OS MEUS DOMINGOS – DOS INCONVENIENTES DE SER HUMORISTA – por ANDRÉ BRUN

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(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

 

III

E, como a mamã do Gibi me mirasse espantada, expliquei-lhe:

– Vosselência sabe lá que tormento é o de viver numa sociedade constituída por noventa e nove por cento de pessoas sérias e sensaboronas e ter que diverti-las à força! É horrível!

Em casa, com a família, ainda o humorista pode ser uma pessoa estúpida como as outras. Pode ter as suas arrelias, doerem-lhe os dentes, padecer de reumatismo ou dos intestinos. Pode indignar-se, estar de mau humor, falar como toda a gente e pedir em vernáculo água quente à criada e o bife à cozinheira.

Mas, apenas sai para a rua, começa o seu suplício. Tem uma bota que lhe aperta, uma conta a pagar dentro de oito dias, correu-lhe mal um projecto em que confiava, chove a potes e não trouxe guarda-chuva, o carro não aparece e quando chega vem cheio. Pois o primeiro conhecido que encontra bate-lhe no ombro, no tal ombro do reumatismo, e diz-lhe com um ar de rancor profundo:

– O meu amigo, já se sabe, sempre bem disposto…

E o pobre humorista tem de sorrir e concordar com um arzinho misterioso de quem tem no bolso o segredo da perpétua boa disposição.

O sensaborão em questão nunca deixa de acrescentar que leu na antevéspera um livro da autoria do nosso homem ou esteve na semana anterior assistindo com a família ao seu último sucesso teatral. Remata com uma expressão de soberano desprezo:

– Fartámo-nos de rir. Não sei como você consegue inventar aqueles disparates e aquelas tolices. A vida está para si…

De caminho pisa-nos o pé, o tal da bota apertada, e, quando nos vê fazer  uma visagem de dor, ri-se cruelmente e diz-nos ao ouvido:

– Agora veja lá se vai contar esta no seu folhetim…

E como à saída do carro, um automóvel que passa quase atropela o amigo humorista, o outro, o sensaborão, diz-lhe do alto da plataforma:

– Meta lá isso agora na sua revista.

15 de Abril de 1922

(continua)

 

 

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