Neste dia de há 39 anos uma boa parte dos portugueses sentia-se triste e derrotada – a festa da liberdade, cantada por Chico Buarque, acabara – a expressão utilizada para caracterizar a nova ordem saída do golpe militar de 25 de Novembro era «democracia musculada». Mas não se sabia onde acabava a democracia e começava o músculo. O tenente-coronel Ramalho Eanes, que fora do meio militar ninguém conhecia, aparecia nos noticiários como o senhor desta guerra – óculos escuros, patilhas compridas, frases curtas e com uma pronúncia estranha, não auguravam nada de bom. A comparação com Pinochet era inevitável. Quem seria este «gajo» de óculos escuros? Soube-se depois que também estava ligado ao chamado «Grupo dos Nove» e que fora encarregado de encabeçar o movimento militar de 25 de Novembro. Nem todos estavam tristes. Havia portugueses que respiravam de alívio – aquilo a que nós chamávamos «festa», chamavam eles «caos», «bagunçada», «anarqueirada»…
Passados 39 anos, é matéria ainda sensível, apesar da distância temporal que nos confere já uma apreciável perspectiva histórica do acontecimento. O que aconteceu? Um documento emitido por oficiais da esquerda militar em 8 de Julho de 1975, em pleno «Verão Quente» – «Aliança Povo/MFA – para a construção do socialismo em Portugal», enchera de esperança o povo de esquerda. No mês seguinte, um documento provindo da esquerda moderada tentou aplacar o incêndio que lavrava de Norte a Sul – o chamado «Documento dos Nove», sem aludir ao anterior, recusava o modelo socialista da Europa de Leste, bem como o modelo social-democrata da Europa Ocidental. Propugnava um socialismo alternativo, apoiado numa democracia pluralista, respeitadora das liberdades, direitos a garantias fundamentais. Note-se que o primeiro documento também não defendia o comunismo do tipo soviético e, por isso, não colheu grande simpatia entre as hostes pecepistas; mas deu corda às esperanças da esquerda extra-parlamentar que inundou as ruas com as suas manifes entusiásticas. As posições extremavam-se.
No Norte as sedes dos partidos de esquerda, eram assaltadas e destruídas. Os confrontos multiplicavam-se com o ELP (Exército de Libertação de Portugal), criado pelo inspector da PIDE, Barbieri Cardoso, presidido pelo general António de Spínola e sediado em Espanha, a levar a cabo alguams acções contra os militares e contra os partidos de esquerda. O espectro da guerra civil assolava o País. Passado um «Verão quente» e um princípio de Outono agitado, o início de Novembro fora marcado com as notícias vindas de Angola – recrudesciam os combates entre as forças do MPLA, reforçadas com unidades cubanas, e as da UNITA, apoiadas por tropas sul-africanas e mercenários portugueses. Em 11 de Novembro, foi proclamada a independência. Enquanto decorriam as cerimónias em Luanda, na presença do almirante Rosa Coutinho, que cessava as suas funções de Governador e delegava o poder nas mãos de Agostinho Neto, escutava-se nas imediações da capital o troar das peças de artilharia, pois os combates prosseguiam. Os ecos dessa luta ouviam-se também em Portugal.
No dia 12, o Palácio de São Bento, sede do Governo e da Assembleia Constituinte, era cercado pelo trabalhadores da construção civil que sequestraram os deputados durante várias horas. No dia seguinte, uma grande manifestação, com centenas de milhares de pessoas, percorria as ruas da capital, exigindo o advento do Poder Popular. No dia 20, o Governo auto-suspendeu as suas funções exigindo que as forças da ordem garantissem o normal funcionamento das instituições. No dia seguinte, no Ralis (Regimento de Artilharia de Lisboa), realizava-se um juramento de bandeira sui generis – os soldados juraram e saudaram a bandeira de punho cerrado e erguido. A temperatura atmosférica, matizada pelo chamado «Verão de São Martinho» era amena. A temperatura política era escaldante. O abismo aproximava-se quase sem que para ele caminhássemos.
No dia 25, uma gota fez transbordar a taça da paciência conservadora – o Conselho da Revolução tomou medidas que a muitos desagradaram – substituiu alguns comandantes militares, dissolveu a base-escola de pára-quedistas de Tancos. Tropas pára-quedistas ocuparam de imediato as bases da Ota, de Tancos e de Monte Real. Elementos do Ralis posicionaram-se nas principais entradas de Lisboa, controlando estrategicamente os acessos à capital. O presidente Costa Gomes decretou o estado de sítio. Chamou Otelo Saraiva de Carvalho ao Palácio de Belém. Otelo, recorde-se, graduado no posto de general, comandava o COPCON (Comando Operacional do Continente), a força operacional mais bem apetrechada e potencial foco de uma reacção violenta e quiçá decisiva da esquerda militar. Otelo foi à reunião com Costa Gomes, sabendo que, na prática e sob outra designação, estava a ser detido, retido, impedido de actuar, use-se o eufemismo que se quiser para prisão, porque na realidade foi isso que aconteceu.
Otelo pediu a demissão do COPCON que ficando decapitado permitiu que o Regimento de Comandos da Amadora, quase sem constrangimentos, dominasse os pontos estratégicos de Lisboa, acabando por controlar a situação. Voltava-se à «normalidade».
A festa acabou, pá (e o Chico rasurou a canção):


Não há almoços grátis. Nem festas.
Há quem não gosta de ouvir mas a realidade é que, os dias de agora, são uma consequência de ter-se entregue o País ao arbítrio da OTAN/EUAN e a quem, por cá – adivinhem quem – aceitou de bom grado fazer-lhes o frete. Musculou-se tanto que a hipertrofia consequente deu os frutos mais desejados pelo neoliberalismo vigente. CLV
O Otelo? Quem, aquele que disse que “precisávamos de um homem com inteligência e a honestidade do ponto de vista do Salazar…………”?
Não se trata do que disse (ou dizem que disse), mas do que fez.
Fez a Ordem de Operações de 25 de Abril e em 25 de Novembro evitou uma guerra civil. Não entendo por que motivo um homem a quem devemos tanto seja julgado pelo pior que fez ou disse e não por aquilo que fez de importante – Que figuras históricas se salvarão se as avaliarmos da forma mesquinha e raivosa com que muitos portugueses julgam Otelo?