CONTOS & CRÓNICAS – Correspondente de Guerra – por Joaquim Palminha Silva

 

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Os directores dos bancos, organismos administrativos, militares, comerciais e culturais das nações do Norte, reunidos extraordinariamente, esforçavam-se por esclarecer a identidade material e psicológica, através dos actos singulares que as notícias muito telegráficas, captadas do Sul via satélite, pretendiam noticiar, apontando para uma situação de guerra civil com normas e agressividades inéditas, acrescidas de desarranjos de raiz natural nunca suspeitadas, dado o seu carácter e a sua repetição, em percentagens assustadoras. No Norte temia-se que tudo isso fosse contagioso a nível continental.

Para os pensadores e organizadores sociais do Norte, aquele país do Sul parecia-se com uma grande sala subterrânea, cavada na rocha de montanha de lenda, onde se praticavam rituais insólitos, se viviam distúrbios assustadores e se praticava uma sociabilidade esquisita, por assim dizer de pernas para o ar, própria de território selvagem, inexplorado. Enfim, tudo situações e “maneiras de estar” que não podiam ser vistas à luz da sensatez, mesmo tomando como exemplos anteriores guerras civis, pois fosse o que fosso que acontecia, era levado à prática com uma tenacidade enlouquecida, estranha.

Finalmente, os directores das nações do Norte, decidiram-se pelo envio de um correspondente de guerra, com o objectivo de, a par e passo, ir decifrando os enigmas do absurdo que se instalara e, paulatinamente, deles enviar pelas vias habituais (através do satélite de emergências) os circunstanciados relatórios com imagens anexas, capazes de esclareceram os meandros reais daquele modelo raro da guerra civil, libertando os países do Norte da poeira telegráfica de notícias resumidas, cinzentas, inexpressivas, de que até então dispunham.

Tombou sobre mim a decisão dos diretores e, assim, foi enviado para o Sul. Uma vez desembarcado, durante uma semana ocupei-me a escolher locais estratégicos da capital, de forma a presenciar movimentos de tropas, latir de ordens militares, discursos sardónicos de velhos coronéis de bigodes encerados e retorcidos, patriotismos de toda a cor e feitio, marche-marche de soldados a caminho da frente de batalha sobre os velhos pisos empedrados e caquéticos. Foi uma semana perdida. Nada me levava a concluir que houvesse uma frente de batalha, não vi linhas inimigas nem ouvi falar de tal. Também não havia um exército em armas, nem movimentações de estados-maiores em grande uniforme, nem paradas militares nem fanfarras de levantar o moral. Tudo o que impressiona num país em guerra civil ou outro conflito, estava ausente. A vida decorria tranquila.

As sentinelas dos aquartelamentos das cidades do país derretiam as horas de serviço entre uma e outra guarda à “porta de armas”, imbuídas de rotina até à espinal medula. Quanto a alarmes para avisos de ataques aéreos ou outros, posso afirmar que estes eram famintos de bombardeamentos, os quais, sempre faltosos, denunciavam a mentira das sirenes.

Entretanto, eu ia meditando de mim para mim se, dando como real a existência da guerra civil, não seria outra a sua evidência, inéditas as suas façanhas e coordenadas políticas e, finalmente, tornava-se imperioso mudar o rumo das investigações e de pesquisa nas estradas do país. Seguindo esta ordem de ideias pus-me à espreita de outros acontecimentos, outros sinais… Que não me perguntem quais, pois não saberia responder! Sinais diferentes…

Os directores do Norte, aborrecidos com os meus curtos despachos, escritos telegráficos a que não se poderia chamar relatórios, começaram a aborrecer-se. Queriam acção, desejavam justificações para repreenderem o país do Sul, e eu não parecia disposto a trabalhar nesse sentido… Mas não era verdade: – Acontecia que a guerra não era fácil de descobrir!

Na verdade, eu já tinha gasto todos os passatempos do costume nos meus relatórios. Já havia escrito sobre a história passada do país, a sua geografia, a sua ancestral cultura e as suas predileções pelas navegações marítimas e outras miudezas do género, como museus, castelos, poesia e romances, bem como histórias de amor mais ou menos infelizes. Enfim, havia gasto todo o armazém de lugar-comuns que é suposto entreter os ociosos do Norte. Mas os directores sabiam da existência destes truques e, já mal dispostos, diziam-me que encontrasse a guerra quanto antes.

Por vezes, dizia de mim para mim que se porventura existia forma material, física, que personificasse a expressão imbróglio enigmático, essa matéria, essa forma deveria ser, com toda a certeza aquele periclitante país do Sul.

Devo recordar que um estrangeiro muito viajado, com quem travei curta conversação na viagem para o Sul, cavalheiro bastante desenganado da paisagem repleta de ruinas que, depois, vistas de perto, se revelam obra do desmazelo urbano, havia-me informado que no país existia uma frase lapidar que era de toda a conveniência ter na devida conta. Dizia o meu ocasional informador, que a frase fora retirada do seu contexto e proibida de circular, enquanto os livros escritos pelo seu autor se poderiam considerar praticamente retirados das livrarias…Bem, “livrarias” é forma de dizer, pois o país não possuía tal ramo comercial de forma declarada e independente: – Os livros estavam sempre expostos em prateleiras exíguas, nas sapatarias, mercearias, farmácias e restaurantes. Dito em poucas palavras, verifiquei que os livros eram considerados mercadorias descaracterizadas, menos valiosos que um par de sapatos, um pacote de detergente em pó ou uma caixa de aspirinas!

Voltando à questão da frase… Para que se fique com uma ideia do que a frase exprimia, aqui a reproduzo tal como ela me foi dada a conhecer: «Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia».

Para apurar do que se estava a passar no país, experimentei todos os expedientes consentidos e transgressores, mas acabei por chegar à desanimadora conclusão de que ficava na mesma… Na mesma não, dado que por cada tentativa, me extorquiam dinheiro, incluindo os gabinetes governamentais camuflados de isenção e pluralismo. Uma autêntica pouca vergonha!

Mas não desisti… Procurei seguir pela manhã alguns habitantes que, dado o seu passo apressado e marcial, se deveriam dirigir para unidades militares, convencido, pois, de que estava a seguir soldados vestidos civilmente. Todavia, esses habitantes de ambos os sexos conduziam-me aos escritórios e fábricas onde laboravam e outros, vejam lá o despautério, iam apressados para se encostarem à esquina de rua do costume.

Eram, portanto, desempregados gozando o benefício de subsídio do Estado que, parecia, lhes remunerava esse amparo de esquina dos prédios de cada rua.

Entretanto, com algum esforço, muita paciência e um bom dicionário, comecei a experimentar a língua do país, e logo encontrei indícios que denunciavam a existência de conflito em fase desorganizada, um pouco à semelhança de uma guerrilha urbana, contudo continuava a não se entender quem era de facto o inimigo. Para melhor entendimento e compreensão geográfica do país, adquiri um grande mapa da região do Sul e pendurei-o na parede do meu quarto de hotel, assinalando a alfinetes de cabeça azul todos os acontecimentos que me pareciam violentos, a alfinetes de cabeça vermelha os que levavam ao derramamento de sangue, a alfinetes de cabeça amarela os que eram insólitos, estranhamente inconcebíveis. Refiro-me, bem entendido, às informações que ia colhendo dispersas na imprensa do país, deste os grandes matutinos e vespertinos aos simples e artesanais periódicos regionais.

Finalmente, pensei eu, era aí que se deveriam registar os indícios de uma guerra, de uma guerra qualquer, feita sabe-se lá como e porque enigmáticas razões. Diga-se: – Eu precisava que houvesse uma guerra no país, pois os directores do Norte não cessavam de me apoquentar e ameaçar com o despedimento, além de começarem a insinuar o mau profissional, no que se refere à categoria correspondente de guerra, que me estava a revelar.

Ao contrário de tudo o que até ali me fora dado verificar e viver como correspondente de guerra, fosse nos confins da Ásia, onde as manifestações dos medíocres artefactos políticos e organizacionais estavam a estabelecer um império, fosse nas selvas tropicais onde os índios haviam regredido a um estado de desconfiança dos brancos com raízes no século XVI, a guerra acontecida neste país fugia a toda a receita clássica dos conflitos armados. É verdade que beneficiava de alguma experiência anterior para encarar os acontecimentos, dado que aprendera quanto a prudência não é fantástica, enquanto o fantástico tanto pode ser revolucionário como perigosamente selvagem. Conjecturando assim, inclinei-me com mais pormenor sobre as resmas de folhas da imprensa do Sul que, diariamente ia recolhendo.

E foi assim que cheguei à conclusão de que os distúrbios da guerra, que parecia ganir aflita por viver a céu aberto, estavam travestidos, surgindo enquanto desarranjos mentais, psicológicos, se assim o quiserem, de toda a ordem e feitio. Entendi, por conseguinte, serem estes os sinais da guerra que estava a acontecer, e de que os directores do Norte faziam uma tímida e mínima ideia.

Fui juntando os recortes das notícias esquisitas, alarmantes, inseridas na imprensa, assinalando o seu local de origem no meu mapa com o respectivo alfinete, segundo o seu conteúdo humano. Depois, elaborava uma ficha sobre o acontecimento, onde constava o dia, a hora e as condições meteorológicas do momento.

À medida que ia assinalando no meu mapa de parede o local do fenómeno, do acontecimento, com o alfinete de cabeça colorida que lhe correspondia, acabei por verificar, semana após semana, que o mapa de parede tinha grandes manchas azuladas mais a norte, ao centro manchas vermelhas e a sul do próprio país do Sul enormes manchas amarelas.

Tudo isto acontecia para minha surpresa e pesar, pois simpatizava um pouco com a pobre gente do Sul, sempre a sorrir sem se perceber porquê, cheia de salamaleques e mesuras logo que viam um estrangeiro, capaz de se prestarem a uma tal subserviência que nos chegava a incomodar; dizia eu, para surpresa minha e desgosto, os habitantes viviam uma verdadeira guerra civil de mentalidade apodrecida, se assim o posso dizer! E sofriam isto sem o saber, convencidos de que a anormalidade era normal!

Enfim, chamar ao território e seus habitantes «hotel da barafunda» é dizer pouco!

Nunca vi na minha vida de correspondente de guerra e nas aventuras que vivi, nada semelhante: – Imaginem o disparate arvorado em respeitável costume nacional, pensem um pouco na parvoíce dirigindo, na estultícia comandando e, para cúmulo, coloquem sobre todas os estabelecimentos de ensino multidões de cabotinos, no parlamento fala-baratos incorrigíveis e no trânsito rodoviário pessoas de uma irritabilidade agressiva, troglodita. Para sintetizar, imaginem o estalar das bofetadas a toda a hora o som cavo dos socos nos queixos de alguém e, sobretudo, os gritos lancinantes de alguém que acabou de levar um tiro ou uma facada! – Pior: imagem a agressão doméstica, exclusivamente contra o sexo feminino, arvorada em costume típico!

Reproduzo aqui vários dos recortes, às centenas de milhar, das pequenas notícias que me foi dado colecionar, para que os desprevenidos possam fazer uma ideia, por distante que seja, sobre a esquisita guerra civil que não se descortinava a olho nu a Sul do continente.

Recolhido o material regressei a casa, satisfeito com o meu trabalho… Porém, quando cheguei ao grande Norte com as minhas reportagens praticamente concluídas, quadro volumosos caixotes com as colecções dos meus recortes de imprensa, as minhas fichas identificadores de cada um dos fenómenos que me pareciam mais significativos, e o meu estranho mapa do Sul, tomei conhecimento de que era demasiado tarde. As opinião estavam formadas há muito. Os directores do Norte já haviam elaborado uma chuva de acontecimentos, ligeiros e entusiásticos, para que a multidão olvidasse a suposta guerra civil do Sul. A região mais feliz do globo não pretendia que o insólito povoasse os cérebros dos habitantes, pois os directores pareciam acreditar que eram contagiosos, os sucessos doentios do Sul.

Escuso de me estender sobre o que sucedeu à minha pessoa, mas sempre direi que, regressado do Sul, ouvido em plenário profissional, foi despedido sob a acusação de falsear a verdade dos factos e forjar provas alucinatórias que justificassem o meu testemunho de repórter de guerra. Enfim, o maluco era eu! – Por fim, condoídos da minha situação de futura indigência, concederam-me uma pensão vitalícia, própria para doentes mentais.

Anos depois de tudo isto, verifiquei que nos mapas e cartas turísticas para o Sul do continente, o país onde eu estivera em reportagem, havia desaparecido do mapa!

Claro que tentei corrigir o erro dos geógrafos, mas fui desenganado: – Ninguém me prestava atenção. Pior! – A partir de certa altura (eu bem via os sinais nas minhas costas!), começaram a apontar-me uns serviços de administração aos outros como o maluco do Parque.

Na verdade, passo as tardes a contar esta história aos jovens que vêm ao Parque e Jardim da capital… Mas sei que sou tido como uma curiosidade pitoresca, uma espécie de conto juvenil de aventuras sem graves consequências, como a Ilha do Tesouro ou as Viagens de Guliver

Há aqui três esferas, correspondentes a outros tantos poderes, que vivem subjugadas. Se os directores do Norte as libertassem, invadiriam a vida organizada às mil maravilhas: – São elas, o insólito, a imaginação e a verdade!

O Sul, queiram ou não, risquem-no do mapa se assim entenderem, digam o que disserem da minha insanidade mental, está lá, bem real e positivo, a praticar a sua guerra civil “desportiva” e inconsciente, talvez até à sua extinção…

 

 

 

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