A CANETA MÁGICA – A ACTUALIDADE DO TEATRO DE IONESCO – por Carlos Loures

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Hoje, dia em que Eugène Ionesco completaria 102 anos (1912-1994), lembro a peça “O Rinoceronte”,Datada de 1959, vi-a em Lisboa em 1960 representada pela companhia do Luís de Lima. É uma peça do criador do chamado “Teatro do Absurdo”, onde diálogos aparentemente sem nexo (como em “A Cantora careca”), configuram o substrato de uma civilização que vai assumindo aspectos totalmente desconexos, absurdos, por assim dizer. Escrita há meio-século , “O Rinoceronte”, continua actual.

Numa cidade até então sossegada, um rinoceronte trota ameaçadoramente pelas as ruas. Na cidade, discute-se a natureza do fenómeno – o que é e como apareceu ali o furioso paquiderme? E, à medida que a peça se desenrola, o comportamento das personagens vai-se alterando, o absurdo de um rinoceronte percorrer a cidade vai sendo aceite como normal. As pessoas vão alterando o comportamento e algumas vão transformando-se em rinocerontes. No final do II acto, com todos à sua volta já metamorfoseados, a personagem central grita: -“Eu sou o último homem. Eu não me rendo!” A história de Ionesco referia-se à eclosão do nazismo, ao colaboracionismo que numa França ocupada pelas tropas hitlerianas levava as pessoas, uma a uma, a ir aceitando como normal a anormalidade que se instalava no quotidiano – as denúncias, as torturas, os campos de concentração, os fuzilamentos…

Hoje poderá, com eficácia, representar a rendição dos cidadãos á anormalidade que alastra pelas sociedades ditas democráticas. Como nos rituais de acasalamento de algumas espécies, mantém-se a coreografia, mas perdeu-se o objectivo central da ritualidade. Temos instituições democráticas, mas quem resolve tudo é quem detém o poder económico – que poder decisório resta aos cidadãos a não ser o de periodicamente votar? De votar em quem o poder determina. A experiência está por fazer, mas não tenho dúvida de que, se alguma vez a maioria elegesse quem não obedecesse às regras instituídas, a «normalidade» seria restabelecida através de um golpe militar ou mesmo da intervenção de forças estrangeiras.
Assim, como em “O Rinoceronte” de Ionesco, os cidadãos rendem-se ao absurdo. A anormalidade da corrupção, da marginalidade, da droga, passa a ser normal (Deixou de se falar no flagelo da droga. A droga, um dos pilares da economia mundial, passou a ser coisa normal). A televisão converteu-se num poder que sobreleva o poder político. Manipulada por quem manda, é a principal difusora do pensamento único, da filtragem do «politicamente correcto» que nos impede de tratar alguns bois pelo nome.

As duas últimas décadas foram férteis em modificações: o socialismo real, como alternativa ao capitalismo, esfumou-se; o islamismo emergiu como mais uma ameaça a juntar-se à da guerra nuclear e, finalmente, uma nova crise do capitalismo, transformaram o mundo em que vivemos em algo de impensável, mesmo para os futurologistas de há duas décadas atrás. – Um nosso companheiro discorda da inclusão do terrorismo islamista na lista de ameaças que os habitantes do planeta enfrentam e discorda, sobretudo, que ele seja comparado à guerra nuclear. Ao incluir esse tipo de acção política na parafernália de instrumentos de terror que o capitalismo criou, não faço qualquer juízo de valor sobre as motivações filosóficas, religiosas e políticas que estão por detrás da via terrorista usada por alguns movimentos islâmicos. E, com tudo o que possam conter de reprovável – eu reprovo – são mais uma consequência da violência capitalista (tal como a ameaça nuclear, afinal). a expansão das novas tecnologias – internet, telemóvel, CDs e DVDs, a controversa integração europeia, o fenómeno da globalização, positivo em princípio, mas com muitos efeitos perversos, não esquecendo a falência do não-alinhamento. Por um lado, ao colapsar um dos blocos, a dicotomia OTAN-VARSÓVIA deixou de fazer sentido. Por outro, os pressupostos de Bandung, em Abril de 1955, foram desmentidos pela prática política de alguns países signatários. Como a Indonésia e a Índia, por exemplo, que, fundadores do movimento, violaram repetidamente o seu compromisso neutralista.

Vivemos num mundo diferente, que, exceptuando um ou outro avanço e melhoria (por exemplo, no que se refere à condição feminina, deram-se passos importantes no sentido de acertar a realidade pela legislação), podemos considerar pior, mais degradado, sobretudo em termos éticos. Pode dizer-se que vivemos numa versão empobrecida da democracia onde monstros do passado, tal como a miséria e a repressão, sobrevivem. Como disse Saramago, «não progredimos, retrocedemos». E completou: «E cada vez se irá tornando mais absurdo falar de democracia se teimarmos no equívoco de a identificar unicamente com as suas expressões quantitativas e mecânicas que se chamam partidos, parlamentos e governos, sem atender ao seu conteúdo real e à utilização distorcida e abusiva que na maioria dos casos se vem fazendo do voto que os justificou e colocou no lugar que ocupam.» – (José Saramago, O Caderno, Lisboa, Março de 2009).

E, neste particular da repressão, nem sequer estou a falar de Guantánamo e das torturas infligidas aos alegados terroristas islâmicos, onde a criatividade norte-americana mais não fez do que ressuscitar velhos métodos da Inquisição. Por exemplo, a touca que se aplicava a judeus e a judaizantes, aparece ali com o nome de waterboarding. O que, ao assumir uma designação que nos leva a pensar num qualquer desporto radical, branqueia, de certo modo, a monstruosidade do procedimento. A touca consistia em enfiar na boca do preso, até à traqueia, um lenço de mulher, despejando depois água, empapando o pano e produzindo uma sensação de afogamento. Muitos dos pacientes não resistiam. Ossos do ofício! Mas, como se vê, da touca ao waterboarding, com quinhentos anos de permeio e todas as inerentes aquisições científicas, tecnológicas, filosóficas, o progresso não foi grande.

Numa sociedade em que a Liberdade vai sendo devorada pelas «liberdades» (trocar a liberdade em liberdades é a moeda corrente do libertino», disse Mário Cesariny de Vasconcelos em Autoridade e Liberdade São Uma e a Mesma Coisa), a repressão é exercida pela permanente ameaça da marginalidade. O lado negro, ou seja, os monstros criados pela sociedade capitalista, pela exclusão social, pela xenofobia, pela intolerância religiosa, aí estão sob a forma de carjacking, na versão moderada, e de assassínio em massa, passando por assaltos, limpezas étnicas, sequestros, violações… Terroristas, islâmicos ou não, marginais vindos dos subterrâneos que subjazem sob as resplandecentes catedrais do consumo, tarados de todas as espécies, incluindo violadores e pedófilos, aí temos ao dispor um vasto e aterrador bestiário. Fugindo destes monstros criados pela sociedade capitalista, vamos refugiar-nos onde? Obviamente, nos braços salvadores do capitalismo.

É com um cenário dantesco como fundo, que os parlamentos dos chamados «regimes democráticos» continuam a proceder como se tudo decorresse normalmente, um pouco como os dois jogadores de xadrez de que nos fala Fernando Pessoa, pela voz de Ricardo Reis, que continuavam a jogar «o seu jogo contínuo» enquanto a cidade ardia, as crianças eram assassinadas, as mulheres violadas… O sistema parlamentar é anacrónico e disfuncional, tal como o são os sindicatos e os partidos. Na era da informática, continuamos a usar instrumentos políticos que nos vêm da Revolução Francesa e do tempo da máquina a vapor.

E neste labirinto de anacronismos e de aberrações, onde fica a Democracia? Percorrendo este dédalo criado pelos cérebros doentes que nos dirigem desde há muito tempo, será a Democracia que nos espera? Não creio que os nossos filhos, os nossos netos estejam a caminhar para a Democracia. Levados nas asas do consumismo, o caminho que percorrem, com a ilusão de quem está a desbravar uma selva virgem, irão dar não ao prado resplandecente do Eden, mas sim ao velho sótão onde se arrumam todos os detritos que a História tem vindo a acumular.

Não estou a falar de aprofundar o estudo da democracia que temos e que se perde na espiral descendente de corrupção, clientelas, contas em offshores, em exibições mediáticas, em tudo o que constitui o circo a que diariamente assistimos. Esta «democracia» não justifica o esforço de ser aprofundada. Falo de reinventar uma Democracia com que sonhamos há séculos, mas que não temos. Porque a democracia tem de ser permanentemente reinventada. Enquanto não somos deuses, voltando a usar a expressão de Jean-Jacques Rousseau, teremos de percorrer, com a imaginação e a audácia de quem necessita de inventar o futuro, o caminho até uma Democracia luminosa, autêntica e que esteja, de facto, ao nosso alcance.

 

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