Até as escolas fecham!
Como sabemos, mas por vezes esquecemos, a Escola não é uma ilha rodeada por todos os lados por uma sociedade que é lesta em apontar-lhe o dedo quando algo corre mal.. A ilha é povoada por pessoas, que por acaso são professores, alunos, assistentes operacionais, corpo não docente, encarregados de educação, que tentam estabelecer uma ponte com a sociedade, mas em vão, porque a maré enche e leva tudo à frente deixando a ilha devastada.

A ilha só pode contar com o seu esforço para por tudo de pé outra vez. Mas qual é o pé, se os recursos são poucos e limitados?
A escola tem vida própria e não pode andar ao sabor dos vendavais provocados pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC).
O M.E.C. coloca ou não coloca os professores nas escolas certas? O MEC deixa ficar colocado o professor na escola em que já o foi, ou vai mandá-lo para outra escola? Como quer o MEC que a avaliação da escola e dos alunos seja significativamente melhor do que a do ano passado?
Já ninguém acredita na histórica desculpa do Senhor Ministro. Diz o povo e com razão “que as desculpas evitam-se não se pedem”.
O povo do nosso país está a ser conduzido para uma sociedade de pessoas incultas. O saber fica só com alguns privilegiados, os alunos ricos, das cidades…
O povo já se esqueceu que já passamos por isso e que o resultado foi que em 1974 tínhamos uma elevada taxa de analfabetismo e uma sociedade pobre, mal alojada, sem água canalizada, sem luz eléctrica.
O Estado Novo encarregou-se, e com eficácia, de imbuir os cidadãos de sentimentos de culpa e de medo de dizer o que lhes ia na alma.
Fora das cidades fecharam-se escolas, juntas de freguesias, centros de saúde, correios, tribunais…
Há populações privadas ao acesso da Educação, da Saúde, da Comunicação com o exterior, da Justiça e do Poder Local!
As crianças, ou seja, um número significativo de alunos, deixam a sua aldeia onde podem brincar no campo e na rua antes e depois da escola, fazendo naturalmente a sua socialização intergeracional. Estas crianças passaram a levantar-se muito mais cedo do que as que vivem na vila ou na cidade para onde foram “levadas” só porque a sua pequena escola, na aldeia, tinha menos de 21 alunos! Chegam cansados e com sono, sem a alegria de já terem falado com as pessoas que todos os dias as viam passar para a escola. Chegam a casa mais tarde e cansados, têm que fazer os trabalhos de casa, jantar e ir para a cama, não há mais conversas nem brincadeiras.
A explicação para esta decisão cega de poupar os euros que os ricos gastaram, não colhe frutos. As crianças estavam privadas de conviver com outras crianças e de ter acesso a “melhores” condições de aprendizagem.
Sim, concordo, mas para colmatar esta falha porque não se desloca, com regularidade, uma escola de uma vila, mais próxima, para que as crianças, todas, possam conviver com outras que vivem realidades diferentes; sim concordo, mas porque não se levam os alunos da aldeia à escola da vila? Porque não se levam estes meninos ao cinema, ao circo, ao teatro, ao museu, a conhecer outros locais? Porque não se coloca mais um professor na escola da aldeia? Porque…tanta coisa que se poderia fazer em prol de uma melhor aprendizagem destes meninos. Deixá-los crescer ao pé das pessoas que são os seus contactos de referência; deixá-los crescer na segurança de terem um Centro de Saúde caso adoeçam; deixá-los crescer com confiança na Justiça, com a certeza que podem mandar e receber algo pelo Correio…
A aldeia ficaria de certeza mais rica com a experiência destas crianças que viram deslocar-se à sua escola outras crianças, de terem tido contacto com outras realidades de uma forma humana e pedagógica.
O Governo quer desertificar o interior do país, quer empobrecer culturalmente a população portuguesa. O poder sabe que pode ser cada vez mais forte e anti democrático perante um povo desarmado de conhecimento, com baixa auto estima e conformado.
Está na hora de, mais do que dizer NÃO, actuar.
Não fizemos o 25 de Abril para tornar o povo mais pobre e ignorante!


