ao controlo dos seus eleitos. Além disso, Lordon agarra-se à quimera pós-nacional e com isso apela à refundação das esquerdas nacionais, o que, pelo menos, tem o mérito da coerência.

De Melenchon a Hollande, num ponto no entanto toda a gente está de acordo: a esquerda está mal, muito mal. Perdida no plano doutrinal, politicamente enfraquecida, ela vê a sua hegemonia cultural ameaçada – fenómeno parcialmente mascarado pela persistência do poder dos media. E sabemos porque é que vai tão mal? Porque a esquerda perdeu o povo, muito simples a explicação! Mesmo o jornal Libération consagra o principal título da primeira página a Christophe Guilluy, no entanto responsável por se preocupar com “pequenos brancos”. E quando Guilluy lamenta que se tenham sacrificado as classes populares, os jornalistas consideram  que  não há aqui lá “nada de muito novo ou muito polémico“. Que os proletários fugiram da esquerda governamental já deixou de espantar e parece ter também deixado de preocupar.

O problema é que uma esquerda sem o povo, não é muito sério. E quanto aos bobos e os imigrantes, isto não constitui nenhuma base eleitoral. Por falta de sociologia e desprovida de uma qualquer bagagem ideológica séria, a esquerda já não tem muito mais nas prateleiras das suas estantes do que os seus bons sentimentos. A esquerda tem coração. A esquerda não tem hoje,  nada mais mesmo  do que coração.

E, contudo, o mundo está cheio de ideias de esquerda que se tornaram loucas. Ou muito estúpidas. Já não sabemos se a esquerda é liberal ou defensora do estado-Providência, se europeia ou europeísta, se republicana ou multicultural. Resignada – pela sua ala governamental – à  ideia de que não há nenhuma outra política possível que não seja a da Europa sob a liderança alemã, ela julga estar assim a reconstruir a sua saúde com os seus novos chocalhos sociais ou com os seus trocadilhos semânticos. Que seja dito, a esquerda defende a mudança, a igualdade e a virtude.

É um facto: historicamente, a esquerda, é o partido do movimento, da mudança. Porém, esta não viu que o movimento tinha mudado de campo, aconchegando-se assim no capitalismo mais desenfreado. Desta forma, continua ela a recitar o mantra da mudança. Questionado por Anne Sinclair na Europa 1, Matteo Renzi enunciou uma das suas tautologias que mergulham a rua Solferino no arrebatamento absoluto quando afirmou: «a esquerda que não muda, não se pode chamar de esquerda, ela é a direita » E, continuou “se não mudarmos as coisas, somos conservadores”. Imparável, este senhor Matteo Renzi..

Da mesma forma que não viu os ventos de mudança mudarem de direcção, a esquerda não se apercebeu de que a ordem estabelecida era ela própria. O que torna particularmente cómica a subversão reivindicada pelos brincalhões e pelos pseudo-pensadores que acumulam os benefícios da contestação e o conforto da dominação. O punhado de rebelocratas, que apelaram ao boicote de Marcel Gauchet é representante desta esquerda bem pensante que está irritada com o povo, obrigatoriamente reaccionário, mesmo fascista até.

Não nos demoraremos sobre a igualdade, uma vez que os inúmeros crimes cometidos em seu nome são bem conhecidos. Assim, exige-se que os homossexuais possam ter filhos em conjunto mas ao mesmo tempo suprimem-se as ” bolsas de mérito” – acusadas de favorecer os bons alunos. Ninguém pode ser ultrapassado mas cada um deve poder ver realizados todos os desejos de seu pequeno ‘eu’.

Mas a mais louca de todas as ideias malucas da esquerda, é a virtude e o seu corolário é a transparência.  Não é uma coincidência, que à palavra “moral”, provavelmente também marcada pela sua origem burguesa, Edwy Plenel, outro profeta da “verdadeira esquerda” prefere a palavra ” virtude ” com conotações à Robespierre. Ao inventar a transparência para dar prazer aos jornalistas (que no entanto não estendem as suas  exigências à sua corporação profissional ) e para se desenrascar do atoleiro Cahuzac, François Hollande enviou uma mensagem bem clara aos franceses: “os franceses têm direito de saber tudo a nosso respeito. Nós não temos nada a esconder. “ Não há grande coisa a saber, a julgar pelo trabalho literário da sua ex-companheira. Com Trierweiler, os socialistas receberam em plena face o bumerangue da transparência. O indecente desembalar de intimidades a que fomos convidados é bem o inverso da moralização, um nome dado agora à denúncia organizada. Antes, denunciavam-se os fraudulentos, e será que hoje se denunciam os maus pagadores, amanhã os mentirosos, depois de amanhã os maridos adúlteros ? Certamente, o Presidente nunca reivindicou que a transparência deve ser alargada aos assuntos íntimos, mas tinha-se que ser ingénuo para acreditar que a curiosidade do cidadão iria desvanecer-se à porta do seu quarto de dormir. Afinal de contas, é ai que os maridos violentos batem nas suas mulheres – o que não tem nada a ver com François Hollande. Entretanto, a exx-companheira do Presidente da República tem uma arma apontada à sua testa, um pouco sobre a nossa também, ( esta referiu que mantinha na sua posse todos os seus SMS). Imaginemos que isto a incomoda muito e que no momento em que as forças militares francesas são envolvidos em operações militares no Iraque, isto alegraria muito os assassinos do EI. Assim, ao contrário da maioria dos meus colegas, não considero que um guarda-chuva seja um atributo essencial do homem de Estado. O segredo, sim. No fundo, a imagem do Presidente lamechas e exposto aos olhos dos franceses é uma imagem de síntese da situação. A esquerda está nua. Em todos os sentidos do termo. E isto não é muito bonito de se ver.

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Pode ler o original em:

http://www.causeur.fr/et-voila-pourquoi-votre-gauche-est-muette-29606.html

 

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