MITO & REALIDADE – Morte e terror em Lisboa – 5 – por José Brandão

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Com ordens para avançar sobre Lisboa, o único destacamento que sai de Mafra, sob o comando do coronel Alves Pedrosa, ao chegar à Malveira decide não dar mais um passo sem ordens diretas do Presidente da República.

António José de Almeida sabe que o Exército não se encontra em condições de enfrentar a GNR. Estava praticamente desarmado em comparação com o potencial de fogo que a Guarda podia dispor. Uma medida de data recente determinara a transferência do melhor material do Exército para as mãos da Guarda Nacional Republicana.

Pelas nove horas da manhã, uma multidão de civis, soldados e marinheiros, caminha já em direção à Rotunda saudando a vitória dos revoltosos.

Meia hora depois uma comissão de membros da Junta Revolucionária procura avistar-se com o Presidente, manifestando interesse em falar com ele. António José manda-lhes dizer que não os pode receber sem ter primeiro uma dada resposta do presidente do Ministério e que os receberia por volta das onze e meia. Pouco faltava para o meio-dia quando finalmente o chefe do Estado aceita receber os delegados revolucionários, na sua residência particular na Avenida de António Augusto de Aguiar.

Àquela hora já as forças revoltosas eram em absoluto senhoras da situação. Desde as onze horas que todas as unidades militares e de polícia obedeciam às ordens da Junta Revolucionária.

A delegação era composta pelo coronel Nobre da Veiga, primeiro-tenente Serrão Machado, capitão Camilo de Oliveira, e pelos civis Veiga Simões, Afonso de Macedo e Dr. Jacinto Simões.

Na sala de receção, António José de Almeida ouve o que a delegação revolucionária tem para lhe dizer. Veiga Simões, tido como homem de notável inteligência, republicano, e um dos principais teóricos do movimento, expõe os acontecimentos, apresentando a situação com todos os cenários favoráveis ao levantamento rebelde, para o qual pedem a adesão do Presidente.

O chefe do Estado, mostrando um aspeto de gravidade impressionante, declarou desde logo que de forma alguma pactuava com as exigências dos rebeldes e que não podiam contar com ele para o que quer que fosse. Em seguida, volta-se para o seu secretário-geral, Jaime Matias, e pergunta-lhe:

– Que horas são?

– Doze – responde.

Voltando-se de novo para a delegação dos revolucionários, exclama:

– É precisamente a hora em que considero findas as minhas funções oficiais de Presidente da República. Não podendo resignar de direito, perante o Parlamento, porque os senhores vão dissolvê-lo, desligo-me eu próprio, de facto, das minhas funções, e tanto mais que os senhores afirmam ter nas mãos todos os elementos de predomínio e invocam, nem de outra forma se podiam aproximar de mim, o direito revolucionário. A minha resolução é inabalável, mesmo que esteja em jogo a minha vida, a de minha mulher e a da minha própria filha.

Inclinou a cabeça, numa vénia, preparando-se para se retirar, mas antes ainda acrescentou:

– Devo, no entanto, dizer-lhes que serei sempre o mesmo António José de Almeida, aquele que sempre clamou pela República e pelo engrandecimento desta Pátria.

E com esta última declaração retirou-se definitivamente, deixando os que o escutavam numa atitude de ponderação.

Estes, num último esforço, ainda tentam que lhes sejam assinados alguns decretos sobre a constituição de um novo Governo, ao que António José de Almeida terminantemente se recusou, afirmando, mais uma vez, que as suas funções oficiais políticas tinham terminado:

– Já não sou presidente da República. A legalidade desapareceu e impera o poder revolucionário. Não assino decreto nenhum, ainda que me passem pelas armas.

Às seis horas da tarde, o Diário de Lisboa fechava a sua segunda edição com um registo que ocupava, em normandos grossos, toda a largura da última página: «A cidade continua com o mesmo aspeto pacífico que se vem notando desde a eclosão do movimento. Os ministérios continuam fechados, havendo movimentos de tropas no Terreiro do Paço. As ruas da Baixa, o Rossio e a Avenida estão cheias de gente, que vai lendo pacificamente os suplementos aos jornais da manhã e da noite.»

A tarde encontra Lisboa já com poucos sinais de alteração da ordem pública. À parte o aspeto teatral de uma dúzia de desnecessárias barricadas, a cidade caminha para a noite com a quase normalidade dos seus hábitos.

Os bombeiros, os hospitais e outras instituições semelhantes, que tinham adotado algumas medidas especiais de urgência, não chegam a ser necessárias.

As ambulâncias para condução de feridos, que a Cruz Vermelha concentrara no Terreiro do Paço, ou o posto de socorros instalado pela Cruz Branca na sucursal de O Século, no Rossio, nada tinham tido que fazer nestas primeiras horas da revolução.

Entretanto, o comando revolucionário distribui pelas ruas da capital a sua primeira proclamação:

«Às forças armadas de terra e mar. Camaradas!

A situação dolorosa do Pais reclama do nosso patriotismo o dever, mais do que todos generosos e instante, de impor um Governo de salvação pública, com um programa de ressurgimento nacional.

O povo republicano, secundado por forças de terra e mar, vai neste momento facilitar a S. Ex.ª o Presidente da República a solução política que em sua consciência o mesmo Exmo. Senhor julgará decerto a única conveniente aos altos interesses do País e da República.

Não cumprir as ordens de um Governo incompetente que procura defender apenas interesses pessoais e de partido é um dever de todos os patriotas.

Que o nosso partido, o de todos os portugueses honrados e patriotas, seja o da Pátria!

Viva Portugal! Viva a República!»

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BATERIA DE OBUSES DA GNR ATRAVESSA O ROSSIO

Desde o último contacto com os dirigentes do movimento revolucionário, até às dezassete horas, várias pessoas procuram convencer o presidente da República, pedindo-lhe que ceda, pelo menos com o fim de conciliar.

António José de Almeida não está disposto a isso.

Às dezassete horas é o próprio coronel Manuel Maria Coelho que o procura convencer, deslocando-se a casa do Presidente acompanhado do seu chefe do Estado-Maior, major Cortês Simões, da Guarda Republicana.

Durante três quartos de hora, os dois velhos companheiros de tantos combates pela República discutiram acaloradamente a situação. O resultado não se altera. O Presidente mantém a sua recusa:

– Não, não e não! Mandem-me fuzilar, mandem-me prender, mandem-me exilar, mas eu não me desonro.

António José de Almeida argumenta que qualquer transigência com os insurretos seria indigna para a sua pessoa. Enquanto chefe do Estado, jamais serviria para ferir a República. Categórico, recusa-se a empossar os homens que a Junta Revolucionária lhe indica para formar Governo. É presidente constitucional, não aceita imposições dessas.

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