CARTA DE PARIS – Grande Guerra: “Os sacrificados” de João Grave – VI – por Manuela Degerine

 

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“Estamos todos condenados: somos os sacrificados”

(“Canção de Craonne”)

VI

As virtudes da guerra

No conto “Carta de Longe”[1] os militares são aclamados pela multidão: “Quando desfilavam nas ruas com destino aos cais de embarque, as flores caíam sôbre as suas cabeças como uma chuva colorida e perfumada. Os olhos das mulheres fitavam-nos com admiração”[2].

[Em contrapartida o capitão Menezes Ferreira descreve o embarque dos cinquenta e cinco mil homens do Corpo Expedicionário Português: “quasi em segredo”[3].]

No mesmo conto fazemos esta descoberta: “A guerra deixava, pois, de ser criminosa para se tornar sagrada, quando era feita para a salvação de uma Pátria”[4].

[Ah, a guerra santa… Entretanto os leitores já contestam que as Pátrias ameaçadas eram belga, francesa, etc. E que o governo francês – por exemplo – tinha quase tanta responsabilidade naquela guerra como o alemão. A França e a Alemanha haviam-se desafiado e preparado durante trinta anos, reforçando e equipando os exércitos, criando, cada uma por seu lado, triplas aliaças com outros países europeus… A Inglaterra intervinha por a Alemanha fazer concorrência à sua hegemonia marítima e aos seus apetites na África e no Médio Oriente… A Rússia por ter ambições expansionistas nos países balcânicos… Et caetera. A Grande Guerra foi uma gula de gigantes – uma indigestão de obesos. Em contrapartida Portugal não dispunha sequer de meios para alimentar o povo… O Corpo Expedicionário Português foi transportado em navios ingleses, combateu com armas inglesas, recebem ordens do 1° Exército Britânico: uma carne para canhão muito magra e desgraçada, que todavia poupou milhares de vidas inglesas. Esta intervenção portuguesa inútil, precipitada, mal pensada, mal preparada deixou a imagem que agora lemos no dicionário francês da Grande Guerra em “Portugal” (artigo redigido por Rémy Porte que cita o Major G. R. Johnston)… “As apreciações feitas na época pelos britânicos sobre os combates da primavera de 1918 na região do Lys são tão negativas como as que se referem ao contingente português em África: “O comando não se improvisa durante a batalha. Forma-se nos campos de instrução mas, também nestes, os oficiais portugueses eram incompetentes.”[5] Este ponto de vista mostra sobretudo a incompreensão que existiu entre ingleses e portugueses, porquanto a pretensa competência dos oficiais ingleses também não lhes evitou derrotas, hecatombes e insubordinações; afinal o Reino Unido – sem contar as colónias – teve 722.800 mortos, 1.662.600 feridos e 170.400 prisioneiros e desaparecidos[6]: um desastre como os outros. E, se os mesmos oficiais portugueses comandassem um Corpo Expedicionário que beneficiasse das condições materiais do exército inglês, obteriam sem dúvida mais disciplina e espírito de corpo, mas talvez o balanço final fosse… ainda mais sinistro.]

(Continua)

[1] GRAVE, João, “Os Sacrificados (Contos da Guerra)”, segunda edição, Livraria Chardron, Porto, sem data.
[2] Idem, p. 100.
[3] MENEZES FERREIRA, “João Ninguém – soldado na Grande Guerra”, 2ª edição, ed. Folhas e Letras, Lisboa, 2003, p. 20.
[4] GRAVE, João, op. cit., p. 107.
[5] “Portugal ” in “Dictionnaire de la Grande Guerre, 1914-1918”, dir. de François Cochet et Rémy Porte, ed. Robert Laffont, Paris, 2008; citação do Major G. R. Johnston, “The Portuguese Army in the Great War”, “Army Quarterly Journal”, octobre, 1937, p. 68-83.
[6] Números publicados no artigo “Pertes” redigido por Rémy Porte in “Dictionnaire de la Grande Guerre, 1914-1918”, dir. de François Cochet et Rémy Porte, ed. Robert Laffont, Paris, 2008.

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