FRATERNIZAR – “Nem uma palavra sobre a inventona de Fátima” – por Mário de Oliveira

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Patriarca de Lisboa faz conferência no Porto sobre “Catolicismo, modernidade e anti-modernidade” NEM UMA PALAVRA SOBRE A INVENTONA DE FÁTIMA! (+ 1 Texto JF, à luz da Fé e da teologia de Jesus, Edição 102 www.jornalfraternizar.pt.vu)

Um Colóquio organizado pela UCP do Porto fez o bispo Manuel Clemente regressar à sua anterior diocese. Coube-lhe proferir uma conferência sobre “Catolicismo, modernidade e anti-modernidade”. O texto integral da conferência está disponível no site do Patriarcado de Lisboa. JF não resistiu e foi ler o seu conteúdo. E bem se pode concluir que o patriarca de Lisboa prossegue, agora, na capital do país, a via da superficialidade pastoral que, com estranho entusiasmo, iniciou e desenvolveu na Igreja do Porto, durante os anos em que foi o seu bispo titular. Trata-se de um texto sem sopro libertador, sem chispa, sem dinãmica, sem esperança, sem um pingo de profecia. Uma conferência que se lê/ouve e nos deixa na mesma. Revela alguma erudição, mas, mesmo nessa área, não consegue ir além da mediania. Não causa qualquer alvoroço em quem a lê e, certamente, em quem a escutou ao vivo na Universidade Católica do Porto.

Assim, é difícil a Igreja em Portugal ser o sal da terra e a luz do mundo, na peugada de Jesus, como sempre deveria ser, para não ter de ser lançada fora e pisada pelos homens, como habitualmente se faz ao sal que perde a força de salgar. Em vez disso, a igreja está a contribuir ainda mais para agravar a anemia em que se encontra actualmente a sociedade portuguesa, cansada e abatida como ovelhas sem pastor. A voz do patriarca de Lisboa é própria duma igreja cristã católica romana, ao mais alto nível, quando deveria ser a voz da Igreja de Jesus século XXI, em permanente missão, longe dos espaços sagrados e clericais, definitivamente mergulhada nas entranhas da humanidade, suas angústias e suas esperanças.

A intervenção do Patriarca de Lisboa na UCP do Porto revela uma igreja em estado de agonia, que pode manter-se assim durante séculos e séculos, com paróquias e dioceses museu, imagens de santas e santos a cair de caruncho, como a da senhora de fátima que teve de ir para restauro, umas quantas pessoas pias e devotas, de terço nas mãos, joelhos em terra, e, uma vez por outra, em procissão de velas com andores, integradas em festas sem festa, como são todas as ditadas pelo calendário litúrgico.

A conferência do Patriarca conduz-nos aos anos da República de 1910 a 1940, o da Concordata, ainda hoje em vigor, para vergonha de ambos os Estados que continuam a não a dispensar. Para surpresa do conferencista, a resistência católica à República surge sobretudo nas aldeias, com particular incidência, no norte do país. Mas não aconteceu por geração espontânea, como o Patriarca parece querer dar a entender. Não! Acontece como resposta a um inesperado Apelo do Episcopado português, de resto amplamente referido na conferência, com data de 10 de Julho de 1913, no termo de um encontro no Seminário de Santarém (ainda não havia o empório de Fátima, mas já estava em preparação), presidido pelo Patriarca de Lisboa de então, D. António Mendes Belo.

Pela primeira vez, os bispos, naquele seu Apelo, não começam por se dirigir à Coroa, tradicionalmente católica, uma vez que a Coroa já havia sido destronada pela República. Tão pouco, os bispos se dirigem aos dirigentes da República, uma vez que eles haviam decretado a Lei da separação entre a Igreja e o Estado e eram olhados pelos bispos como inimigos institucionais a abater. Dirigem-se directamente aos católicos. De modo que a mobilização das aldeias surge como resposta a esse Apelo do Episcopado que, a partir de 1917, será amplamente reforçado pela inventona das “aparições de Fátima”. Curiosamente, o Patriarca de Lisboa nem sequer se lhe refere, nesta sua conferência. Sobre toda essa demência clerical e episcopal fatimista, nem uma palavra.

Ora, silenciar, nesta sua conferência, a inventona da senhora de fátima, revela bem um Presidente da Conferência Episcopal, à espera do barrete e do anel cardinalícios. Que poderiam nunca mais chegar, se ele, como historiador erudito que diz ser, denunciasse toda estaa demência eclesiástica organizada, que dá pelo nome de Senhora de Fátima. Porque se há manifestação mais gritante da miséria e do absurdo do catolicismo português, ao tempo da República, é, precisamente, a iinventona de Fátima. Um tipo de catolicismo rasca, obscenamente irracional, e ao qual o Episcopado português de então recorre para derrubar a República. Se há postura mais anti-consciência, mais anti-liberdade, mais anti-dignidade humana, mais anti-autonomia dos seres humanos, numa palavra, mais anti-modernidade, é a inventona da senhora de fátima. Só populações habitadas no mais fundo do seu inconsciente colectivo por ancestrais medos de toda a ordem, por isso, populações nos antípodas de Jesus, o ser humano pleno e integral, é que podem protagonizar aberrações do calibre das que ainda hoje continuam a acontecer em Fátima.

Para o clero, despojado de grande parte do seu imenso património e profundamente abalado com a Lei de Separação da Igreja e do Estado, esta era a hora du tudo ou nada. Ou ele acabava com a República, ou a República acabava com ele e com o tipo de catolicismo/cristianismo romano que o clero defendia e praticava. Por isso, bispos e padres, em lugar de se meterem a anunciar o Evangelho de Jesus, ostensivamente ignoram-no e apelam a todos os ancestrais medos que andam no inconsciente colectivo das populações empobrecidas e nunca evangelizadas, por isso, mergulhadas, há milénios, no paganismo mais primário e mais absurdo, típico da idade da pedra! É sabido que a irracionalidade das massas levada ao histerismo, é muito mais mortífera do que um exército armado. Derruba tudo o que é liberdade, autonomia, dignidade, secularidade, ao estilo das Cruzadas da idade média, das fogueiras da inquisição, das carnificinas jhiadistas deste nosso tempo no Iraque e na Síria.

Mas é ainda aqui que está, hoje, o catolicismo cristão católico romano das aldeias de Portugal, povoado de nossas senhoras para todos os gostos e necessidades. Pelo menos, as populações mais velhas vivem mergulhadas num subdesenvolvimento cultural atroz, o que perfaz um crime sem perdão, alimentado pelo clero católico. Só num contexto subcultural tão atroz, como o actual, é possível a existência de paróquias católicas, sem um pingo de dignidade humana. Alimentadas por párocos e bispos residenciais com tudo de mercenário. Com faro para o negócio e para o autoritarismo religioso. Onde conjugar o verbo Evangelizar e proferir a paráfrase, Evangelizar os pobres, é ser logo rotulado de subversivo e de louco.

Em semelhante contexto, de que adiantam eruditas conferências como a que o actual Patriarca de Lisboa veio proferir no Porto? Ajudam a encher agendas de eventos eruditos da UCP, para Roma ver e apoiar. Porque, de resto, Roma é a primeira a querer que as coisas sejam assim. De outra forma, como poderia continuar a reinar sobre as mentes-consciências das populações do Ocidente?!

 

 

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