CONTOS & CRÓNICAS – O homem que não sabia amar – Joaquim Palminha Silva

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Melancólico domingo de Páscoa, com os céus todos abertos, a entornarem uma chuva que faz estremecer as almas, de tanto insistir em lavar os ossos. Como se não pudesse fazer outra coisa, recordo as palpitações dos corações que me abandonaram…

Como foi que todos os amores se fizeram mais cinza do que a do cigarro? Com eles subia até alturas de perdição, pecado e medo, mas logo descia as escadinhas que surgem a cada esquina da vida, empurrado à bruta pelo braço da indiferença, pelas circunstâncias sem motivo real, pelos zumbidos maus que deslizam, incómodos, pela noite dentro, para me atirarem contra a solidão…

Procurei amar, concentrei-me muito longe de mim mesmo, completamente despido, e com uma grande intimidade em cada mulher, mas ao fim de cada tentativa, todas me fizeram sentir que entre milhares de homens a quem se pode dar toda a afeição, eu era das raras criaturas a quem tal não é permitido e que, portanto, melhor seria fazerem-me sentir o meu duro isolamento. Desejando-me cada mulher primeiro aveludadamente, talvez porque a superfície da minha alma esteja maquilhada sem o saber, para logo se afastar de mim, com os olhos cheios de desilusão e as mãos a fazerem o grande adeus…

O amor pode ser o infinito da natureza humana. Talvez antigos deuses, agora ocultos, estejam a orientá-lo neste momento. Talvez histórias incríveis estejam a ser criadas pelo amor… Múltiplos sangues se misturaram, para criarem uma união independente de todas as outras uniões, em busca de uma realidade única, que preenche duas vidas e sofre um espaço e um tempo que se alimenta a si mesmo, e entrega a um homem e a uma mulher uma segunda vida de preguiça feliz, dentro da mesquinha e extenuada vida de todos os dias…

– Mas eu nunca tive isso!

Como me detivesse a contemplar cada uma dessas mulheres por dentro da sua pele, cada uma oferecia-me a visão das suas grades, dos seus segredos tosquiados d’alma, das suas palavras e dos seus gestos, que me faziam estremecer de pânico… Cada uma, entre aplausos à vida inconstante e uma alegria nua face à vulgaridade, aos poucos, maquinalmente, instintivamente, afastava-se dos meus heroísmos desesperados, sem disfarçar a expressão de angústia, depois desilusão e por fim de tédio, que aos poucos eu lhes inspirava…

Como acontecia encontrar ao fim de algum tempo a minha paixão sentada no chão, sem uma rosa vermelha na botoeira, com longos queixumes no vazio?

Podem lembrar-se na hora da separação de dois amantes? – O que há de mais extraordinário e doloroso, não são as lágrimas silenciosas, nem os abraços apertados, nem os beijos castos e repletos de angústia que se dão nos olhos e na boca; mas as mãos desesperadas, lamentando-se desvairadas, agarradas umas às outras, as feições da pessoa que se vai deixar, como se o oxigénio se estivesse a perder para sempre, como se nos estivéssemos a afogar…

Recordo neste domingo de Páscoa, chuvoso e repassado de saudades, a tragédia dos meus amores… Nenhuma vez a consciente renúncia à minha pessoa me deixou um desinfectante na ferida de amor, colocado por um par de mãos, desenhando-me o contorno do rosto… Nunca senti ninguém sofrer por me deixar, e a expressão que encontrei foi sempre a de um grande alívio e, vá lá, às vezes, dois olhos de compaixão, como se eu fosse alguém fora de prazo, com defeito de fabrico…

Nunca duas mãos, ternas, mimosas, levantaram para o céu um pedido de desculpa por me empurrarem para a solidão, em nome de conveniências materiais e (quem sabe?)até sentimentais!…

Como se fosse originário de outro sistema de sentimentos, nem o fogo purificador do tempo nem a maré cheia de pequenas e pontuais infelicidades me deixam margem para dúvidas: – Sou aquele que ama mas não sabe amar! Sou uma reminiscência, à maneira platónica, de algo que já foi feito ou ficou por fazer!

Conto-me a mim mesmo… O que mais me impressiona? – Não ter habilidade para amar e ser amado!

…Foi então de descobri que há mulheres que seduzem um homem pelo nome, pelo estatuto social ou cultural que a sua companhia lhe proporciona, como quem compra um quadro pela assinatura do pintor…Como quem compra um vinho pelo rótulo da garrafa!

Não, não tenho o tal rótulo! Estou abarrotado de vulgaridades, como um cigano de facadas!

 

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