Fui dos que, em 2008, expressei publicamente a minha satisfação com a eleição de Barack Obama para a presidência dos EUA. E que, apesar das reservas pela consciência dos condicionamentos que a realidade política estadunidense imporia à sua ação, alimentei esperanças de que algo pudesse melhorar no “império mundial” do mundo globalizado depois da calamitosa administração de W. Bush. Sucessivamente, nesta coluna, em 15 Fev, 29 Out e 12 Nov de 2012, em 21 Jan de 2013, fui dando conta do meu crescente desencanto com Obama, sem nunca deixar de afirmar que, apesar de tudo, não sou dos que pensam que inquilino democrata ou republicano na Casa Branca, é indiferente. Quando, depois de prolongada ausência, regressei ao convívio dos argonautas, em 6 de Out de 2014, ao retomar algumas abordagens sobre o caos da conflitualidade mundial, não tenho escondido as responsabilidades que creio caberem a Obama.
E, apesar de tudo, recebi com enorme desconforto e profunda preocupação os resultados das eleições intercalares nos EUA. A derrota do Partido Democrata e, com ele, de Barack Obama, foi arrasadora e em todos os planos, Senado, Câmara dos Representantes, Governos de Estados. O que confirma uma realidade, as cedências sistemáticas aos setores conservadores não travam o avanço destes, antes o reforçam. Quando um poder de esquerda (uso a dicotomia esquerda/direita para facilitar a exposição, consciente que não é rigorosa quando aplicada ao contexto americano) hesita, vacila, cede às pressões da direita, apenas está a abrir o caminho à direita pois o eleitorado flutuante sabe que para políticas conservadoras a direita faz melhor que a esquerda. Isto parece um tanto paradoxal quando até se sabe que a situação económica dos EUA melhorou face aos anos W. Bush, crescimento quase em 4%, desemprego inferior a 6%, défice de 2,8% (índices de 2014). Mas a verdade é que os mais poderosos não deixam de ser os mais favorecidos, o fosso da desigualdade acentua-se, a classe média perde estatuto social.
O avanço do Partido Republicano vinha-se consolidando. Em 2010 ganhara a maioria na Câmara dos Representantes. Agora fez o pleno, reforçou a maioria na Câmara, conquistou a maioria no Senado, garantiu a maioria dos governadores estatais. Mas nem tudo é fácil para os republicanos quando olham ansiosos para 2016. As eleições intercalares são tradicionalmente desfavoráveis à Casa Branca e não podem ser mecanicamente projetadas para as presidenciais. A direção do Partido confronta-se com o radicalismo interno do Tea Party o que a vai obrigar a ser conciliatório com o presidente em muitas matérias. Estes resultados são algo aleatórios porque dois terços dos eleitores primaram pela abstenção, apesar de ter sido a campanha intercalar mais dispendiosa de sempre. A grande massa dos abstencionistas situa-se nos setores que menos pesam na sociedade norte-americana. Mas a verdade é que a impopularidade de Obama é grande e os nomes democratas que se perfilam para a sucessão não são mobilizadores.
No discurso após as eleições Obama disse que entendeu a mensagem. Esperemos que também saiba ler a mensagem dos que não votaram por desencanto, por cansaço, por revolta. Se considerarmos apenas questões de política interna, já que em política externa a linha de demarcação entre democratas e republicanos é menos linear, que não ceda em questões essenciais e que suscitam a ira dos fundamentalistas da direita, a proteção social (obamacare), a solução para a imigração ilegal, as armas individuais. Até porque, como salientam muitos comentadores, o Partido Republicano não tem qualquer projeto, limita-se a ser o partido do não.
Em 2016 a situação não será certamente a de hoje. Mas até lá os EUA continuarão a ser a potência liderante de um mundo caótico. Com que EUA poderemos contar?
Post scriptum:
Na passada quinta-feira foi-me dado assistir na TV, a mim e a tantos outros portugueses, a um espetáculo grotesco, ocorrido na Assembleia da República, protagonizado por um tal Pires de Lima, sujeito a quem pagamos para ser ministro. Não sei se o indivíduo pretendeu ter graça, já que assumiu um papel “clawnesco”. Se o quis, falhou em absoluto tornando-se ele próprio o objeto do ridículo que quis colar a outro. Por mim, interrogo-me se estaria no seu estado normal, o que sugere que, para prevenir acidentes, o acesso à tribuna do Parlamento passe a estar sujeito a um controlo de tipo “sopro no balão”. No fim só tive pena que a nenhum deputado do PS ocorresse recomendar ao “artista” que, quando chegasse a casa, fosse visionar a sua prestação e avaliasse se tinha gostado da figura que fez. Isto para o caso de ainda lhe restar um mínimo de dignidade.
Preocupa-me o desabar de Obama.
A atitude do sr. Pires de Lima no Parlamento, revela no mínimo falta de educação, Foi um momento muito feio…