
Tudo o que diz respeito ao Homem deve ser «progressivo». Todos querem ser “progressistas” ou assim se auto-intitulam … Até os homens e mulheres de direita, francamente reaccionários, se dizem amantes do progresso e “progressistas”! Esta “teoria” do «progresso» é ideia que veio a ser desenvolvida por Condorcet (1743-1794) e, depois, mais elaborada, pelos sociólogos do século XIX (Saint-Simon, Comte, Marx).
Neste caso, «progresso» quer dizer andar para diante. Todavia, tenho fortíssimas dúvidas sobre o fundamento real desta presunção tão vulgarizada. Conduz-nos isto a uma teoria da História que “descobre” no seu decurso a existência de um programa do bem humano. As teorias assim fundamentadas partem todas da prévia existência e escolha de um “programa social”, selecionado de forma “facciosa” pelos próprios historiadores. É claro que nenhuma teoria deste género pode ser comprovada cientificamente. A História em si mesma não tem nenhum “programa social”!
Posso acreditar na História do passado e na experiência do presente, por isso sou levado a reconhecer que tudo quanto há em nós de mais admirado, consolador e entusiasmante, nasce efectivamente do retorno espiritual, quer à infância do indivíduo, quer às primeiras idades do género Humano.
O cientista não faz mais do que dar forma e método à insaciável curiosidade da criança e do jovem. O poeta não consegue alcançar o génio se não volta ao espanto e à frescura fantástica do menino. O culto dos mortos (vejam-se os dólmenes), que sobreviveu até aos nossos dias (mesmo entre os ateus), remonta à época pré-histórica e é, provavelmente, o primeiro ritual sagrado praticado pelos nossos remotos antepassados. A Fé mais segura e inocente, sobretudo nos santos, assemelha-se à pura crença da infância, e o culto da Virgem não é senão o reforço sublimado do amor infantil à mãe.
O regime democrático e parlamentar, que nos parece uma glória dos tempos modernos, encontramo-lo nas mais antigas tribos, onde os negócios e os interesses comunitários eram discutidos e decididos por assembleias de anciãos.
Os artistas das artes plásticas que são hoje considerados a vanguarda da Arte, não fazem senão voltar às decorações “abstratas”, pinturas e esculturas mal esboçadas e “deformadas” dos pintores e escultores da idade da pedra. A gruta de Lascaux, no sudoeste de França (Dordonha), descoberta casualmente em 1940, apresenta pinturas (bois, cavalos, gamos) do fim do Paleolítico, período que deve ter durado um milhão de anos e onde se situa o aparecimento do homo sapiens. Pois bem, o insólito das pinturas do pintor catalão Miró, recuando no tempo, aproxima-se do recorte das pinturas rupestres de Lascaux!
Estes “regressos” ao passado, entre muitos outros (como por exemplo a chamada agricultura biológica), que são facilmente documentáveis e por isso impugnáveis, deveriam induzir os abusadores das palavras a uma menor jactância “progressista”, e a maior precisão de linguagem aos porta-vozes do reinante papaguear contemporâneo. Sobretudo hoje em dia, em que o “progresso” está bastante empobrecido no contexto da sociedade de massa, preocupada quase exclusivamente na pluralidade do consumo imediato.
