LIVRO & LIVROS – Sobre tradução e tradutores – por Carmen Maria Serralta

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Este artigo de Carmen Maria Serralta aborda um tema de grande importância e que já aqui tenho focado num registo muito próximo do que a argonauta brasileira apresenta – entre as profissões do livro, a de tradutor tem sido das mais expostas à acção de aventureiros. Isto acontece por diversas razões; em certos casos, porque os editores pagam mal, miseravelmente mesmo, um trabalho que é de suma importância no percurso de uma obra para um idioma diferente daquele em que foi concebida. Outro aspecto é a forma como o tradutor encara a sua tarefa, mesmo que domine perfeitamente a língua de partida e a de chegada – a  tentação de “melhorar” o original é muitas vezes fatal. O tradutor não é um protagonista, mas apenas um mediador – quanto menos se der pela sua presença, melhor. Termino com um esclarecimento – fui o tradutor de Sobre heroes y  tumbas, de Ernesto Sábato. Na edição portuguesa, o título foi Heróis e Túmulos. Mantive uma interessante correspondência com Sábato, pois o romance está escrito num castelhano diferente do que estudei – pejado de regionalismos e de modismos porteños. Os erros apontados pela nossa amiga Carmen Maria, provenientes de «falsos amigos» em que o português e o castelhano são férteis em ambos os sentidos, dizem, por certo, respeito à edição brasileira. ( CL)

É muito conhecida a expressão italiana “Traduttore, traditore” que faz de toda tradução literária uma traição e do tradutor um traidor, admitindo que não existe tradução exata, pois algo sempre se perde na passagem de uma língua para outra. Pode-se falar, no entanto, em melhores ou piores traduções segundo o grau de maior ou menor fidelidade ao texto de origem.

A “interlegibilidade”, isto é, a grande proximidade de línguas como o português e o castelhano, justamente pela aparente facilidade, tem sido a causa de imperdoáveis cochilos por parte dos tradutores. Numa tradução de “Sobre Heróis e Tumbas” do escritor argentino Ernesto Sabato, aparecem entre muitos outros espanholismos, “gravado” em vez de gravura, “trampas” em vez de armadilhas, “patetismo” em vez de patético.

Há também um caso escandaloso que ocorreu com Milan Kundera: em uma entrevista ao “Corriere della Sera”, o famoso escritor ficou estupefato quando o repórter lhe indagou o porquê da mudança de seu estilo floreado e barroco para o de enxuto e límpido. Kundera descobriu então que havia sido vítima do tradutor, o qual introduzira no texto inúmeras e injustificáveis metáforas embelezadoras, tais como: “sob um céu de anil” em lugar de “o céu estava azul”, “nas árvores misturava-se uma polifonia de tons” por “as árvores estavam coloridas” e assim por diante.

É óbvio que esses casos de má tradução nada têm a ver com o real problema da traduzibilidade. Dificuldades à parte, limitações aceitas; a tarefa do tradutor compreende ofício e arte, ofício de artesão, arte de intérprete, colaborando, dessa forma, para uma melhor comunicação entre os homens.

 

 

 

 

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