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Capítulo VII
DE OUTUBRO DE 1910 A OUTUBRO DE 1921
Entre a Revolução de 5 de Outubro de 1910 e a revolta de 19 de Outubro de 1921 a vida pública portuguesa atravessa todo o tipo de convulsões que é possível imaginar.
Os primeiros dias dos anos 20 são já uma amostra de um país a naufragar numa tempestade que não dá descanso.
Da falhada «Monarquia à moda do Porto», volta-se agora à vitoriosa «República à moda de Lisboa», com o Terreiro do Paço a fazer o País como pode, e de País quando pode.
Aos olhos de muitos e grandes nomes da luta histórica pelo ideal republicano, isto já não é República não é nada:
– É uma bacanal de percevejos num colchão podre – Diz Guerra Junqueiro, gigante incomparável da propaganda revolucionária durante os anos da Monarquia. – Afora meia dúzia, o resto devora. Os homens são cada vez pior, cada vez mais pequenos. Tirem-lhes a política e ninguém dá por eles – acusa o poeta, cansado e desiludido com um rumo que tem já destino inevitável para uma esperança de tantos anos.
– A Monarquia, nesta altura […], seria de fugir… E a República? A República – diz Junqueiro – não se atura nem se pode aturar!
– Não temos estadistas, não temos políticos… – reclama, em conversa com Lopes de Oliveira, que interpõe:
– Mas quem sabe se.
– Não, não; o peixe anda na água; se não aparece, é que o não há.
O rumo que estavam a dar à República trazia profunda consternação e gerava grandes inquietações entre todos os que queriam sentir a necessidade de cumprir melhor a «promessa» de 5 de Outubro de 1910.
Não poucos eram os que erguiam a sua voz contra o que estava a acontecer ao regime que ajudaram a implantar e que acreditavam poder ser melhor.
Aproveitando todas as ocasiões, nomes dos mais respeitados faziam ouvir os seus protestos, como Leote do Rego, em entrevista ao semanário ABC de 26 de Agosto de 1920:
– É preciso pôr termo ao turbilhão de ódios em que se vive neste País, maculando reputações ou iniciativas, abastardando a alma e os talentos. É preciso que isto acabe!
Referindo ao estado da política no País, o prestigiado oficial de Marinha e deputado republicano, expõe os seus veementes desejos para que termine de vez a «arena de feras em Portugal!»
Alguns dias depois volta a expressar as suas opiniões desta vez nas páginas de O Século:
– Precisamos de substituir a política dos partidos pela política das competências.
Num discurso de cerca de uma hora, na sessão parlamentar de 25 de Fevereiro de 1921, Leote do Rego profere as seguintes palavras:
– O Estado português é republicano, mas a Pátria é de todos! Basta de ódios, discórdias, pedradas! Trabalhemos! Salvemos a República!
E, ante a estupefação da Câmara de Deputados, exclamou:
– Que elite é essa que, apenas se dissipa a fumarada dos canhões e das barricadas e que as últimas pazadas de terra caem sobre os que dão a vida pelo prestígio e grandeza da sua Pátria, rasga o mandato que lhes confiaram, para voltar a entregar-se ao seu prazer predileto: a discórdia, a luta política, a baixa intriga e todo esse cortejo de coisas mesquinhas e perversas que só servem para abastardar o carácter e o talento, diminuir-nos aos olhos dos verdadeiros republicanos e servir de gáudio ao estrangeiro?
Prosseguindo na sua intervenção, Leote do Rego volta a abordar a questão partidária:
– O mal da República portuguesa não está na existência de partidos e grupos. Está no exagero da paixão, na irredutibilidade, no personalismo e, sobretudo, na instabilidade governativa. O rosário interminável de Governos – uma vez houve três numa semana – e alguns apenas durante horas é, na verdade, bem difícil de explicar. É uma celebridade que nos compromete e tira prestígio às instituições.
Antes de entrar na parte final, e depois de aludir a diversos sintomas de inquietação que se notavam por todo o lado, afirmou ainda:
– O País está farto de elixires, de promessas, de programa de Messias e de crises, e vê bem o futuro que o espera se tudo continuar como agora.
Por fim, e dirigindo-se a toda a Câmara, exclamou:
– Senhor presidente, e meus senhores! É grave a hora que a Pátria atravessa. Basta de ódios Acabem as discórdias Basta de agravos! Basta de pedradas! Haja ponderação.
Era assim que decorria a vida pública portuguesa no alvorar do segundo decénio deste século. Tudo era movimentação e ação que punham à flor da pele as piores espécies de reações e sentimentos recalcados. Uma estranha mistura de perceção sensitiva parece apoderar-se dos discernimentos humanos num bailado de flutuações ao sabor de um compasso decamerónico. Quem queria ver a vida podia o fazer com quantos olhos a entendesse merecedora de apreciação. Os ritmos alienavam e conduziam a hibernação do mais elementar sentir solidário. Com alguma coragem e boa consciência não era difícil chegar a lugar de respeito no protesto nacional.
Como dizia nessa altura o poeta José Gomes Ferreira, no seu manifesto de 1921, Os Eunucos: «Em terra de capados quem tem um testículo é rei.»
Falando dessa época do pós-guerra, Raul Brandão haveria de utilizar toda a extraordinária força das suas palavras para descrever o que foram os anos 20 à portuguesa:
«Vivemos numa atmosfera de interesses e paixões, que a guerra exacerbou. Poucos homens lhe resistem. Vi Junqueiro mentir, vi Junqueiro inventar para deprimir os seus inimigos. Vi os políticos mentirem e servirem-se do Exército e dos desgraçados para se instalarem no Poder. Vi formar-se e adensar-se a atmosfera de ódios e de interesses que gera os acontecimentos – tão carregada que já nem o Céu nem o Inferno podem com ela. Caminha por si e atua por si. É uma mentira? Que importa que seja uma mentira? Tem mais vida que todas as verdades juntas. Dir-se-ia que só as mentiras são capazes duma vida frenética, da vida que resolve, da vida que destrói e mata. As verdades são comezinhas. Só a mentira apaixona os inúteis, o desgraçado povo só sentimento e inconsciência, os rates, os sonhos inúteis, os homens dos cafés, os púrrias, os ingénuos que sonham na felicidade universal.»
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Os três anos que separam 1919 de 1921 (do fim do sidonismo aos acontecimentos outubristas) constituem sob todos os pontos de vista os piores momentos atingidos pela República. Em especial em 1920 e 1921, a instabilidade e a insegurança assumem proporções de verdadeira calamidade nacional. Oito governos em 1920, a somar aos cinco de 1919, com mais seis em 1921, dão um total bem elucidativo.
A revolução de Sidónio Pais, de 5 Dezembro de 1917, nunca mais deixaria a República voltar a ser a mesma. A expe
riência dezembrista era algo demasiado forte para poder passar como cão por vinha vindimada, num país de fragilidades de toda a ordem. O sidonismo deixara tudo de pernas para o ar, à exceção daquilo que assim já se encontrava.
O Governo de José Relvas, nos primeiros meses de 1919, é a última tentativa da República se reencontrar com o povo, que a anseia desde a manhã de 5 de Outubro de 1910.
José Carlos da Maia, um dos assassinados na noite de 19 de Outubro de 1921, ocupa a pasta da Marinha neste Ministério, após uma controversa passagem, juntamente com Machado Santos, pelos Governos de Sidónio País, com quem acabarão por entrar em total rompimento nos últimos meses da sua ditadura.
Com o cair do Governo de José Relvas, em 30 de Março de 1919, desmoronam-se os restos da estabilidade que ainda sobrevinha no meio de sucessivas cutiladas. «Doravante, os ministérios vão-se suceder à razão de um gabinete por problema, ou pouco falta, e os problemas, esses, vão-se acumular.»
«Voltaremos às mesmas lutas estéreis», escreve José Relvas, em 5 de Abril de 1919, já a desfrutar da tranquilidade sadia do seu magnifico Solar dos Patudos, em Alpiarça, «ao mesmo desinteresse dos problemas nacionais, às mesmas intrigas ambiciosas, e ao cabo de um período mais ou menos longo outra ditadura virá renovar os dias de Pimenta de Castro e de Sidónio País, com as correlativas e perturbantes reações, mas então já uma ditadura que sucederá com a experiência do passado àquelas que a falta de experiência tornou inviáveis. Uma ditadura, que manterá apenas um simulacro de República, ou que será uma transição para a Monarquia. E essa será a maior responsabilidade dos partidos, que, a despeito de todas as experiências e de largas provações, são incorrigíveis nos seus processos e na aceitação das mais comprometedoras solidariedades.»
Uma vez mais, como já acontecera com Leote do Rego, um grande vulto da história republicana vem alertar – e acertar – para o que virá a surgir dentro de uma escassa meia dúzia de anos.
Logo nos últimos dias do seu Ministério José Relvas não tinha dúvidas sobre o tipo de assalto que se ia seguir: «Vai vencer o maior intrigante, ou, no receio em que todos se encontram, chegaremos a uma situação muito próxima da vacância do Poder. E será esse talvez o objetivo dos mais audaciosos.»
José Relvas, que no começo do mandato dizia ter a impressão de presidir a um manicómio, no final afirmava: «Hoje tenho a impressão de habitar um covil de feras!»
O sidonismo deixará marcas por todo o lado. Nem mesmo as poderosas organizações republicanas vão escapar à purga, ou praga, que se vai abater sobre as praças-fortes do poder dominante. Os partidos vão ser objeto de alterações que mudarão de alto a abaixo o xadrez político nacional, embora a República vá continuar a ser mais um meio do que um fim.
Júlio Martins, destacado dirigente partidário, dizia logo a seguir à morte de Sidónio País: «Os partidos morreram em 5 de Dezembro! Só podemos admitir hoje a sua existência como organizações antiquadas, de outros tempos, muito diferentes da hora que vivemos, correspondendo a aspirações e sentimentos que não são os de hoje.»
Mas não se pense, contudo, que esta situação de descrédito e desagregação a que tinham chegado as instituições e a imagem da República eram novidade ou resultado exclusivo dos erros da governação e dos governantes da época posterior à queda do sidonismo.
Desde os primeiros dias do novo regime, que os principais dirigentes republicanos eram vistos com preocupante desconfiança por um cada vez mais numeroso lote de críticos, de indiscutível autoridade e de comprovado passado histórico.
Poucos ou nenhum dos grandes nomes que vão assumir a condução da República em 1910 irão conseguir escapar ilesos a uma das mais formidáveis e avassaladora vaga de ataques de que há memória num regime de colegialidade governativa. Nuns casos mais justos, noutros não tanto, toda essa avalanche acusatória acabava desgraçadamente por ter sempre alguma razão de ser.
Uma paciente e interessada observação do que foram alguns desses intermináveis clamores de reprovação pode dar ideia da «doença infantil» que terá atingido, logo à nascença, a República portuguesa.
A começar precisamente pelo pai, fundador, implantador, herói e tudo o mais que se entenda para o papel de Machado Santos em 5 de Outubro de 1910, a sua República morreu quase antes de ter nascido.
As suas primeiras palavras, ainda na Rotunda de 5 de Outubro de 1910: «Já não há inimigos! Hoje todos os portugueses, trocando abraços fraternais, vão colaborar na obra de regeneração da Pátria! Já não há inimigos! Há só irmãos!» São palavras que não deixam adivinhar o destino trágico de onze anos mais tarde mas serão as primeiras e as últimas pronunciadas neste tom de crença.
O Governo que acompanha a proclamação solene da República, do alto das varandas da Câmara Municipal de Lisboa, põe logo indisposto o comandante revolucionário. Estava quase todo trocado. Ainda durante a manhã do dia 5, Machado Santos volta para junto dos seus carbonários na Rotunda, e, não fora a feliz ideia de Brito Camacho de promover a ida do novo Governo ao acampamento do alto do Parque Eduardo VII, talvez as comemorações da Revolução republicana não fossem hoje exatamente no dia 5 desse mês.
No ano 1 da vitoriosa Revolução; no primeiro dia da novel República, começavam a surgir os indícios de que o novo regime não iria ter a vida facilitada.
Como sempre tem acontecido ao longo da História, os «vira-casacas», (no caso da revolução republicana portuguesa, chamavam-se «adesivos»), procuraram a toda a força encostar-se à nova situação, «oferecendo» os seus préstimos e a sua «experiência» às organizações políticas que melhor apareciam posicionadas na grelha de partida da corrida para o «Grande Prémio» do Poder.
Eles apareciam por todo o lado. Vinham às carradas: a pé, a cavalo, de carroça, de bicicleta; de comboio, de automóvel – e vinham sabe-se lá como. Todos queriam acompanhar a moda, e, melhor ainda, aproveitar as novas «oportunidades» que se abriam em generosas escâncaras para os donos de alguma iniciativa, por mais tímida que ela fosse.
Para a maior parte dos novos caudilhos do Poder, era absolutamente igual ao litro que os «adesivos» fossem republicanos de fresca data, ou monárquicos da velha cepa. Mais eficazes em proclamar a República do alto da varanda da Câmara de Lisboa do que em mudar o Pais, pouco ou nada fizeram para contrariar esta evasão mimética dos oportunistas que aderiam à pressa e em grosso caudal aos seus partidos
Vasco Pulido Valente no livro O Poder e o Povo – que serviu de tese de doutoramento ao autor – anota que: «A partir dos últimos dias de Outubro, [1910] antigos militantes, políticos, caciques e influentes monárquicos correram a inscrever as suas disciplinadas tropas nos registos do Partido Republicano Português – PRP. Nalguns concelhos, como, por exemplo, em Águeda, a máquina inteira de um dos partidos do Constitucionalismo marchou em boa ordem para a delegação local do PRP e solenemente se declarou republicana. Noutros sítios, abriam-se livros de registo em mercearias e tabernas e os caciques deram instruções aos seus clientes (quase todos analfabetos) para lá deporem a sua assinatura. Casos houve até em que conseguiram impedir a inscrição de verdadeiros republicanos ou se arranjaram para transviar os cadernos por eles organizados.»
O tema das adesões a treco-lareco e de convicção apanhada a vírus foi também objeto de interessante trabalho apresentado por João Medina na História Contemporânea de Portugal, obra que dirigiu e que, infelizmente, passou quase despercebida em termos de divulgação pública.
No capítulo A Revolução falhada ou a República frustrada ao nascer: o fenómeno da «adesivagem» às novas instituições, são expostas algumas reações de gente famosa na época desde republicanos a monárquicos.
Entre os segundos conta-se o ex-ministro António Cabral, que reagia à debandada dos seus antigos companheiros, dizendo que causava «assombro e náusea» ver os «adesivos» correndo para a República como uma vara de porcos que «se volta, grunhindo para os novos donos, com receio que estes lhe retirem a gamela da paparrotada ou a pia da lambujem». «Os Aderentes, ainda com os beiços engordurados da papança do dadivoso regime findo, faziam parecer que tudo em Portugal – desde as pedras da calçada, às árvores das montanhas – fora sempre republicano.
Que belo País! Que formidável raça! Quando todo o mundo nos crê azuis, nós somos vermelhos…
Hoje são monárquicos alguns caturras. Mas os monárquicos fervorosos do tempo da Monarquia, os comilões… esses foram todos para a República… A República é a mãe ubérrima e eles são insaciáveis». (O Liberal, 3-XII-l910)
Para republicanos como João Chagas a benevolência e as facilidades que os monárquicos encontravam nas novas autoridades, eram vistas assim: «O cacete não veio – viva a pândega!»
Na verdade, ficou logo visível nas primeiras determinações do Governo Provisório «referendado» da varanda da Câmara Municipal de Lisboa que aquela República não vinha com intenções de causar grandes embaraços aos áulicos de Sua Alteza.
No Diário do Governo n.º 1, datado de 5 de Outubro de 1910, o Governo Provisório faz publicar uma declaração garantindo ter tomado todas as medidas necessárias, para a segurança do monarca deposto e da família real.
No n.º 2, na manhã do dia seguinte, emite uma proclamação, convidando o povo de Lisboa a cessar todas as manifestações nas ruas, suscetíveis de alterar a ordem e recomendando o máximo respeito pelas vidas e propriedades.
No mesmo Diário, de dia 6, consta ainda outra proclamação convidando todos os grupos revolucionários e forças populares não militarizadas a entregarem as armas.
E, – como que em resposta afirmativa a estas demonstrações de irmandade por parte do Governo Provisório – a 10 de Outubro regressa a Lisboa parte da comitiva que havia acompanhado a família real aquando da sua fuga para a Ericeira com o objetivo de embarcar com destino a Gibraltar.
O Governo gritado da alta varanda camarária estava a «fazer um bom trabalho».

