Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Reformas estruturais: o fim do viver em conjunto como franceses
Jean Claude Werrebrouck, REFORMES STRUCTURELLES: LA FIN DU VIVRE ENSEMBLE FRANÇAIS,
Blogue La crise des années 2010, 26 Agosto de 2014,
O Presidente da República acaba de escolher mais abertamente a desvalorização interna estudada em nosso artigo de 20 de agosto do ano passado (1). As reformas estruturais, portanto, irão prevalecer como outras tantas tentativas de remédios para o crescimento. Além das considerações económicas amplamente desenvolvidas neste blog, seria interessante pensar na maneira de vivermos em conjunto que elas induzem.
A regulação fordista posta em prática no final da segunda guerra mundial também se tem estado a alimentar de reformas estruturalmente capazes de participar num enorme crescimento que a grande depressão tinha feito desaparecer.
No entanto, estas reformas eram socialmente inclusivas, incorporavam a ideia de progresso contínuo e consolidavam a ideia de comunidade soberana, a base de um destino democraticamente negociado.
Claro, elas também eram e sobretudo isso, uma reavaliação do processo de reavaliação interna do trabalho, um trabalho agora melhor pago e especialmente mais protegido. A lista das reformas estruturais do tempo é muito grande para as mencionar em poucas linhas; digamos apenas que elas eram particularmente, directa ou indirectamente, ideias do Conselho Nacional da resistência.
O fordismo no final dos anos de 1970 já tinha esgotado a contribuição das reformas estruturais de depois da guerra – que se tornaram contraprodutivas – quando este mesmo fordismo começou a viver de outro modo, por outras formas: a globalização (2). Porque o aparelho de produção do fordismo está fundamentalmente transformado, a desmonetarização lenta das reformas estruturais também se desenrolou sem a hostilidade decisiva de todos aqueles que dele beneficiam ainda, por vezes com base num crescimento da dívida pública… logo a crédito…
O assalariado que era em simultâneo um consumidor e um cidadão, torna-se assim um ser muito mais disperso : a sua cidadania evapora-se no fim da soberania do Estado-nação e o seu interesse de consumidor levou-o a minar o seu próprio emprego. Tornado ” individuo de desejos “, consome os direitos de liberdade e enche-se de ilusões na economia globalizada e digitalizada (3).
Então é agora politicamente possível ir mais longe e propor reformas estruturais de natureza completamente diferente: a lei na sua rigidez já não é necessária, ela já não liberta. O contrato na sua flexibilidade é-lhe preferido . Desregulação, simplificação, abertura, livre escolha, fluidificação, tornar-se-ão a axiomática da nova forma de se viver em conjunto.
O preço económico destas transformações é considerável e nunca deixamos de mostrar neste blog que é o princípio explicativo da grande crise dos anos 2010 (4). Este preço tem sido até agora globalmente aceite: tendo desaparecido o progresso com o desaparecimento da Nação que lhe deu significado, parece que os esforços colectivos e as restrições por ele impostas, são rejeitadas a favor da liberdade mais formal.
O caminho está livre para as reformas estruturais, de natureza completamente diferente. A França, que tinha sido um dos últimos países a resistir, aceita com o seu novo governo, todas as consequências da desvalorização interna portadoras de ajustamento à globalização.
A partir de agora, as reformas estruturais deixarão de ser inclusivas mas encarregadas de continuar a fragmentação social.
A partir de agora, as reformas estruturais não serão mais portadoras de um progresso contínuo e o tempo bem orientado, torna-se futuro esmagado pela gestão do presente (5).
A partir de agora, as reformas estruturais desencadeadas pela exigência dos mercados, apagarão ainda mais a ideia de nação soberana enquadrando uma democracia.
A França na sua excepcionalidade tinha feito muito melhor, tinha resistido à crise, o levava a dizer que ela não conhecia os planos de austeridade. Ausência a partir da qual os outros países poderiam aliviar as dores da sua própria desvalorização interna pelas suas exportações vendidas à França… protocolo médico que se vai acabar.
A partir de agora ela vai entrar na austeridade e vai transformar profundamente o seu estar a viver em conjunto. Este último, – historicamente sempre difícil a construir (1789,1830,1848,1970,1940,1958,) – vai-se desfazer de forma mais acelerada sem que uma solução seja hoje referenciável. É que, outrora, as medidas estruturais geravam unidade entre as pessoas, enquanto hoje ‘ hoje elas dispersam-nos num alegre afogamento colectivo. E os “candidatos” ao afogamento são muitos, tanta é a ignorância da realidade económica e social. Quando o quadro de valores se está a desmoronar, é a própria razão que se apaga . Claro, a chamada liberdade de imprensa traz a sua contribuição para edificação do nevoeiro intelectual e o alegre afogamento colectivo .
Os empresários políticos que têm a infelicidade de exercer o poder deixam de poder empunhar a ideologia do interesse geral e correm o risco de compreender que eles não passam de umas marionetes da “sobre-classe” muito querida de Jacques Attali. Os representantes desta última , ao abrigo do afogamento colectivo, marionetistas dos primeiros podem exercer em todos os lugares um lobby alegadamente virtuoso : o software de formação intelectual que lhes foi proposto nas escolas superiores não lhes permite decifrar “o mundo tal como ele é” (6).
As reformas estruturais que aí vêm: uma gigantesca automutilação .
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Nota: Para um aprofundamento desta nota de análise leiam-se com atenção os textos referidos nas notas abaixo .
Jean Claude Werrebrouck, REFORMES STRUCTURELLES: LA FIN DU VIVRE ENSEMBLE FRANÇAIS, blog La crise des années 2010, 26 Agosto de 2014
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