CRÓNICA DE DOMINGO – O GOSTO PELA ARTE – por Adão Cruz

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A minha profissão em nada tem a ver com as artes plásticas. No entanto, o meu amor pela Arte fez-me entrar, quer na teoria quer na prática, na fantástica aventura dessa seara alheia, sempre na humilde posição de aprendiz e curioso.

Assim sendo, fui-me apercebendo pela vida fora que o academismo, fundamental e indispensável em ciências como a engenharia, a medicina, a matemática, a física, a astronomia e muitas outras, não o seria tanto nas artes plásticas, nascidas muito mais de dentro para fora do que de fora para dentro. Claro que isto pode constituir uma heresia para quem tenha um laborioso percurso académico. Mas há muitos factos que suavizam em grande medida esta hipotética heresia. Um deles é a existência de muito conceituados artistas sem percurso académico e de outros, também prestigiados, que consideram o academismo a doença congénita da arte. Mas, a meu ver, o facto que mais sustenta a duvidosa utilidade do academismo na capacidade criativa é a existência da chamada Arte Bruta.

A designação de Arte Bruta nasceu da mente de Jean Dubuffet, em 1945. Nela ele incluía todas as obras executadas por pessoas sem cultura artística, autodidactas, marginais e, sobretudo, doentes mentais. Com o tempo foram incluídos criadores livres de qualquer influência de estilos, de vanguardas e de imposições do mercado de Arte. Ele próprio, Dubuffet, reuniu uma apreciável colecção destas obras, hoje propriedade do Musée d’Art Brut em Lausanne. Aloïse, Alfredo Pirucha  e  Adolf Wölfli foram alguns destes artistas que adquiriram grande reputação. Este último chegou a viver quase metade da vida num asilo de alienados onde morreu em 1930. Mas há muitos outros, como Henry Darger, Scottie Wilson, Lubos Piny, Guo Fengyi, Anna Zemankova, cujas obras fazem hoje parte de prestigiados museus do mundo.

Estes artistas marginais, muitos deles doentes do foro psiquiátrico, desenvolvem um trabalho criativo fora de qualquer contacto com instituições de Arte, pintam como respiram e da forma como constroem o seu mundo, muitas vezes escondendo-se para pintar, respondendo de forma espontânea a um forte impulso interior, reflectindo as suas obras estados mentais especiais, por vezes extremos, idiossincrasias individuais e fantasias que nos levam a crer que pessoas com estes comportamentos podem ter uma capacidade criativa deveras original, igual ou maior do que a das outras pessoas.

Há Instituições conscientes desta realidade em todo o mundo, levando a efeito grandes exposições com o fim de combater eventuais estigmas e que oferecem uma nova leitura da história da Arte. A Oliva Creative Factory, em S. João da Madeira, abriu em Maio de 2014 o primeiro museu de Arte Bruta em Portugal e na Península Ibérica. Também em Coimbra irão ser expostas este mês, em cinco espaços diferentes, dos quais o principal é o Museu da Ciência, obras de mais de 100 artistas com doença mental grave. Segundo o curador, a exposição no Museu da Ciência “é a grande exposição do evento que poderia, sem nenhuma espécie de condescendência, estar presente em qualquer museu do mundo”. Estas cinco exposições estão inseridas na iniciativa Saúde Mental e Arte do Programa para a Saúde Mental, tendo como comissário responsável pelas artes plásticas deste projecto, Carlos Antunes.

De tudo isto, e por tudo isto, além das considerações já expostas mais acima, eu gostaria de tirar, se possível de forma bem racional e não abusiva, uma conclusão fundamental, segundo o meu ponto de vista. De facto, como diz Carlos Antunes, sendo a Arte um meio que os doentes mentais têm para comunicar com o mundo, encontrando na produção plástica uma razão de existir que representa e materializa os seus fantasmas e desejos, a sua Arte nasce de dentro para fora, nasce espontaneamente do seu íntimo, do seu e do nosso fascinante mundo neuronal. Assim sendo, e não havendo ninguém que eu conheça que saiba dizer-me o que é a Arte, estaria aqui um grande apoio à tese que há anos defendo: a Arte ou Sentimento Artístico é acima de tudo um sentimento, em termos neurobiológicos, um sentimento como outro qualquer, dentro da nossa complexíssima árvore neuronal.

 

Adão Cruz

 

 

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