Antes, e ainda na sequência do assalto à casa do comandante José Carlos da Maia, outra vítima tinha caído nas mãos dos assassinos.
É de novo um homem da Marinha a ser morto por marinheiros. Freitas da Silva, capitão-de-fragata, ex-chefe de Gabinete do ministro da Marinha do Governo cessante de António Granjo, estava já no fatídico rol do bando à solta.
Consta em algumas obras tidas por leitura obrigatória, e até distinguidas com honras de prémios oficiais de que o alvo a atingir seria o próprio ministro, Ricardo Pais Gomes, na altura ausente em Viseu, um tanto ou quanto incompreensivelmente, conforme já foi referido.
Testemunhos de participantes diretos neste crime são, todavia, bem elucidativos quanto à certeza na escolha que dava o comandante Freitas da Silva como homem a abater.
Conforme depoimento de um dos mais ativos viajantes da Camioneta Fantasma, a sorte do ex-chefe do Gabinete do ministro da Marinha esteve logo à vista quando Carlos da Maia era conduzido a caminho do Arsenal.
Manuel José Carlos, segundo-sargento marinheiro, que segue também nessa viagem, conta que ao passar próximo da Rua Palmira, junto à igreja dos Anjos, um dos ocupantes que se transportava na caixa da viatura alvitra a prisão do comandante Freitas da Silva.
A ideia partia de um tal Palmela Arrebenta, também ele segundo-sargento marinheiro, que teria tomado a camioneta na altura em que ela estava na Rua das Janelas Verdes.
Manuel José Carlos diz que se opôs, pelo que o Palmela Arrebenta, e um outro marinheiro que com ele tinha entrado nas Janelas Verdes, o sinaleiro naval n.º 4737, José Maria Félix, descem do veículo, para irem eles próprios tratar do assunto.
Arrancado da sua casa, Freitas da Silva é conduzido a pé para o Arsenal.
Marcha vestido à paisana. Ao atravessar a Baixa surge-lhes uma camioneta da GNR, armada de metralhadoras e comandada pelo oficial Camilo de Oliveira.
– Quem levam vocês preso? – Procura saber o oficial, parando junto ao grupo que escolta Freitas da Silva.
– Um oficial da Armada. Preso à ordem da Junta.
– Mentira! A Junta não mandou prender ninguém! – refuta de imediato Camilo de Oliveira, ele próprio membro influente da Junta que dirigia o movimento revolucionário.
Diz para Freitas da Silva:
– Suba para aqui. O senhor não está preso. Vou falar com o comandante das forças revolucionárias, estacionadas no Terreiro do Paço, e conduzo-o depois onde quiser.
Já estando perto desse local, a camioneta avança nessa direção, sempre com o bando do Arrebenta e do Félix no seu alcance.
Ao virar da esquina da Rua do Comércio, dão de frente com um numeroso grupo de marinheiros, chefiado por um sargento.
A viatura imobiliza-se. Camilo de Oliveira interpela o sargento.
Este responde:
– Andamos a policiar a Baixa.
Camilo de Oliveira manda o condutor prosseguir a marcha. Aflitos por verem a presa a fugir-lhes, o Arrebenta e o Félix atiçam os camaradas, informando-os que traziam preso o Coca.
De repente a viatura vê-se cercada por dezenas de carabinas em ameaça:
– Entreguem-nos o Coca! Ou morre aqui tudo!
Camilo de Oliveira ainda consegue fazer chegar o carro até perto do Arsenal, onde pensa poder entregar Freitas da Silva em segurança.
Aos gritos, «Ai vem o Coca! Olha o Coca! Mata-se! Mata-se», os perseguidores não paravam a berraria.
Soam tiros.
Estava no chão mais uma vítima da Noite Sangrenta.