CARTA DE LISBOA – Gastrópodes Gold – por Pedro Godinho

lisboa

 

 

Exmo.  Sr. Vice-primeiro Ministro,

Dirijo-me a V. Exa. com a humildade duma vida de trabalho e a esperança de que esta breve missiva possa ter da parte de V. Exa.  o acolhimento devido.

Trata-se da célebre venda de autorizações de residência, os conhecidos vistos gold, dos quais tanto tenho ouvido falar.

Não se assuste sr. Vice-PM que não venho juntar-me ao coro dos que o atacam e, nesta matéria, o acusam de, apesar da habitual retórica nacionalista, se ter tornado no maior caixeiro ambulante do governo.

Longe disso, ao contrário, venho exprimir-lhe a admiração que lhe devoto como político visionário que mostra ser, descortinando, certamente mercê da sua anterior experiência, novas oportunidades para negócios estrangeiros, sem deixar que pruridos, burocracias e rodriguinhos se lhes interponham no caminho.

Confesso que inicialmente até via com maus olhos a ideia de se facilitar a vinda de mais chinocas, é que já temos por aí restaurantes e lojas chinesas por todo o lado e eles são tão diferentes de nós e não se misturam, mas afinal os amarelos dos vistos gold parece nem querem vir para cá e tão só obter o título que lhes abre outras portas por essa Europa fora.

Rendi-me completamente depois de ouvir declarações dos representantes e agentes do sector imobiliário, que explicaram, preto no branco, melhor dito dourado no cinzento, a importância destes vistos gold para conseguirem livrar-se dos monos imobiliários que construíram a torto e a direito com dinheiro emprestado pelos bancos e que não conseguiam vender.

Eis que, de repente, chegam os chineses e compram aquilo tudo, e até por preços ainda mais altos que os já antes inflacionados. Eles querem é o tal visto gold e se, para isso, são obrigados a comprarem uma casita venha lá o que houver desde que traga o gold com ela.

O meu mais novo, com as manias de estudante universitário, diz que não se trata de investimento nenhum porque, em economia, para haver investimento tinha de haver aplicação de capital em meios de produção com vista ao aumento da capacidade produtiva e não, como é o caso, simples compra de ativos financeiros, aqui tratando-se de propriedade imobiliária – e que mesmo isso é discutível porque verdadeiramente o que eles estão a comprar é o dito visto gold e a casinha é o brinde promocional que vem junto, porque não se podia vender aquele sem nada a acompanhar.

Eu disse-lhe que se deixasse mas é de histórias e teorias bonitas que não põem pão na mesa e da vida ele ainda não sabe nada que nunca trabalhou e nós é que ainda lhe pagamos tudo. A verdade verdadinha é que com os vistos gold os construtores e vendedores lá vão despachando as casas que tinham penduradas. E os bancos que lhes adiantaram a massa, e  não viam como a receber de volta, também estão contentes porque assim lá voltam a ver a cor do dinheiro.

Sem mais rodeios, que esta já vai longa, vamos então ao que me traz, sr. Vice-PM.

Parece a sua ideia dos vistos gold tão promissora que não compreendo porque há-de a mesma estar limitada, como agora acontece. Indo, aliás, ao encontro da disponibilidade que V. Exa. manifestou para rever e melhorar as condições para obtenção do gold.

Represento a associação dos apanhadores e vendedores de gastrópodes de Portugal e acontece que também nós fomos apanhados pela crise e temos em stock quantidades imensas de caracóis e caracoletas que não conseguimos escoar.

Assim, pensei que poderia, V. Exa., alargar as condições para obtenção de visto gold de modo a incluir entre as mesmas a aquisição de gastrópodes nacionais em quantidade a determinar. Cada chinês que comprasse, por exemplo,  cinco toneladas de caracóis ou três de caracoletas – desconto de dimensão  – teria direito a um dos chamados visto gold, válido pelo período dum mês.

Com um simples aditamento ao atual regime de vistos gold, resolveria V. Exa. a difícil situação dum sector essencialmente constituído, na boa tradição lusa, por pequenas e médias empresas de tipo familiar, ao mesmo tempo que daria novo e público impulso ao empreendedorismo e iniciativa privada.

Sem contar que estaria, igualmente, a promover o produto e a cultura nacionais, porque não há nada mais português que um pratinho de caracóis acompanhado da sua cerveja (e aqui terá seguramente o apoio empenhado do ministro da Economia).

Em prol do gastrópode gold, subscrevo-me de V. Exa. atentamente,

1 Comment

  1. Antes que os apanhadores de gastrópodes tenham obtido satisfação para os seus anseios, consta nos “mentideiros” que, mercê duma antecipação bem calculada, já começa a haver luz verde para a entrega de “amarelos” a quem satisfaça, numa quantidade apreciável, certos práticas comportamentais do agrado especial do Senhor Vice-Reizinho. CLV

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