Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.
Em nome da República, em tempo de crise, o debate esquerda-direita torna-se obsceno
Eric Guéguen, Au nom de la République, le débat gauche-droite devient obscène*
Revista Causeur, 31 Outubro de 2014
Normalmente, não há domínio que gere mais clivagens do que o da política. De resto, é de tradição em muitos dos lares franceses não falar de política entre pessoas de sensibilidades e de convicções diferentes. Sem mesmo estar a procurar convencer o outro, qualquer diálogo parece diferentemente impossível entre gente à esquerda e gente à direita, a não ser que haja um filtro como separação, como na Internet ou por insultos sob pseudónimo em certos fórum em linha. Contudo, esta constatação verifica-se cada vez menos na lógica dos partidos. Coisa inconcebível há alguns anos: há actualmente assuntos que unem os extremos sem que estes o queiram confessar. Há também princípios que, doravante, se assumem tanto no PS como na UMP, e tanto que os seus próprios eleitores tendem a ficar cada vez mais confundidos e tenham dificuldade em diferenciar os dois grandes partidos que parecem vender-lhes exactamente os mesmos produtos. Não será que haverá por aqui alguém fortemente mal intencionado a querer baralhar as pistas? Não é antes o epílogo patético de uma comédia que já dura há muito tempo?
O que é ser de esquerda? O que é ser de direita? Para além das aparências, não haverá aqui mais uma conveniência de linguagem do que outra coisa nesta separação histórica e social? Há realmente uma panóplia completa e rigorosa de ideias a ter bem presente para se poder reclamar de um ou do outro campo, podemos nós ironizar? Para que eu me diga de esquerda sem o mais pequeno dos complexos, será que eu posso, por conseguinte, .trocar o direito de estar pouco preocupado com o destino dos pobres contra uma defesa ardente e ruidosa da causa homossexual? Em frente a frente, eu serei mesmo de direita se, casando com uma mulher muçulmana, eu espio pela minha falta colocando muito dinheiro em bolsa? Pode-se revogar “à la carte”, a fim de poder conservar a aura de empenhamento ideológico sem os desagrados da rigidez dogmática que esse empenhamento induz? Se a resposta for não, está-se então condenado a fingir aprovando tudo o que a nossa “família política” cheio de medo de passar a ser vista como alguém sem garra ou até mesmo ser visto como um traidor à causa? A única alternativa seria.de nunca mais nos exprimirmos em público sobre assuntos sociais para não nos vermos.censurados.de inconsequência ou de certos nomes de pássaros?
Em geral, produz-se uma fractura espontaneamente entre aqueles para quem prima a preocupação de si-próprio e os que mantêm a sua preocupação pelos outros. Mais exactamente entre os que levam a sério dar a saber que fazem parte dos segundos e os que, muito mais discretos sobre este tema e por esse facto,. se situam classificados à direita. Assim o altruísmo será ele.um valor melhor representado à esquerda, com aspectos positivos que são tomados como naturais e igualmente com aspectos negativos. Porque quando se está sem condições, a preocupação pelos outros acaba por facilmente fazer deles as mesmas vítimas de sempre, apagando por isso mesmo o peso da sua própria responsabilidade na sua condição comum. A generosidade manifestada esconde então muito mal o que é que esta deve à caridade cristã, ao mesmo tempo que a rebaptiza de “justiça social”. Contrariamente, a preocupação de si-próprio, quando não confina com o egoísmo, inclui uma certa forma de civismo servido por um reflexo introspectivo e um mínimo de decência em sociedade. Por outras palavras, o altruísmo praticado seja em que condições for visa à comunhão dos homens, com o risco que estes se tornem totalmente irresponsáveis.
Daqui decorrem duas tendências que parecem assumir vias opostas. A abertura aos outro impõe à descoberta, à renovação e ao movimento; o escrúpulo identitário garante, quanto a ele, a ordem, a firmeza e a segurança. A primeira preocupa-se com a extensão e o respeito dos direitos, a segunda com a permanência de um sentimento de obrigação. Progresso de um lado, tradição do outro. Postas secamente em confronto quando na verdade são complementares, estas duas tendências fazem da política uma disciplina esquizofrénica. E apelando aos eleitores para escolherem entre a esquerda ou a direita, pede-se-lhes, nem mais nem menos, que apoiem e reforcem uma metade de eles mesmos em detrimento da outra sua metade . Como a parte com aspectos externos mais generosos é também, por esta mesma razão, mais exuberante, há então o risco de ver a outra parte perder-se numa cólera esclerosante quando aos seus olhos o copo está cheio. É por conseguinte a possibilidade de um pensamento mais subtil que se vê sacrificado sobre o altar da alternância em política, este triste vaudeville que anima o desenvolvimento das democracias contemporâneas
“A República!” no entanto é o que nos tinham prometido. Etimologicamente, a res publica é a coisa comum, ou seja o destino do todo, no que se refere seja ao seu desenvolvimento, seja à sua sobrevivência, ou seja as duas modalidades de uma perenidade sem a qual as partes contam para manteiga. Referir-se à República, é ter de defender estas duas exigências em conjunto, é fazê-las coabitar e, por conseguinte, necessariamente, relativizar este debate esquerda-direita que, em tempos de grande crise como é a situação actual se torna obsceno e insulta o bom-senso. Alguns invocarão a ordem e a ordem é essencial; outros quererão que haja justiça e a justiça é primordial. Mas a ordem não é fatalmente a inércia e a justiça não leva necessariamente à igualdade. Há relações que são difíceis de apreender. São tornadas mais inacessíveis ainda pela perda de valores comuns quando são apenas estes que podem ocasionalmente permitir-nos ter um ar de objectividade e uma muito forte e afectuosa ligação.ao bem comum. Não ao bem “social” nem a um bem “liberal”. Ao bem comum.
No entanto, o espírito de República não é um irenismo. É necessário satisfazermo-nos dos conflitos e do choque das ideias como testemunhos da democracia viva. Mas se o espírito de capela for dominante, se a incoerência e o sectarismo forem os últimos elementos comuns às forças em presença, então o estado de crise deixa de ser uma infeliz anomalia, torna-se a regra. Qualquer que seja a obediência política que se escolhe, é necessário ter em mente. que uma parte de legitimidade desliza para a propriedade privada e que uma outra parte é do domínio das coisas a partilhar, que não é trair a laicidade estar a reconhecer o que a França deve ao cristianismo, que o princípio de identidade não se tornou imutável fazendo da nação o seu objecto, e que fazer a experiência da curiosidade, mãe de todas as mudanças, é provar a alteridade . Esta axiomática rudimentar, no seu conjunto, não pode ser e nunca será a de um partido qualquer. Ela é a axiomática de uma visão republicana que o indivíduo interessado no bem comum pode não ´so ter de defender como também de a promover. A esquerda e a direita, na sua oposição frontal e teatral, na Assembleia assim como nos bares, são um obstáculo à fluidez das trocas, à lisura dos pontos de vista, por conseguinte e por repercussão são um obstáculo à investigação de soluções adequadas para os problemas de dimensão nacional. As nuances não são uma questão dos partidos, aquelas são o atributo de indivíduos responsáveis, isto é, pelo menos tão preocupados em ter êxito individualmente como em partilhar um destino comum.
Eric Guéguen, Au nom de la République, le débat gauche-droite devient obscène, Revista Causeur, 31 Outubro de 2014. Texto disponível em :
http://www.causeur.fr/au-nom-de-la-republique-29977.html
*Photo:.VINCENT WARTNER/20 MINUTE/SIPA.00655743_000014



