EDITORIAL: Estamos a ficar mais estúpidos?

Imagem2Não se sabe até que ponto é credível a descoberta, anunciada o mês passado, de um vírus que infecta os cérebros humanos e nos torna mais estúpidos, embora a revelação da investigação provenha da Medical School e da Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos e seja publicada no Proceedings of the National Academy of Sciences. Estaremos mesmo a ficar mais estúpidos?

Quando se fala em progresso, avanços tecnológicos, evolução das mentalidades e quando se vê os sorrisos de comiseração dos adolescentes ao saber que os seus pais, os seus avós, essa «gente antiga», não dispunha de telemóveis, nem de tablets, não podemos evitar sentir comiseração por todos nós – velhos, jovens, crianças, que compartilhamos uma realidade tão falsa, tão enredada em mitos, tão assente em falsos pressupostos. Um desses pressupostos é o de que as novas gerações possuem uma mentalidade mais evoluída do que as anteriores, confundindo o avanço tecnológico, fruto de um desenvolvimento colectivo, com o aumento individual da capacidade cognitiva. O tal vírus que infecta os cérebros parece desmentir a convicção.

E mais do que isso, não se pode deixar de ficar surpreendido ao ler textos de há séculos atrás, escritos por «velhos» de 30 anos, sabendo-se que hoje com 30 anos se é considerado «jovem», se vive economicamente protegido pelos pais e se recorre a bolsas e programas de apoio aos jovens. Por exemplo, a maturidade intelectual de um Francisco de Holanda aos 30 anos é espantosa.

No lado negro da actualidade, vemos que, por exemplo, no caso da investigação criminal, os métodos usados na Idade Média e nos primeiros séculos da Idade Moderna se mantêm, embora tenham mudado as designações. Em Guantánamo, as torturas infligidas aos alegados terroristas islâmicos, a criatividade norte-americana mais não fez do que ressuscitar velhos métodos da Inquisição. Por exemplo, a touca que se aplicava a judeus e a judaizantes, aparece ali com o nome de waterboarding. O que, ao assumir uma designação que nos leva a pensar num qualquer desporto radical, branqueia, de certo modo, a monstruosidade do procedimento. A touca consistia em enfiar na boca do preso, até à traqueia, um lenço, despejando depois água, empapando o pano e produzindo uma sensação de afogamento. Muitos dos pacientes não resistiam. Ossos do ofício! Mas, como se vê, da touca ao waterboarding, com quinhentos anos de permeio e todas as inerentes aquisições científicas, tecnológicas, filosóficas, o progresso não foi grande.

Mais do que a estagnação dos métodos de tortura, preocupa a persistência da crueldade, do desprezo pela integridade física e intelectual do outro. No fundo, desde pré-história, mudou o acessório – a natureza humana mantém-se. Em todos os milénios do percurso entre as cavernas e a exploração do espaço, a espécie foi sendo mais racional. Quando será mais humana? Quando se porá fim ao canibalismo?

 

2 Comments

  1. Um texto muito bem pensado que, quanto a mim, faz um retrato fiel do modo como está a viver-se. Na verdade o comportamento humano, em vez de melhorar, está a manifestar uma imensa propensão para a prática da violência e do desrespeito pelos direitos humanos. Se está a fazê-lo, e está, é bom ser dito que isso é uma obra de alienação incentivada e executada pelas direcções políticas e económicas dos Estados com pretensões mundiais de hegemonia política. Infelizmente os comportamentos humanos parecem não querer melhorar, antes pelo contrário, enquanto só melhoram os electrodomésticos! Eu pergunto ao articulista se vê haver alguma força – falo do nosso País – que, de facto, queira por termo ao retrocesso em curso?CLV

  2. Por mim, não me queixo, ainda não dei conta de nenhum sintoma (mas bato três vezes na madeira, qu’eu nã sou supersticioso, mas nã vá o demo tecê-las). A existência deste vírus, que deve existir desde sempre, é uma boa explicação para os comportamentos predominantes da espécie, desde a Pré-História até aos nossos dias. Agora fico à espera de que se descubra, quanto antes, a vacina e a cura, antes que os contagiados, que, logo por azar, vêm ocupando a esmagadora maioria dos cargos de poder (económico, político, etc.) dê cabo de toda a Humanidade e do planeta onde mora…

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