
III
O velho filósofo calou-se e eu, abandonando as ideias com que tencionava entreter a minha digestão, empreendi uma viagem à roda da história que acabava de ouvir.
Vi-a sobre todos os seus aspectos, visitei-lhe todas as intenções, admirei-lhe o símbolo, descansei nos seus incidentes e cheguei enfim à sua conclusão.
– Que lhe parece? – perguntou-me o meu amigo, quando me apeei da minha meditação.
– A sua história, à primeira vista, parece idiota: mas, se insistirmos em estudá-la, veremos que é, afinal, a história de quantos querem convencer-nos de que vieram ao mundo com um destino glorioso e afinal nunca o atingem. Na ocasião própria verifica-se que não têm estatura para ele e que a Glória não lhes serviria. Ficava-lhes grande demais. É a história de todos os que julgam deixar fama e, afinal, desaparecem sem quedar rasto dos seus méritos. Levam uma vida inteira a maçar-nos com as suas pretensões e, quando chega o momento, em vez duma bela morte que os imortalize, desaparecem roídos obscuramente pelas pulgas do Ridículo…
… Enquanto eu dizia estes bocadinhos de ouro, vi o meu filósofo, à socapa e por debaixo da mesa, ir delicadamente procurando qualquer coisa entre a pele da canela e a peúga.
Aquele não pretende ser devorado pelo leão da Celebridade; mas também, quando apanha uma pulga impertinente a jeito, nem sequer lhe deixa dizer «Ai! Jesus!», quanto mais rezar o acto de contrição.
8 de Abril de 1923

