DIA DE ÉVORA – VERGÍLIO FERREIRA – UM ESCRITOR EM ÉVORA

dia de évora

 

Virgílio Ferreira - II

Em 1945, Vergílio Ferreira (1916 – 1996), licenciado em filologia clássica, professor de liceu, à beira dos trinta anos, é colocado em Évora, onde vai ficar a leccionar até 1959. É professor de português e de latim. Entretanto, a sua carreira de escritor já tinha sido iniciada, com a publicação de dois romances que se poderão classificar de neo-realistas, O Caminho Fica Longe (1943) e Onde Tudo Vai Morrendo (1944). Vagão J, também claramente  pertencente à mesma corrente, sai no ano seguinte. As terríveis  condições de vida em Portugal, que bem conhece e sentiu na pele, explicam as opções políticas que faz e porque usa as fórmulas do neo-realismo na sua ficção. Entretanto, também em 1945, sai L’Âge de la Raison, de Sartre. Em 1947, sai La Peste, de Camus. Em 1949, Vergílio Ferreira publica A Mudança, que para muitos prenuncia a sua transição para o existencialismo. Esta confirma-se com Manhã Submersa (1954) e Aparição (1959).

Aparição é uma das obras de Vergílio Ferreira cuja acção decorre em Évora. Transcrevemos uma passagem do capítulo II (págs. 23 e 24 da 33ª edição, da Bertrand Editora, de 1997), que sugere como o ambiente contribui para o sentido de solidão e o estado deprimido e angustiado do protagonista/narrador, reflectindo-se nos seus conflitos:

… A cidade resplandecia a um sol familiar, branca, enredada de ruas como de velhas ciladas, semeada de ruínas, de arcos partidos, nichos de santos de orações de outras eras, janelas góticas, com olhares embiocados. Évora mortuária, encruzilhada de raças, ossuário dos séculos e dos sonhos dos homens, como te lembro, como me dóis! Escrevo à luz mortal deste silêncio lunar, batido pelas vozes do vento, num casarão vazio. Habita-me o espaço e a desolação. E é como se aqui ouvisse ainda a tragédia da planície nos teus corais de camponeses. Subo a rua que leva à Sé, viro ao largo do templo de Diana. E nas colunas solitárias ouço como o murmúrio antigo de uma floresta imóvel. O zimbório da Sé brilha, dourado ao sol matinal. Fico a olhá-lo longo tempo, parado sob um arco que se lança sobre a rua, suspenso de silêncio e de memória. Depois as ruas descem apressadas, oblíquas a velhos medos, até outras ruas obscuras, onde me perco…

Não se infira daqui que Vergílio Ferreira se incompatibilizou com Évora. Lendo o que escreveu na sua autobiografia, percebemos os laços que perduraram entre o homem/escritor e a cidade. Lê-se no texto autobiográfico inserido na Fotobiografia publicada em 1993 pela Bertrand:

Mas dos centros de irradiação da minha atividade, apenas Évora transbordou de emoção para a lembrança. E como a Coimbra, é de novo a música, agora o coral dos camponeses, que a levanta ao espaço da minha comoção. Ouço-o ainda agora, a esse coro de amargura, raiado à infinidade da planície. Évora do silêncio com sinos nas manhãs de domingo, estradas abandonadas à vertigem da distância, ó cidade irreal, cidade única, memória perdida de mim. Sou do Alentejo como da serra onde nasci, a mesma voz de uma e outra ressoa em mim a espaço, a angústia e solidão.

Com certeza que foi para homenagear o grande escritor que a Universidade de Évora instituiu o Prémio Literário Virgílio Ferreira, que já galardoou 18 autores de língua portuguesa. Mas fora de dúvida que teve em conta também os laços que o homem manteve com a cidade.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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