Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
70º aniversário do programa do Conselho Nacional da Resistência
Nice , 12 Abril 2014
França: a re-industrialisação para um desenvolvimento soberano e popular
Bernard Conte
Enseignant – Chercheur en économie
Université de Bordeaux – Sciences Po Bordeaux
Comité Valmy
Le blogue de Bernard CONTE: France: la ré-industrialisation pour un développement souverain et populaire
24 de Abril de 2014
(CONTINUAÇÃO)
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O impacto da mundialização e a integração europeia neoliberais
É inútil recordar os efeitos do neoliberalismo e a mundialização quando esta é vista do ponto de vista do impacto de se colocarem em concorrência à escala planetária, os homens, os territórios e as instituições, sobre as deslocalizações industriais.
Em contrapartida, é necessário retomar o impacto da construção europeia ordoliberal sobre a desindustrialização francesa. Ao longo do período 1995 – 2013, o crescimento da indústria transformadora foi – 6,5% para a França e de 41,1% para a Alemanha [17]. É uma evolução bem divergente que sugere que a Alemanha, potência dominante na Europa, se industrializa à custa dos seus parceiros.
Esta dinâmica tinha sido denunciada a partir de 1956-1957 por Jean Duret [18]: “O desafio é enorme: o Mercado comum conduz infalivelmente, mais ou menos a curto prazo, ao desaparecimento das soberanias nacionais, à criação de um Estado europeu, reduzindo à sua mais simples expressão tudo o que possa subsistir de indivídual, de politica e economicamente independente, nos membros da Comunidade. Este super-Estado será dominado pelo polo de actividade económica mais potente: o Rur; pela força mais enérgica e mais dinâmica: a Alemanha do Oeste. […] Para a França, a realização do Mercado comum é a aceitação da hegemonia alemã. A sua indústria que não pode lutar contra a concorrência feita por além-Reno cairá sob o poder dos konzerns do Rur [19]”.
Para os americanos, o objectivo da construção europeia era (e é ainda) o de constituir a Alemanha como plataforma de retransmissão do seu imperialismo sobre a Europa. “ Forçando à criação do Mercado comum, os dirigentes americanos prosseguem objectivos de que não se deixarão desviar. Querem amalgamar os seis Estados do Velho Continente, conferir a direcção económica e política à Alemanha, virar este bloco contra os países da Europa do Leste e “o perigo comunista do interior”. Querem favorecer os investimentos directos dos capitais privados americanos que se poderiam colocar nas regiões mais favoráveis e disporiam assim de um imenso mercado. Os americanos não têm de modo algum a intenção de andar a jogar aos aprendizes feiticeiros, de permitir aos Estados europeus de se libertarem da influência do dólar, de criarem eles mesmos concorrentes ou rivais [20] “.
A sucessão dos acontecimentos desde o Tratado de Roma confirma as previsões de Jean Duret e mostra que a França está cada vez mais numa situação “de dependência”.
A França em situação “de dependência”
De acordo com os teóricos da dependência (Samir Amin, André Gunder Frank [21]…), o desenvolvimento do centro imperialista opera-se por meio da exploração da sua periferia através “de uma cadeia hierarquizada de expropriação/apropriação dos excedentes económicos ligando “o mundo capitalista e as metrópoles nacionais aos centros regionais (…), e, a partir daí, os centros locais [22]”.
O centro mundial, no cimo da pirâmide, é a origem de relações de dominação para os níveis inferiores com os quais estão todos implicados, ao mesmo tempo, por relações dominantes-dominados. Ao longo de toda a cadeia, a exploração é permitida pelas relações de dependência que assume diferentes formas: comercial, financeira, tecnológica, cultural, social, política, etc.
Neste sentido, pode-se afirmar que a França se encontra em situação de dependência no que diz respeito aos Estados Unidos e à sua retransmissão imperialista europeia que é a Alemanha [23]. Sair desta dependência é uma condição necessária a um desenvolvimento soberano do nosso país. A crise final do sistema fordista permitirá talvez as condições da referida saída.
A crise final do fordismo
A crise global actual é o resultado inegável da crise do fordismo, cujas premissas apareceram a partir do fim dos anos 1960, e que se materializaram abruptamente a partir do primeiro choque petrolífero de 1973. O fordismo assenta sobre o acoplamento do consumo de massa e da produção de massa. Para ultrapassar a crise da baixa dos lucros, o sistema capitalista evoluiu procedendo à separação geográfica da produção e o consumo.
A deslocalização das produções, para zonas de baixos salários, permitiu reduzir os custos e aumentar os lucros. Mas esta mutação quebrou o frágil equilíbrio do sistema transferindo uma parte crescente do valor acrescentado do factor trabalho para o capital.
Assim, nas zonas geográficas de consumo de massa, devido à redução (ou ao menor aumento) do poder de compra, a procura não poderia ter outra evolução que não fosse a da sua redução, começando uma crise de sobreprodução. Esta tendência foi contrariada por um desenvolvimento exponencial do crédito. É com base num endividamento a constituir uma “fuga para a frente” suicida que o crescimento pôde ser mantido até à sua implosão recente que marca os limites extremos do fordismo.
O sistema fordista agoniza, é tempo de aproveitarmos para pôr em marcha um desenvolvimento soberano e popular para a França.
Um desenvolvimento soberano e popular
A primeira condição de um desenvolvimento soberano e popular é a redução drástica (ou mesmo a supressão) das relações de dependência inerentes ao sistema actual. Para o efeito, trata-se primeiro de organizar a desconexão com o referido sistema o que, provavelmente nas condições presentes, poderá somente iniciar a sua realização apenas sobre uma base nacional. A primeira diligência será a de suprimir a dominação da finança e do conjunto de constrangimentos que lhe é associado.
É também possível inspirarmo-nos nelas, adaptando ao contexto presente, as propostas dos economistas do desenvolvimento. No entanto, não devemos esquecer que o sistema fordista não pode ser restaurado na sua versão inicial. É por isso que é necessário inventar uma outra coisa.
O fordismo não pode renascer
Para iniciar um regresso “à idade de ouro” dos Trinta gloriosos anos, alguns propõem simplesmente inverter a ampulheta. Querem re-ligar de novo as zonas geográficas de produção e de consumo. Ao Norte, trata-se de des-mundializar, de relocalizar as produções, sobre uma base comunitária (Europa) ou nacional, de retornar sobre a partilha do valor acrescentado… É neste caso necessário, nomeadamente graças ao proteccionismo, organizar o regresso “à pureza” do fordismo inicial autocentrando o crescimento sobre o mercado interno.
Após os Trinta gloriosos anos dos financeiros, os novos “salvadores” do capitalismo desejam reiniciar um período de Trinta gloriosos anos dos assalariados. A ideia subjacente é a da existência de ciclos económicos de expansão – contracção, de mundialização – des-mundialização. O debate entre os neoliberais e os neokeynesianos parece principalmente incidir sobre a divisão do valor acrescentado: mais ou menos para os salários e mais ou menos para os lucros. Com efeito, seria suficiente reposicionar o cursor para resolver a crise.
Este eventual regresso ao fordismo levanta diversas questões nomeadamente ligadas à ecologia, aos recursos naturais… porque as condições actuais diferem das de pós-guerra.
Se é evidente que é necessário privilegiar o regresso a um desenvolvimento mais autocentrado, convém interrogarmo-nos sobre o conteúdo do processo. A esse respeito, os ensinos dos pioneiros do pensamento do desenvolvimento podem alimentar a nossa reflexão.
(continua)
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[17] Pour mémoire sur la même période les performances ont été de – 10,8% pour l’Espagne et de – 18,8% pour l’Italie. Eric Dor, The launch of the euro brought about an impressive decrease of manufacturing production in France and huge losses of market shares, Lille, IESEG School of Management, 2013, p.5
http://www.ieseg.fr/wp-content/uploads/2013-ECO-07_Dor.pdf
[18] Directeur du Centre d’études économiques de la Confédération générale du travail (CGT) et membre du Conseil économique français, a écrit sur l’Europe avant la signature du Traité de Rome, en 1956 – 1957.
[19] Jean Duret, Que signifie le Marché commun dans une Europe capitaliste? (Juillet 1956),
http://www.cvce.eu/content/publication/2006/9/12/5285eec7-a7ee-4bb3-a905-0d1504f2ba38/publishable_fr.pdf
[20] Jean Duret, art cité.
[21] A.G. Frank, Lumpen-bourgeoisie et lumpen-développement, Paris, Maspéro, 1971.
[22] Rémy Herrera, « Les théories du système mondial capitaliste », http://matisse.univ-paris1.fr/doc2/mse076.pdf
[23] Bernard Conte, « « L’Allemagne paiera ! » ou l’Europe implosera », Agoravox, 3/05/2010,
http://www.agoravox.fr/actualites/europe/article/l-allemagne-paiera-ou-l-europe-74410
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