José Hermano Saraiva que, com tudo o que de negativo sobre ele se possa dizer, além da sua inegável capacidade como comunicador e a simplicidade com que transmitia conhecimentos sobre temas históricos (talvez simplificando em demasia…), teve outro mérito – não se deixou reciclar – assumiu-se sempre como salazarista. A alguém que lhe enumerava os crimes do velho ditador – a criminosa polícia política, o cercear de liberdades fundamentais… respondeu que os povos têm de escolher entre o pão e a liberdade. É um axioma mais do que discutível, mas que configura uma forma de pensar o poder. Ao que parece, em muitas cabeças prevalece a dicotomia – pão versus liberdade.
O PSD descende em linha recta do partido único do salazarismo. Talvez o MFA tivesse podido impedir que a estirpe de gente formada no seio da ditadura, pudesse paulatinamente converter em “democracia” princípios basilares do capitalismo mais retrógrado. Sem o descaramento e a impunidade com que em Espanha se transitou para o regime democrático, conservando alguns dos mais asquerosos pilares do franquismo, de uma forma mitigada, em Portugal deixou-se, em nome da Democracia, que os herdeiros de Salazar assumissem cargos e, no fundo, mantivessem o poder nas mesmas mãos.
Manuela Ferreira Leite propôs há tempos a suspensão do regime democrático por seis meses (renováveis como os contratos a prazo?). Agora é Rui Machete que diz: «Os direitos fundamentais sociais têm de assentar num desenvolvimento económico compatível com o nível de satisfação desses direitos e isso é uma tarefa prioritária que pode justificar aquilo que os juristas classificam como certas restrições aos direitos fundamentais, prontas a serem levantadas logo que o desenvolvimento o permita”. Esta pérola de sabedoria governativa foi produzida no decurso de uma audição na comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros e Comunidades, pedida pelo PSD, sobre a eleição de Portugal para o Conselho dos Direitos Humanos da ONU. Claro que os direitos fundamentais dos cidadãos são alvo de restrições, mas os bandos que infestam as estruturas do poder vão continuar a roubar sem restrições. É uma das virtudes das oligarquias – transformam em óbvio o que é ínvio e vice-versa.
Uma espécie de milagre das rosas num filme de vampiros.

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