Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
70º aniversário do programa do Conselho Nacional da Resistência
Nice , 12 Abril 2014
França: a re-industrialisação para um desenvolvimento soberano e popular
Bernard Conte
Enseignant – Chercheur en économie
Université de Bordeaux – Sciences Po Bordeaux
Comité Valmy
Le blogue de Bernard CONTE: France: la ré-industrialisation pour un développement souverain et populaire
24 de Abril de 2014
(continuação)
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A subida do desemprego tem tido um carácter permanente
Apesar das manipulações estatísticas, o desemprego na França é um desemprego de massa que apresenta um carácter permanente. Esta situação foi constatada nos países do Sul onde o desemprego “oficial” se dobra, de acordo com os economistas do desenvolvimento, de um desemprego “disfarçado [8]”, nomeadamente no sector agrícola porque os agentes não trabalham a tempo integral.
Na França, a taxa oficial de desemprego deveria atingir os 11% [9] da população activa em 2014. Para alguns a taxa real situar-se-ia em redor de 20%. A exemplo dos países do Sul, o desemprego dos jovens é elevado (cerca de25%) e em crescimento contínuo. O desemprego disfarçado é constituído nomeadamente pelo conjunto dos empregos ajudados: contrato de Futuro ou de Geração, por exemplo.
A situação do emprego conhece uma deriva que o orienta para uma situação típica de Terceiro Mundo no espaço global como o revela também a situação do nosso comércio externo.
O comércio externo da França, exemplo da mundialização tipo Terceiro-Mundo
A exemplo de numerosos de países do Sul, o comércio externo da França apresenta um défice quase permanente, enquanto a estrutura das trocas é desequilibrada com uma subida em força das exportações de produtos de fraco valor acrescentado e das importações de mais forte valor acrescentado.
Se é verdade que “desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a França não tem tradição de excedente comercial forte, teve porém uma curta década de balança comercial muito positiva, entre 1993 e 2001. Esta vantagem económica desapareceu na viragem do século e o nosso país apresenta agora um défice recorde na zona euro, que não assenta numa explosão de importações mas, em última análise, resulta de uma fraqueza inquietante das nossas exportações [10]”. Em 2005, as exportações atingiam 360 mil milhões de euros, as importações 384 mil milhões, ou seja, tendo-se uma balança comercial negativa de 24 mil milhões. Para 2013, os montantes são os seguintes: exportações 436 mil milhões, importações 497 mil milhões, défice da balança comercial: 61 mil milhões [11]. O desequilíbrio profundo do comércio externo francês pode ser aproximado aos desequilíbrios que caracterizam a maioria dos países do Sul.
Nos anos 1950-60, os economistas do desenvolvimento mostraram que uma das causas do subdesenvolvimento dos países do Sul estava ligada ao seu comércio externo que era caracterizado pela exportação de produtos primários (de fraco valor acrescentado) e pela importação de produtos manufacturados (de mais forte valor acrescentado), que constituía “uma troca desigual [12]” que empobrecia o Sul e em proveito do Norte, industrializado naquela época.
Em França, mesmo se existem ainda algumas fileiras de excelência, largamente mediatizadas (aeronáutica, farmácia…), a tendência está na colocação da França ao nível do Terceiro Mundo quanto à estrutura das trocas externas. A fileira madeira é um bom exemplo. “A França dispõe de terceira floresta da Europa, atrás da Suécia e da Finlândia: 16 milhões de hectares arborizados, ou seja cerca de 28% do território metropolitano… Carvalhos e faias exportam-se também maciçamente para a China, muito ávida em madeiras. As vendas com destino a Pequim duplicaram em 2011. Problema: a matéria primeiro vai em contentores inteiros, e regressa sob a forma de produtos manufacturados, bem mais caros [13]”. A Federação nacional da madeira (FNB) insurge-se contra esta situação denunciando a ausência de taxa europeia à importação. “produtos já serrados, transformação em tacos e móveis, é o que recebemos da Ásia a preços que desafiam qualquer concorrência! Isto quando a própria China taxa a importação de tacos para soalho em cerca de 20% e os móveis até 100%!”. Laurent Denormandie, presidente do FNB, denuncia a predação da renda florestal: “eles abastecem-se tanto mais em França quando as taxas à exportação neste caso nulas são … nulas! ” [14].
Este exemplo ilustra o desequilíbrio estrutural das trocas da França que destroem as suas rendas (as suas riquezas naturais) a favor do estrangeiro para as re-importar sob a forma de produtos transformados de mais forte valor acrescentado e cuja produção nos países originários cria emprego e riqueza. Trata-se bem de uma estrutura das trocas externas de tipo país do Terceiro mundo. Esta situação resulta, consideravelmente, da desindustrialização do nosso país.
A desindustrialização
Uma das características dos países subdesenvolvidos é o seu fraco nível de industrialização. Como muitos países desenvolvidos, a França desindustrializa-se. Este fenómeno é caracterizado por “três transformações concomitantes: uma redução do emprego industrial (a indústria perdeu 36% dos seus efectivos entre 1980 e 2007, quer dizer 1,9 milhão de empregos ou ainda 71.000 por ano), um retrocesso da contribuição deste sector para a formação do PIB (o peso da indústria no PIB em valor passou de 24% para 14% entre 1980 e 2007) e um forte crescimento do sector dos serviços comerciais [15]”.
“Facto particularmente revelador da desindustrialização acelerada da França: em 2009, o sector “das actividades de arte, espectáculos e recreativas”, que pertence ao sector terciário residencial, empregava mais activos do que o conjunto da indústria automóvel, de construtores e fabricantes de equipamentos todos juntos, ou seja 380.000 pessoas contra 244.000 [16]”.
Entre as causas da desindustrialização da França, a mundialização e a integração europeia neoliberal ocupam um lugar de escolha como sendo as principais causas.
(continua)
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[8] Étudiant les pays sous-développés, Rosenstein-Rodan a qualifié de chômage déguisé la situation de sous-emploi dans l’agriculture traditionnelle, un chômage occulte qui se masque derrière des activités de rendement faible, voire négligeable.
[9] Source: http://www.insee.fr/fr/themes/info-rapide.asp?id=14
[10] Assemblée Nationale, Les faiblesses et défis du commerce extérieur français, Rapport d’information, n° 4005, 23 novembre 2011.
[11] Aperçu du commerce extérieur de la France (données de référence : Février 2014),
http://lekiosque.finances.gouv.fr/APPCHIFFRE/Etudes/tableaux/apercu.pdf
[12] La thèse de l’échange inégal (A. Emmanuel, L’échange inégal, Paris Maspéro, 1969) a été précédée par celle de la détérioration des termes de l’échange (DTE) que l’on doit à H. Singer et R. Prebish.
[13] Nolwenn Weiler, « Les forêts françaises nouvel eldorado industriel? », 24/09/2012,http://www.bastamag.net/Les-forets-francaises-nouvel
[14] Idem.
[15] Lilas Demmou, La désindustrialisation de la France, Document de travail de la DG Trésor,Numéro 2010/01 – Juin 2010, p.4.
https://www.tresor.economie.gouv.fr/file/326045
[16] « Trente ans de désindustrialisation accélérée de la France, Le Figaro, 00/01/2014,
http://www.lefigaro.fr/conjoncture/2014/01/09/20002-20140109ARTFIG00287-trente-ans-de-desindustrialisation-acceleree-de-la-france.php
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