BREVE HISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUESA (excertos) – 3 – por José Pedro Machado

 (Continuação)

 

Os conquistadores nortenhos conseguiram ultrapassar o Tejo e penetrar nos extensos territórios meridionais. Nos meados do século XIII apossaram-se, uma a uma, das cidades-estado que constituíam o território genericamente conhecido por Algarve. A integração política e social desses territórios conseguiu-se com a progressiva assimilação das populações que viveram sob o domínio islâmico sem abandonar o cristianismo nem as suas tradições nem os falares românicos.

Esta fidelidade ao passado não os impediu de aceitarem algumas influências dos dominadores, o que lhes permitiu manter contactos próximos com eles, constituindo-se intermediários entre as duas culturas por ali em presença, nos campos como nas cidades.

Uma nova classe social que, segundo parece, dava mostras de certa coesão e assistia às desinteligências entre os dominadores, sobretudo as que opunham árabes e berberes. Note-se, no entanto, que esse tolerado cristianismo lhes custou por vezes o martírio. De qualquer maneira, também se sabe de ocasiões em que, ao lado de muçulmanos, enfrentaram de armas na mão correligionários vindos do Norte, por vezes com a ajuda de cruzados a caminho de outros destinos.

Entre esses cristãos meridionais não faltava quem falasse árabe, pelo que os dominadores lhes chamaram must’arabi, «que entende, que fala árabe», causa de por vezes sofrerem a animosidade de cristãos do Norte e dos ocasionais aliados que procuravam atingir a Terra Santa. Acabaram assimilados, tal como aconteceu aos falares neolatinos (genericamente o romanço moçarábico) que tinham conseguido manter. Destes apenas terão ficado alguns vestígios na toponímia, como a conservação do – l – e do – n – intervocálicos (em Odiana e Mértola), passagem a – ç – do grupo – st –, como aconteceu em Cacela, do latim castellu- com intermédio no árabe qastala, e talvez ainda as variantes de entoação característica dos Alentejanos e Algarvios. Admitiu-se o desenvolvimento da personalidade do idioma a partir do latim vulgar no Noroeste da Península Hispânica entre o século VI e o IX, o período pré-histórico da sua evolução. Isto porque só na segunda metade do século IX foram escritos os mais antigos textos, dos hoje conhecidos, com vestígios da linguagem então corrente. Redigiram-nos em latim bárbaro, linguagem artificial, não falada, cujos redactores pretendiam imitar a de textos jurídicos e a usada pelos sacerdotes em actos religiosos. Isto sem disporem das habilitações correspondentes, o que os forçava a utilizar, adaptados ao contexto em organização, vocábulos e expressões da sua vida quotidiana (tantas vezes adaptados em latinório), revelando ignorância que naturalmente variava de escriba para escriba. Por isso esses textos constituem documentos de valor desigual para o estudo de falares então correntes.

O que deles conseguimos obter representa o chamado português proto-histórico. Tal prática ainda coexistiu com a de utilizar o português então corrente, isto é, já documentável por isso na sua fase histórica, iniciada nos princípios do século XIII, quando se redigiu o testamento de D. Afonso II, em 1214, mais ou menos quando também se escreveu a notícia do torto. Tudo isto no que respeita à linguagem não literária.

Quanto à literária, por hipótese de Carolina Michaëlis (Cancioneiro da Ajuda, II, pp. 593-594), seria de 1199 a cantiga «Ay eu, coitada, como vivo», que atribuiu a D. Sancho I (1185-1211), mas outros investigadores julgam-na de Afonso IX de Leão (1188-1230) ou de Afonso X, o Sábio, de Leão e Castela (1252-1284). Não parece por isso fácil atribuir data exacta, mesmo aproximada, a essa composição. Como certo, apenas podemos admitir a existência da poesia trovadoresca em português (ou mesmo em galego-português) nos meados do século XIII; em português, o da região de Entre Douro e Minho, estilizado que depois se mostrou próprio da língua-padrão ou julgada como tal.

E assim se criou, viveu e impôs a doce linguagem da poesia trovadoresca que, pela variedade dos temas como pelos méritos das produções, se impôs como uma das mais admiradas escolas literárias da Europa.

Na centúria seguinte verificou-se o desenvolvimento da prosa artística, capaz de interpretar e de difundir cultura, de revelar como interpretava, por exemplo, problemas políticos e espirituais (leia-se Fernão Lopes) com evidente e decisiva influência de mosteiros como os de Alcobaça e Coimbra. No início do século XV estava concretizado o que D. Dinis já tentara: a política e a cultura deslocarem-se para o Sul e tornar Lisboa a efectiva capital do País, o que reduzia a importância dos falares nortenhos e começava a impor-se o meridional.

E assim foi possível, com a forte influência local do movimento renascentista, aparecer, à distância de cerca de um século, a diferença linguística entre Fernão Lopes e Camões, apesar de ambos professarem a clareza e a simplicidade. Mas um representou o aperfeiçoamento da prosa portuguesa, enquanto o outro ergueu bem alto a poesia, que em breve caiu na decadência. Só recuperaria prestígio com o admirador de ambos e a eles ligado pela clareza como pela simplicidade: Garrett.

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Entretanto, se o português vulgar ia vivendo e deixando atrás de si pouca documentação (e a sobrevivente ainda à espera de quem a estude), o literário impunha-se com a prosa forte de Vieira, Bernardes e D. Francisco Manuel de Melo (também poeta), com a quantidade e a variedade dos temas tratados por outros autores de méritos variados. De entre esses temas sobressai o que na era quinhentista Fernando Oliveira, João de Barros e Duarte Nunes de Leão já tinham cultivado com brilho mas em área diferente: o estudo da língua portuguesa, isto na época em que se preparava e escrevia o texto d’Os Lusíadas. Para aqueles estudiosos, o interesse ia sobretudo para a pronúncia e para a ortografia, não esquecendo a valorização do idioma pela sua ascendência latina.

Além daqueles três no século XVI, convém também citar nos dois seguintes João Franco Barreto, Madureira Feijó e Luís António Verney. Quanto, particularmente, à lexicologia, se Jerónimo Cardoso realizou, também em Quinhentos, valiosa tentativa de inventário vocabular, foi o francês aqui estabelecido Rafael Bluteau quem organizou o primeiro inventário de vulto do nosso vocabulário (1712), ainda para isso enriquecido com colheitas de terminologias de técnicas e de profissões. Uma palavra para Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo que com o célebre Elucidário (1798) começou a explorar os textos medievais a que teve acesso, para neles descobrir, enfrentar e tentar resolver problemas do português antigo. Isto quando o incansável (e acerbo crítico de Viterbo…) João Pedro Ribeiro já explorava com saber diplomas que tinham conseguido escapar ao desgaste pelos tempos e à ignorância dos homens.

Mas ainda nos meados do século XVIII chegam a Portugal ares vindos de França, com a curiosidade de alguns dos principais «influenciados» (como Francisco José Freire) se notabilizarem como admiradores e «discípulos» de grandes vultos de tempos passados, como defensores da «pureza» do nosso idioma, sobretudo contra o galicismo pedante, mal utilizado por alguns dos autoconsiderados beneficiados com os tais ares de França. Mas, pelas obras que nos legaram como, sobretudo, pela linguagem com que as ergueram, não esqueçamos, entre outros, os neoclássicos Correia Garção e Filinto Elísio, sem esquecer naturais de terras do futuro Brasil, como António José de Silva, José Basílio da Gama, Santa Rita Durão, […] Cláudio Manuel da Costa. Junte-se-lhe António de Morais Silva, também integrado na admiração por ilustres do nosso passado. Compôs uma gramática do nosso idioma e o tão célebre Dicionário da Língua Portuguesa, na 1ª edição (1789) dado como «reformado e acrescentado» do Vocabulário Português e Latino, do mencionado Rafael Bluteau. Revista, emendada e acrescentada, esta obra teve 2.ª edição em 1813, mas agora sob responsabilidade do seu coordenador, tornada o verdadeiroDicionário de Morais, base dos futuros trabalhos congéneres do português.

E chegou outro século que se assinalou pelas obras como pela precisão, clareza e simplicidade da sua linguagem, aquela em que se exprimiram Garrett e Herculano. Estes foram simultaneamente compositores, maestros e executantes na orquestra que foi o romantismo português, que até preparou e deu rumo à navegação em que se salientaram primeiro o pujante Camilo e depois o modelar Eça de Queirós, o que morreu com o século XIX.

(Continua)

 

 

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