
III
E, como a mamã do Gibi me mirasse espantada, expliquei-lhe:
– Vosselência sabe lá que tormento é o de viver numa sociedade constituída por noventa e nove por cento de pessoas sérias e sensaboronas e ter que diverti-las à força! É horrível!
Em casa, com a família, ainda o humorista pode ser uma pessoa estúpida como as outras. Pode ter as suas arrelias, doerem-lhe os dentes, padecer de reumatismo ou dos intestinos. Pode indignar-se, estar de mau humor, falar como toda a gente e pedir em vernáculo água quente à criada e o bife à cozinheira.
Mas, apenas sai para a rua, começa o seu suplício. Tem uma bota que lhe aperta, uma conta a pagar dentro de oito dias, correu-lhe mal um projecto em que confiava, chove a potes e não trouxe guarda-chuva, o carro não aparece e quando chega vem cheio. Pois o primeiro conhecido que encontra bate-lhe no ombro, no tal ombro do reumatismo, e diz-lhe com um ar de rancor profundo:
– O meu amigo, já se sabe, sempre bem disposto…
E o pobre humorista tem de sorrir e concordar com um arzinho misterioso de quem tem no bolso o segredo da perpétua boa disposição.
O sensaborão em questão nunca deixa de acrescentar que leu na antevéspera um livro da autoria do nosso homem ou esteve na semana anterior assistindo com a família ao seu último sucesso teatral. Remata com uma expressão de soberano desprezo:
– Fartámo-nos de rir. Não sei como você consegue inventar aqueles disparates e aquelas tolices. A vida está para si…
De caminho pisa-nos o pé, o tal da bota apertada, e, quando nos vê fazer uma visagem de dor, ri-se cruelmente e diz-nos ao ouvido:
– Agora veja lá se vai contar esta no seu folhetim…
E como à saída do carro, um automóvel que passa quase atropela o amigo humorista, o outro, o sensaborão, diz-lhe do alto da plataforma:
– Meta lá isso agora na sua revista.
15 de Abril de 1922
(continua)

