
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Eleição 2014: A falha de comunicação de Obama
Não é somente a falha do presidente, mas ele não foi capaz de se opor às tendências políticas que conduziram a uma eleição desastrosa para o seu partido
David Corn, Obama’s Failure to Communicate
Mother Jones, 5 de Novembro de 2014
Pablo Martinez Monsivais/AP
“Nós somos o que sempre esperámos ser.” Isto é o que Barack Obama proclamou na noite de terça-feira Super em 2008, tomando a linha de um poema de Jordan June de 1980 (sem citar o poeta). A sua ênfase em termos de aspirações sobre o Nós era a base de uma campanha que o levou até à Casa Branca. Mas é a incapacidade do Presidente em encontrar um caminho, enquanto dirigia a nação através de uma série de crises, para transformar o Nós numa realidade que o levou a ele e ao seu partido para a escuridão do dia da eleição de 2014, quando os republicanos reforçaram a sua maioria na Câmara dirigida pelas gentes do Tea Party e facilmente tomaram o controle do Senado. Em breve eles nomearão Mitch McConnell, que facilmente venceu o seu adversário democrata, como líder da maioria do Senado. E os governadores do Partido Republicano, o GOP, em todo o país — Scott Walker em Wisconsin, Rick Scott na Flórida e Rick Snyder em Michigan — venceram os seus adversários democráticos. Os democratas perderam em grande parte do espaço americano — mesmo quando os eleitores nos Estados vermelhos aprovaram iniciativas para aumentar o salário mínimo.
Como presidente- como oposto a candidato – Obama não foi capaz de envolver completamente os eleitores. Enfrentou vários obstáculos – o obstrucionismo dos republicanos, circunstâncias globais que geraram dilemas uns a seguir aos outros e todos eles muito difíceis de resolver e o aumento de um já profundo sentimento de mal-estar e de incerteza (sobre o presente e sobre o futuro) entre os americanos. E Obama, como a maioria de presidentes no segundo mandato, teve que se confrontar com o mal-estar de quem está há seis anos na Presidência e que geralmente leva a uma perda de assentos da Câmara e Senado para o partido que está à frente no Executivo. Ainda aqui, é em parte a falha de Obama como chefe da Nação e bom contador de histórias em manter a cidadania – especialmente os seus eleitores – envolvido na narrativa política em curso que permitiu ao GOP, um partido que está no lado errado da maré demográfica em mudança do país e frequentemente em desacordo com a opinião pública (no salário mínimo, na segurança sobre as armas, em componentes-chave do programa de saúde Obamacare), a possibilidade de aumentar o seu poder político.
As eleições a meio do mandato são para disputar lugares individuais, cada um com as suas próprias peculiaridades e, frequentemente, de caprichosos resultados . Há dois anos que perito político poderia ter previsto que Joni Ernst, tão manhosa como a candidata da extrema-direita Sarah Palin , que apelou à destituição de Obama (e nega que assim fez ) obteria um lugar no Senado em Iowa, onde Obama foi reeleito por 6 pontos percentuais de difernça? Ou no Colorado? Elegeu Obama por 5 pontos há dois anos , e está a ter mais criação de emprego e um maior aumento no rendimento pessoal do que em quase todos os outros estados. Contudo o seu senator titular, o democrata Mark Udall, caiu face ao representante do GOP. Cory Gardner, um elemento Tea Party que procurou distanciar-se das suas anteriores posições de extrema-direita.
Os eleitores americanos estão cheios de medo . Mesmo com a economia a ter melhorado, embora lentamente, depois do crash de Bush-Cheney em 2008, os americanos tornaram-se profundamente pessimistas. Em Junho de 2009, a sondagem RealClearPolitics registava em média que os eleitores estavam divididos de igual modo entre aqueles que acreditaram que a nação estava no bom caminho e aqueles que temiam que esta estava na via errada, com cada ponto de vista a ter uma percentagem de eleitores na ordem dos 48,5 por cento dos que respondiam ao inquérito. Desde então, o número dos que consideram estar a Nação no bom caminho situam-se em cerca de uns simples 27,8 por cento . Os que consideram estar a Nação na via errada estarão na casa dos 66 por cento. Isto representa um eleitorado descontente. (No mês passado, Gallup estimou que 41 por cento dos americanos acreditam que a economia está a ir melhor, mas 54 por cento consideram-na como estando ela a agravar a sua situação, apesar de uma taxa de desemprego em diminuição. Esta diferença de 13 pontos representa a melhor perspectiva desde Janeiro, mas indica que a maioria dos americanos tem uma visão pessimista sobre a América.
Quando as pessoas estão descontentes (ou com medo), elas muitas vezes entram em comportamentos de revolta — e podem mudar de posição ou desinteressarem-se. Em Outubro, uma sondagem Gallup referia que os americanos estavam menos ansiosos por votar nas eleições deste ano do que nas anteriores três eleições intermédias. Apenas 32% disseram que estavam “extremamente motivados” em votar, em comparação com 50 por cento em 2010 e 45 por cento em 2006. Mas havia uma grande divisão partidária entre os que estavam ansiosos para ir até às urnas de voto. Quarenta e oito por cento dos republicanos referiam que estavam entusiasmados quanto à votação deste ano. Sem dúvida, os republicanos zangados estavam ansiosos para dar um puxão de orelhas em Obama e nos democratas. No entanto, somente 30 por cento dos eleitores que votam nos democratas disseram que eles estavam desejosos de colocar o seu voto nas urnas de voto. Isto sugere que Obama e seus companheiros democratas, têm, de certa maneira, perdido parte da sua base de apoio. Com os republicanos a ameaçar ficarem com uma esmagadora maioria no Senado – e a desfazer as realizações do Presidente e mais eficazmente do que os seus eleitos com as suas politicas de bloqueio o conseguiram travar de fazer — muitos eleitores democratas responderam com… um sonoro meh de indiferença.
Porque é que os eleitores democráticos não puseram as suas cabeças em perigo? Onde é que está o Nós ?
Sempre foi difícil mobilizar um grande número de eleitores fora das campanhas presidenciais, quando as pessoas que não prestam muita atenção à política são sobretudo atraídas pelas disputas mano a mano entre dois candidatos a lutarem para se tornarem o macho alfa (ou, talvez um dia, a mulher alfa) da nação. Como assinala Ronald Brownstein, a massa de apoiantes de Obama, em particular, é “uma coligação de comportamentos de boom e de crise, de comportamentos eufóricos e pessimistas que depende fortemente de minorias e de pessoas jovens que se juntam muito muito menos frequência nas eleições a meio do mandato do que aquando das eleições presidenciais”. Contudo, Obama não realizou uma missão chave: vender os seus próprios sucessos e manter as suas próprias tropas (políticas) debaixo de fogo e dispostas a avançar.
Depois dos democratas terem analisado os resultados das eleições intermédias de 2010— quando os republicanos do Tea Party assaltaram o GOP— os altos funcionários da Casa Branca reconheceram que eles tinham sido um fracasso em marketing político . Obama tinha acumulado vitórias políticas importantes nos seus dois primeiros anos como Presidente: tinha aumentado a sua popularidade com o aumento do nível de emprego, tinha conseguido salvar a indústria automobilística, tinha avançado na reforma de Wall Street, tinha reduzido os impostos para cerca de 90 por cento dos contribuintes, tinha organizado a reforma dos cuidados de saúde, tinha aumentado as bolsas para estudantes universitários e a legislação que permitiria que as mulheres não fossem sujeitas a discriminação salarial nos seus locais de trabalho. E uma economia que se tinha desmoronado estava agora a criar novos postos de trabalho. Mas a Casa Branca não tinha sido capaz de vender estes ganhos como vitórias políticas imediatas, e o Tea Party venceu os democratas. Em conversas após as eleições com os seus assessores, Obama observou que não tinha conseguido fazer o que na campanha eleitoral de 2008 fez tão bem: contar a sua própria história.
Os seus assessores disseram aos repórteres o que fizeram: consideraram que tinham trabalhado sobre um elemento essencial da governação de Obama- definir a narrativa em curso. Juraram-nos que tinham aprendido a lição e que para a próxima fariam bem melhor.
Mas não é claro que esta lição tenha sido aprendida e transformada em mudança. Certo, Obama, após um período de alta tensão com os republicanos na Câmara dos Representantes , que tinham organizado uma paralisação da actividade governamental e provocado uma crise sobre o tecto da dívida, reagrupou as suas forças e fez uma campanha eficaz para a sua reeleição contra um candidato republicano cheio de responsabilidades. Mas assim que essa eleição terminou, Obama pareceu voltar atrás e para a mesma situação. Em parte, Obama debatia-se com um problema estrutural. Obama verdadeiramente não conseguiu vencer o obstrucionismo republicano no que diz respeito aos seus comportamentos. As forças antigovernamentais do GOP estavam na feliz posição de saber que os eleitores viam Washington como disfuncional e com Obama a apresentar muitos sinais desse mesmo disfuncionamento. Os republicanos (muitos dos quais não querem que o governo seja considerado como uma ferramenta eficaz) tirariam proveito do mal-estar da população mesmo se a sua constante oposição tenha ela mesmo provocado a esclerose política.
E há ainda isto: as vitórias de Obama foram frequentemente relativamente amortecidas ou traduzidas num pacote onde havia medidas de sinais contrários, especialmente na perspectiva dos seus apoiantes. Na fracassada sessão após as eleições de 2010, ganhou um pacote sobre os impostos que se traduzia num mini-estímulo mas conseguiu-o à custa de manter as reduções nos impostos sobre os mais ricos que vinham do tempo de Bush. A sua reforma do sistema de saúde, um produto que foi o resultado de um longo e desagradável processo legislativo, não incluiu uma opção pública e deu-se então o fiasco do Web site. Jurou voltar atrás na guerra do Afeganistão, mas aprovou primeiramente um aumento nas tropas em presença. A sua Administração desencadeou um elevado número de iniciativas políticas visando o problema grave das mudanças climáticas – mas não houve nenhuma grande resultado (como por exemplo a assinatura de um tratado internacional do clima ou uma legislação detalhada a nível nacional). O seu esforço para eliminar Don’t Ask, Don’t Tell foi inicialmente criticado pelos advogados dos direitos dos homossexuais, que acreditaram que não se estava a andar suficientemente depressa para acabar com a política discriminatória. Obama acabou com a guerra no Iraque – uma guerra do tipo da Vietname. Veio então o ISIS e um novo envolvimento das forças armadas dos E.U. Emitiu ordens que protegiam certos imigrantes não documentados mas as deportações aumentaram, e atrasou o avanço para acções adicionais que protegessem os imigrantes indocumentados. Obama alinhou com a pressão dos republicanos em cortes orçamentais para proteger outras prioridades da despesa e impedir uma implosão do tecto de débito. Através de muitas destas práticas, teve o pressentimento altamente preocupante de poder ser visto como a imagem de contador de histórias e era frequentemente relutante a fortes críticas aos republicanos porque acreditava que estava obrigado a tentar criar acordos razoáveis com eles. Por vezes, o presidente deixava inesperadamente cair este tipo de comportamento não agressivo com os seus inimigos republicanos mas isto só acontecia de forma esporádica, em circunstâncias específicas, e Obama nunca desenvolveu uma linha de demarcação consistente que descrevesse o GOP como uma força de forte e constante obstrucionismo.
Mensagens nem sempre claras nos seus objectivos, vitórias políticas complexas, compromissos e confusão — não é uma surpresa que os membros da Coligação Democrática com laços ténues a este processo político se tenham retirado. Esperança e mudança tornaram-se metade em pão e a outra metade em complicação. Enquanto isso, a situação interna e externa parecia estar a caminhar no sentido do aprofundamento da crise: um site de saúde que não funciona, hospitais de veteranos que foram verdadeiras armadilhas de morte (mesmo que essa história tenha sido exagerada), Síria, Ucrânia, ISIS, americanos decapitados, Ebola, tudo isto bloqueou a Casa Branca. Seria natural para muitos americanos, baralhados e muito preocupados sobre a segurança económica dos Estados Unidos, olharem para o Presidente e dizerem-lhe, faça com que isto pare, faça com isto desapareça — e não se preocuparem que, graças aos que escreveram a Constituição, Obama não podia por vontade própria impor a Washington as suas próprias perspectivas. E moldar acontecimentos no Oriente Médio, Rússia e África não é uma tarefa nada fácil. O seu número de votos baixou, os candidatos democratas fugiram dele. O Presidente e o seu partido não apresentaram efectivamente uma história convincente para combater a vaga, o medo crescente, os ataques quanto à competência montados e desferidos pelos republicanos contra Obama e a sua equipa.
As autoridades na Casa Branca apontam — como explicação ou como desculpa, cada um que decida… — que hoje em dia num ambiente caótico e desordenado em que estão os media é difícil para eles aceder directamente aos eleitores. Quando eles tentam transmitir uma mensagem através dos media muitas vezes não alcançam os eleitores . Quando ignoram os principais meios de informação eles estão-se a suicidar . Referindo-se aos seus esforços quanto a mensagens, um conselheiro de Obama recentemente disse-me : “somos uma merda. Estamos bem durante a campanha quando as pessoas estão concentradas nas eleições. É difícil quando assim não estão. “
Obama e a sua equipa transformaram foram bem sucedidos na transformação da sua campanha dando uma muito grande importância aos dados e às métricas com as organizações a trabalhar no terreno. E fizeram-no por duas vezes. Mas o presidente não transformou a política. Para bater as esperadas vagas relativas à oposição e já previsíveis em 2010 e 2014, Obama precisava de utilizar formas não convencionais, imaginativas e eficazes como o fez em 2008 e 2012. Ele precisava de manter ao seu lado os independentes e os cidadãos eleitores de tendência democrática, particularmente aqueles que de outra maneira se tornariam indiferentes para com a política, precisava que estes se envolvessem de uma forma ou de outro no processo eleitoral. E tinha que o fazer ao mesmo tempo que enquanto Presidente se situaria acima de Washington que parecia ser um miasma da desordem e enquanto ao mesmo tempo se confrontava com uma economia a não estar bem e com todo esse inferno que se desencadeava no estrangeiro. Era necessário que ele mantivesse o Nós neste caldeirão de coisas difíceis.
Talvez fosse um objectivo de fasquia muito alta. Talvez Obama não o pudesse alcançar apenas com os seus próprios meios. Talvez fosse quase impossível para um presidente e seus assessores governar bem em épocas tão difíceis (afinando muito frequentemente respostas complexas e não inteiramente satisfatórias sobre os graves problemas a nível interno e externo) E simultaneamente estar a promover uma mensagem política clara que de forma consistente acabe completamente com os ruídos políticos e que o ligue aos eleitores extraordinariamente preocupados acerca do seu futuro. Mas as eleições funcionam… para aqueles que trabalham para elas, que as ganham. E os republicanos ambiciosos e irritados têm-se aproveitado mais uma vez do descontentamento, da decepção, da apatia dos eleitores, ou do que quer que seja, relativamente aos Democratas. Agora, em parte porque Obama não poderia convencer eleitores no Iowa, Colorado, e noutros lugares, a colarem-se a ele e às políticas que ele patrocina, muitas das suas realizações estão agora em risco, e a nação enfrenta a perspectiva de mais engarrafamento e de muito mais caos em Washington. Mas os Democratas não o devem responsabilizar apenas a ele . Quando se trata de dizer quem é culpado, precisamos de dizer, “Nós somos, we are .”
David Corn, site Mother Jones,
Election 2014: Obama’s Failure to Communicate -It’s not all the president’s fault, but he hasn’t been able to buck political trends that led to another disastrous election for his party.
Texto disponível em :
http://www.motherjones.com/politics/2014/11/election-2014-obama-failure-communicate?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+DavidCorn+(MoJo+Author+Feeds%3A+David+Corn+%7C+Mother+Jones)
Like this:
Like Loading...