A preponderância do cinema americano no mundo levou a que, do lado oposto dos números, muitos cinéfilos levantassem a bandeira dos filmes de autor,
estabelecendo inflamadamente as premissas de um confronto que viria a ser responsável por uma tendência criativa para a procura de uma certa ideia de pureza, da qual resultaram e continuam a resultar obras que rejeitam o artifício. Correspondentemente, e não raras vezes por razões de militância, denunciou-se nos sectores mais inflexíveis da crítica uma disposição para analisar estes produtos (não deixam de o ser) com uma benevolência não confiada a todos os outros. Da obsolescência deste maniqueísmo, que suscitou já incontáveis reflexões e por isso não carece agora de aprofundamento, acaba de nascer – apenas para o público, é certo – um filme que me merece dois ou três comentários. Em boa hora, e o mesmo é dizer na 25ª hora, uma vez que a rodagem teve início pouco depois do 11 de Setembro, Richard Linklater decidiu deitar mãos a uma proposta artisticamente ambiciosa: acompanhar o crescimento de um menino de seis anos até à idade adulta, nas paisagens do Texas, América profunda. Para aí se terá deslocado a equipa de filmagem ano após ano, cuidando de fazer com que os hiatos temporais não implicassem incongruências no objecto de cinema a construir. Porque se a dúvida, cá fora, se instalou, sobre se Linklater iria fazer uma espécie de biopic em tempo real ou encenar uma ideia de filme na tela da vida, o realizador e o seu grupo de trabalho souberam desde bem cedo ao que se propunham. Talvez não houvesse, assim definida, a pretensão de revelar uma possível terceira via para o cinema, tanto mais que este realizador nunca subjugou a sua curiosidade e propensão especulativa a finalidades ecuménicas, mas a vontade de casar o imprevisto dos acontecimentos reais – ou, para ser menos abusivo, da vida cá de fora – com as exigências da programação ficcional esteve, evidentemente, na origem de toda a empreitada. E o resultado, não sendo surpreendente, é refrescante. Passo a explicar: do ponto de vista do cinema nada contraria o conceito-base, há o protagonista “real” e a entourage “ficcional” e tudo vai evoluindo de um modo mais ou menos linear, embora com uma fluidez que se deve em boa parte ao respeito do realizador pela respiração natural da vida, ou seja, sem uma compressão esquemática da substância narrativa a reboque de uma flutuação dramática rigorosamente pré-estabelecida, muito menos sobre preceitos de eficácia. Por outras palavras, estamos em presença do trabalho de um alfaiate que promove uma convivência equilibrada, e não deliberadamente original, entre o corpo e o fato. Do ponto de vista do contexto histórico-social em que a obra se insere, a idiossincrasia de Linklater vem à tona, com o apelo profético de uma mensagem numa garrafa. A deriva de Mason (Ellar Coltrane) sob a custódia da mãe por casas e famílias temporárias, a sua inserção nos domínios convencionais em que assenta o plano de vida americano e o parcimonioso e só aparentemente plácido desenvolvimento de uma identidade processam-se com uma América decadente em pano de fundo, uma América onde justamente os esquematismos perdem a validade que a supremacia económica e política à escala mundial lhes conferia. Uma espécie de América invertida, em que os ouvidos novos se fecham para as lições de um patriotismo tradicionalista. E é dessas e de outras cinzas, cinzas de caixas que se metem noutras caixas que se metem noutras caixas, evocando ironicamente as bonecas russas e o tempo em que a América não tinha de se virar contra si mesma, que nasce o sorriso solar com que Mason se emancipa para um amanhã por escrever. Boyhood – ainda não tinha dito como é que se chama o filme – abre um novo afluente para um rio cujas principais correntes vêm sendo de autovitimização ou autocrítica exacerbada. O miúdo, filho de pais radicalmente diferentes, encontra o seu papel no meio desse desequilíbrio, quase se podendo dizer que cresce em queda; o País, filho de teorias e práticas radicalmente diferentes, tem perante si a mesma oportunidade. Tal como Mason soube temperar no seu espírito o improviso do pai e o planeamento da mãe, Linklater optou pela única transcendência possível ao dar este significativo passo em frente: rejeitar para a cultura em que o seu filme vive mergulhado um destino funesto, uma exclusão. Ele não contraria a cosmética própria do cinema americano, o verniz mainstream, a máquina de sonhos que, persistindo num delírio hedonista de fuga para a frente, quase confundiu a história recente da América com a memória da sua ficção. Não. Ele convocou esse património para ser, agora se calhar numa alusão religiosa um tanto exagerada (desculpem-me se assim for), o presépio que enquadra o nascimento de um novo menino, de um novo paradigma, em que o importante já não é a oportunidade – ou, como diz uma das personagens, não é aproveitar o momento, mas ter a consciência de que o momento é que nos aproveita. Eu, confesso, saí do filme com os pulmões cheios de oxigénio.
