Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O muro de Berlim não se afundou num só dia – por detrás do mito liberal, a história do século XX
Régis de Castelnau, Le Mur de Berlin ne s’est pas effondré en un jour-Derrière le mythe libéral, l’Histoire du XXe siècle
Revista Le Causeur, 10 de Novembro de 2014
Lembro-me deste 9 de Novembro de 1989, deste dia de euforia e de libertação. Um espectáculo de uma enorme alegria e da fraternidade a que não era possível a ninguém resistir. E com uma alegria que era difícil não partilhar. Rostropovich a tocar uma suite de Bach para violoncelo em face do muro derrubado, quem é que poderia não estar comovido? E, contudo, vinte e cinco anos mais tarde, a reserva que vivia em mim está sempre presente.
Não foi a queda do “socialismo real”, a crença já era evidente de que o sistema era irreformável. Tendo tido a sorte, depois dos episódios lamentáveis de Andropov e de Chernenko, de assistir e de muito perto à chegada de Gorbachev ao poder e à criação da glasnost e da perestroika, fomos levados, ou mesmo forçados, a pensar que isto não iria funcionar. Já era tarde, muito tarde. Se alguma vez houve uma oportunidade, foi em Praga em 1968. Nesse momento, o Ocidente duvidava de si mesmo, a sua juventude não alinhava na sua estratégia. Os Estados Unidos ficaram atolados na guerra do Vietname que os minou na sua força, impunham as suas ditaduras abomináveis no que tomavam como o seu quintal, a América Latina. Opunham-se aos movimentos de libertação nacional.
A oportunidade não foi agarrada e a esperança desapareceu na imolação de Ian Palach e no esmagamento do soldado Švejk. O Ocidente refez-se, recuperou a confiança em si-próprio e impôs ao campo socialista, não apenas em termos de armamento, uma corrida que este último não poderia ganhar. Gorbachev ou não, as pessoas não queriam mais. Então que se vá embora, que nos deixe o campo livre e os velhos que se arranjem com as suas ilusões perdidas.
Os “vencedores” tinham comportamentos de vencedores e não tinham problemas de ordem moral em triunfar. “O fim da história”, diziam-nos, o capitalismo e a sociedade liberal triunfaram para sempre. O Ocidente venceu a guerra fria. Então, de onde vinham as reticências de François Mitterrand e de Margaret Thatcher, quando a Alemanha força a situação e anuncia que queria a reunificação imediatamente? Que a “guerra fria” não era na verdade, outra coisa senão uma continuação da guerra que começou a 1 de Setembro de 1939 e talvez até mesmo da que começou em 2 de Agosto de 1914, matriz de todas as grandes catástrofes do século, talvez isto. E esses dois dirigentes tinham memória.
Porque é que a Europa estava cortada em duas ? Porque é que Roosevelt, doente e muito fraco, tinha ido mesmo assim à conferência de Yalta? Não, a Europa estava cortada em duas porque a 22 de Junho de 1941 a Alemanha nazi tinha atacado por surpresa a União Soviética, para uma guerra de exterminação abominável, a maior da história, em que metade do país foi destruído completamente e milhões e milhões dos seus habitantes foram massacrados. O preço pago pela surpresa e pela falta de preparação, o preço pago para a libertação e a reconquista face a uma das mais terríveis máquinas militares apoiada até ao fim por todo o povo alemão, esse preço foi de tal forma pesado, que os soviéticos juraram-se a si-mesmos que isso nunca mais se repetiria. Então sim, se estes impuseram ditaduras à sua vontade nos países ditos “socialistas” por razões ideológicas, era sobretudo para conservar um glacis, uma cintura de países, que os protegia. A Hungria, a Bulgária, a Roménia tinham-se aliado aos nazis. Tudo isto tinha custado bem caro para os vencer. A Finlândia, quanto a ela, que foi no entanto também um auxiliar de Hitler, apresentava-se com a vantagem geográfica de não poder servir de escudo. Em troca da sua neutralidade, deixaram-na tranquila.
E a Alemanha por conseguinte. Foi necessário ir matar o animal no seu antro. Os soviéticos partilhavam a ideia de François Mauriac quando este dizia que “gostava tanto da Alemanha que estava contente por haver duas”. Tendo passado uma parte da minha infância numa Alemanha que tinha ainda os estigmas da catástrofe que ela própria tinha provocado, eu não estava muito longe de partilhar este sentimento. Pude também, nas noites moscovitas à base de vodca, de cantos patrióticos, e de lágrimas verificar a marca, feita a ferro quente, “da Grande Guerra Patriótica” na memória russa. Não mais se repetirá. Tê-lo esquecido na gestão da questão ucraniana é de resto um erro muito grave.
A forma como são apresentadas as comemorações deste 25º aniversário é sempre também unívoca. Nenhuma menção, nenhuma referência ao que tinha provocado a situação à qual a queda do muro permitiu pôr fim. Então seguramente, compreende-se, partilha-se a vontade de festejar esta unidade reencontrada, de comemorar o desaparecimento de um sistema opressivo. Mas é necessário estar com atenção, olhar para esta Alemanha que tem construído pela economia este lugar dominante na Europa que não tinha podido obter pelas armas, é necessário recordar-se que este povo civilizado mostrou na história que era capaz de tombar, de cair, na mais terrível irracionalidade política.
Não, a Alemanha não estava dividida em duas por acaso, ou devido à uma invasão soviética injustificada. Não, a edificação deste muro em 1961, ou seja dezasseis anos após o fim do grande massacre, não era mais do que uma decisão para conservar um império. A Alemanha, rapidamente absolvida a Ocidente por razões geoestratégicas admissíveis, viu a sua parte oriental pagar sozinha o resgate dos seus crimes. Pensando bem, este resgate não foi assim tão elevado.
As televisões retransmitiram cerimónias felizes cujo ponto mais alto das festas foi a supressão do caminho iluminado instalado na nova Berlim sobre o lugar que ocupava o muro a 9 de Novembro de 1989. Guardo, mesmo assim, bem presente na minha memória a imagem de Meliton Kantaria a colocar a bandeira vermelha sobre o telhado do Reichstag em ruínas, a 2 de Maio de 1945.
Régis de Castelnau, Le Mur de Berlin ne s’est pas effondré en un jour-Derrière le mythe libéral, l’Histoire du XXe siècle, Revista Causeur, 10 de Novembro de 2014.
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Ver o original em:
http://www.causeur.fr/la-chute-du-mur-de-berlin-30139.html


