MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 26 – por José Brandão

Capítulo VI

PORQUÊ?

No Arsenal da Marinha está consumada a desgraça. Portugal acaba de viver uma das mais horríveis tragédias da sua história. O Pais, a República, a vida, tudo o que é português não mais voltará a ser como era.

Um chefe de Governo morre assassinado. Outros símbolos do regime caem vítimas da mesma ceifa pavorosa. Os crimes são praticados com cenas de monstruosidade sanguinária, poucas vezes igualáveis na história da humanidade civilizada.

«Já busquei, nas lições sábias da história», diz um autor contemporâneo dos crimes de 19 de outubro de 1921, «factos que me convencessem de que o homem sempre assim foi, feroz e inumano, em todas as idades e em todas as nações. Nada encontrei de comparável […] Há crueldades maiores, infinitamente maiores em quaisquer páginas da história, que a da Noite Sangrenta. Mas há, também, a explicá-las, embora não as justifique, o exacerbar de paixões, o estímulo do sangue a correr a jorros em terra de combate ou a vingança de velhas opressões. No caso do Arsenal e, com ele, o da Noite Sangrenta, em toda a sua extensão, é que não se explica.» Recorda Consiglieri Sá Pereira.

Horrorizava ver o cadáver de António Granjo. Os assassinos tinham deixado o corpo num estado de tremenda mutilação. Estava selvaticamente despedaçado. Era uma massa enorme de carne humana desfigurada e irreconhecível, apavorante e violentamente assustadora, impossível de ser vista sem um desesperado sentimento de aflição e de terror.

Não conservava um único traço da sua fisionomia. A cabeça, aquela cabeça que o fazia figura de imponente força, tombava para trás, sobre o zinco do tabuleiro mortuário, como num abandono desesperado da vida e sem qualquer rasto de identidade fácil. Malhas de terra enlameada em sangue e empastadas em restos de roupa espalhavam-se pelo corpo repleto de brechas rasgadas pelas flagelações homicidas. Algumas parecem ainda gotejar um sangue baço, negro e já quase pastoso. O rosto apresenta-se com o aspeto de verdadeira máscara de horror tétrico. É desconforme, está enormemente ampliado pelo inchaço de uma tumefação endémica na face direita, produto do esmagamento da maxila à brutalidade duma violenta coronhada.

No tórax, uma fenda dum golpe profundo entre os mamilos deixa antever a ferocidade do carrasco que lhe trespassou o peito com um sabre. O algoz procurou cortá-lo ao meio, pela cintura. De baioneta na ponta da espingarda, enterrou-lhe o ferro na carne, a fundo, com toda a força, de modo a cortar por largo. A grossa lâmina emperra num dos ossos da vítima, mas o carniceiro não se detém. Com um tiro, sobre a espinha dorsal, estilhaça o osso inoportuno.

Tem quase todo o corpo a descoberto: rasgaram-lhe o colete, estiraçaram-lhe a camisa, puseram-lhe o peito a nu, desde o pescoço à cintura, para que os golpes fossem em plena carne. Está numa miséria. Rasgões e orifícios de dezenas de balas transformam o corpo de um homem numa monstruosidade dantesca. Na cabeça, no pescoço, nos braços, nas pernas – todo o corpo de António Granjo é um vazadouro de balas.

O escritor Sousa Costa, que viu no necrotério o cadáver do ex-chefe do Governo, descreve o que encontrou:

«Que horror! Uma visão apocalíptica! Nada de António Granjo do meu conhecimento. Nada da sua desenvoltura física. Toda ela se tinha transfigurado – sob a deformidade dos tecidos inchados, contundidos, dilacerados. Nem o olhar risonho! Nem o sorriso infantil! Tudo perdido no desvario do segundo trágico. Um olhar de assombro, esgazeado, fixo, duro, monstruoso! Em vez do sorriso infantil, o ricto hediondo de quem ainda defronta e acomete cem mortes!»

Como fora possível tamanho crime? Homens, que onze anos antes tinham dado vida ao regime, eram agora trucidados pelas convulsões vampirescas desse mesmo regime. Morriam às mãos de praças da Marinha e de soldados da Guarda. Daquela Guarda que era republicana, e daquela Marinha que orgulhava a República.

António Granjo caía sob o efeito de uma revolta comandada por um antigo correligionário evolucionista, e uma das maiores lendas vivas da República. Que terrível sina para o histórico tenente Coelho do 31 de janeiro de 1891. O seu nome, gravado a ouro na história republicana, acabava salpicado de sangue fundador da República. Machado Santos, José Carlos da Maia e António Granjo não mais viveriam algum 5 de Outubro.

Era muito difícil, quase mesmo impossível, poder enjeitar, disfarçar, e muito menos ignorar, as responsabilidades que pendiam sob a alçada do poder vigente.

«O regime julgava-se e condenava-se a si mesmo», escrevia nessa altura o historiador Jesus Pabón.

«Talvez nem em terras de cafres fosse possível praticar-se o que se passou em Lisboa, capital da República portuguesa, em 19 de outubro de 1921», opinava também um outro homem de Letras, que entretanto dava à morte de Machado Santos este comentário:

«Reza a mitologia que Saturno devorava os próprios filhos, um dos quais foi Júpiter, que dificilmente escapou ao insaciável apetite paterno. A República portuguesa fez o contrário: matou o próprio pai. Assassinou o homem cuja teimosia, na Rotunda, lhe deu a existência. Foi parricida!». (António Cabral)

Mas porquê?

Porquê a barbaridade de tão medonho massacre? Porque não a revolução, mas a Noite Sangrenta?

É exatamente esta a grande interrogação do 19 de outubro de 1921. Havia um mistério tenebroso nos sangrentos crimes desta noite.

Uma mulher doente, figura frágil, sozinha e abatida por um imenso desgosto que para sempre lhe deu cabo da vida, vai carregar até à morte a ânsia de descobrir os segredos dessa macabra escuridão.

Na noite assassina, ficou com um filhito de seis meses nos braços, gritando desesperadamente:

– Adeus, meu José! Adeus, meu amor!

Berta Maia não mais deixará de perseguir o Dente de Ouro. Durante anos a fio andará por todo o lado onde se encontre o homem que lhe arrancara o marido. Queria saber porquê.

– Ele falará! Ele falará! –, garantia a sua inesgotável esperança na verdade.

Quando um amigo e companheiro de Carlos da Maia lhe deu a notícia: «Mataram o seu marido», agarrou-o com força pelo braço e gritou-lhe, gritou-lhe alto, muito alto:

– Eu, comandante, eu também mato!

Sobre o caixão do marido chorara lágrimas de atormentada revolta, clamando a inocência do esposo perdido. Semilouca, contorcida e desvairada, rasgava os céus com os seus suplicantes rogos de justiça.

Manuel Maria Coelho, agora chefe do Governo que substituiu o de António Granjo, tentara acalmar o pranto da desditosa viúva:

– Mas, minha senhora, quem são os assassinos? Juro que os mando fuzilar!

Apertando nos braços o corpito do filho, Berta Maia recorda nestas palavras o destino do homem que amava:

– Como fizeram ao José… Sim… Eu sei… Mas o meu marido foi morto… Não volta…

 

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