DE BRUXELAS, ONDE REINA A IGNORÂNCIA E A MALDADE, À REALIDADE DOS PAÍSES EM IMPLOSÃO – 2. A CRISE DOS ANOS A SEGUIR A 2010 – REFORMAS ESTRUTURAIS: DO QUE É QUE SE ESTÁ A FALAR (1.ª PARTE) – REFLEXÃO SOBRE A CRISE ECONÓMICA GLOBAL – por JEAN CLAUDE WERREBROUCK.

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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A linguagem de Bruxelas: as reformas estruturais

Reformas estruturais: do que é que  se está a falar? (1ª parte)

Jean Claude Werrebrouck, Réformes structurelles: De quoi parle- t-on? (1ère partie) – La crise des années 2010, réflexion sur la crise économique globale

Blogue La Crise des Année 2010, 23 de Setembro de 2014

 

As  ‘reformas estruturais’ – uma expressão elegante e na moda  – parecem estar a tornar-se a solução milagrosa para libertar  uma França que está atolada na  crise. O texto  seguinte procura  definir o contorno, o alcance  e especialmente as potencialidades  que se podem extrair.

Estas reformas tão frequentemente mencionadas têm a ver claramente com a política económica e não com os aspectos sociais ou culturais sobre, por exemplo,  o modo do exercício da religião, a idade em que se acede à maioridade  ou o código da estrada.

Por outro lado, fala-se sempre em agir  sobre  um corpus de regras, de que os  textos que fazem evoluir as modalidades  de uma interacção social, que se exerce  no jogo do que se chama economia.

Por conseguinte, estas regras que se deverá reformar  são infinitamente numerosas, pois que elas são  a âncora sobre a qual se estabelece  o mercado. Sem pretender ser exaustivo, pode-se citar  um grande número de campos de aplicação, cada um deles consistindo de regras elementares muito  numerosas. Citemos, alguns desses campos: Estado, autoridades locais, Segurança Social, (emprego e saúde) , organização do território, código do trabalho, regulamentação profissional, impostos, moeda, finanças, serviços públicos, habitação, assistência social, etc.

Cada alteração de regra elementar – cada reforma estrutural – é uma mudança de arbitragem nas decisões das partes interessadas (empregados, empresários, investidores, consumidores, empresários políticos e poder público propriamente dito). Trata-se, portanto, de mudar comportamentos. Por exemplo, o debate actual sobre os limiares sociais relativamente às  empresas, baseia-se inteiramente na esperança de uma mudança no comportamento dos empresários das  PME que poderiam ser menos  resistentes para a contracção de novos trabalhadores.

Porque as estruturas (regras) determinam os comportamentos, as suas modificações  (as reformas estruturais)  modificam-nos. Os sociólogos dizem por sua vez  que os novos comportamentos são difíceis de imaginar,  de modelizar  e, especialmente, de neles introduzir aspirações que levem às  novas estruturas… O que se chama de  dialética das estruturas e dos comportamentos.

Os Libertários – como Hayek – que não devem ser  confundidos  com os ultra-liberais, desconfiam de todo e qualquer construtivismo regulamentar trazido especialmente pelo vento forte que vem de  Bruxelas. O  discurso  deles  é simples: a empresa  ultrapassa o entendimento  e os homens de Estado – que aqui chamamos de empresários  políticos’ – não podem construir uma sociedade como se constrói uma  máquina. Claramente, o alcance de  uma mudança de uma taxa de IVA  é muito mais complexo a  imaginar do que a substituição de uma válvula num motor de explosão.

Os ultra-liberais que, mais  uma vez afirmo,  não são libertários, gostam do Estado e exigem que este  produza  regras que produzam uma sociedade… uma sociedade de mercado… abrigada face ao  Estado. Para eles, o Estado deve simplesmente assegurar o bom funcionamento do mercado e se se verificam aventuras a darem origem a   catástrofes— e se elas se  tornarem    regulares devido ao mercado financeiro – o Estado deve afirmar  presente para apagar os seus efeitos … com o risco de não mais ser capaz de conferir  um respeito absoluto pelos direitos de propriedade…

Claramente, sim,   a propriedade  permanece um mistério e não se pode fabricá-la  como se produz uma máquina, – a sociedade ultrapassa o entendimento – e quando o mercado entra em disfuncionamento, é necessário  uma autoridade protectora.

Esta digressão esclarece  já um pouco do que é preciso entender   por reforma estrutural. Mas temos que ir mais longe.

O jogo social  não é apenas o efeito de  empreendedores económicos e existem homens,  tais como assalariados,  consumidores, aforradores  ou inquilinos, ou mesmo os actores das  profissões ditas regulamentadas, que, eles também, gostam do abrigo que o Estado lhes possa conferir  e consideram que os seus interesses não são necessariamente os mesmos  dos empresários económicos. Eles também utilizam, ou também pedem aos  empresários políticos, as regras do jogo que não são necessariamente aquelas que dão origem ao nascimento  caótico da   sociedade de mercado.

De tudo isto se segue que uma organização jurídica é, necessariamente, um compromisso entre grupos de indivíduos. É este compromisso que se designa pela expressão  “interesse geral”,  simples abstracção em que convém acreditar – e abstracção que  é o produto de referência  dos empresários políticos – para se poder viver em conjunto.  Isto significa afirmar  que toda e  qualquer mudança de regra altera a repartição  do bem-estar que esta  última  fixava  estabelecendo  comportamentos associados.

Promover uma reforma estrutural corresponde, assim, em estar a promover uma mudança na repartição do bem-estar  entre os actores do jogo económico.

E é aqui que as coisas se podem tornar muito complexas: os homens podem não saber todas as consequências das  suas acções.  Em suma:  Hayek tem razão.

Então é verdade que uma regra que está a ir na  direcção dos interesses dos locatários (por exemplo bloqueando as rendas) leva a uma redução na oferta, a um défice  habitacional, a um mercado negro… que se vira contra a intenção da regra.

Assim, o código francês ou italiano do trabalho, tornando rígidos  os  contratos, exclui numa mesma lei os jovens  e apenas tem como efeito reduzir a procura: deslocalização, recusa em  investir, etc. O jogo aqui é particularmente complexo, já que estabelece três grupos de actores, em que um  (empregadores) pode  utilizar  outro (os jovens que procuram emprego) para esconderem  seus próprios interesses em termos de redução dos custos do trabalho. Decididamente, os problemas da sociedade são mais complexos do que os de um motor de explosão…

A crise é, deste ponto de vista,  uma oportunidade para os empregadores: ela torna possível justificar, com todas as provas necessárias, principalmente estatísticas, que é necessário reformas estruturais, libertando o mercado, a sociedade correspondente sendo  uma construção ideal.

Mas é possível encarar  um outro elemento de reflexão.

Sem cair na ideologia do interesse geral será que existem reformas estruturais face às quais todos os actores seriam ganhadores ?

Nós estamos a pensar naturalmente no  “grande programa de libertação do  crescimento” imaginado por Jacques Attali em 2008, um grande programa que consiste em 316 decisões que eram outras tantas  reformas estruturais. Estas reformas, será que elas podem  na verdade, gerar o crescimento?

(continua)

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Ver o original em:

http://www.lacrisedesannees2010.com/2014/09/reformes-structurelles-de-quoi-parle-t-on-1ere-partie-la-crise-des-annees-2010-reflexion-sur-la-crise-economique-globale.html

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