EDITORIAL: O «jogo democrático»

Imagem2Quando se critica o sistema parlamentar, a aparente inutilidade da intervenção dos partidos de esquerda numa Assembleia onde a direita real, para além das falaciosas siglas partidárias que nada significam – o PSD nada tem a ver com a social democracia e o PS, dividido em «sensibilidades» é dominado por gente que mandou o socialismo às urtigas – quando se diz que aquelas intervenções de pecepistas e bloquistas, acompanhadas por sorrisos e apartes irónicos da maioria, de pouco servem – logo há quem diga – «são as regras do jogo democrático».

Para que conste – a democracia não é um jogo.

É uma convicção apoiada numa filosofia política, é um objectivo de uma sociedade que privilegie a igualdade dos cidadãos perante a lei e que permita que todos vivam em condições dignas e com acesso aos bens materiais e culturais de que todo o ser humano necessita. Nunca, em parte alguma, existiu uma democracia, um governo do povo, de acordo com a descodificação etimológica.

O poder económico que rege a «aldeia global», depois de no século passado ter imposto o seu domínio por métodos violentos, promovendo a ascensão do fascismo e do nazismo, conseguiu que prevalecesse a «democracia». Ensino, meios de informação e comunicação social, tudo está organizado no sentido de os cidadãos, com a ilusão de estar a escolher livremente, optem por aquilo que foi pré-determinado. O consumismo, elevado à categoria de valor prioritário, condiciona as opções.

Quando se medita sobre o confronto entre o Marquês de Pombal e a Companhia de Jesus, sabendo-se que Sebastião José de Carvalho e Melo defendia o princípio da origem divina do poder régio e que os jesuítas contrapunham a submissão dos monarcas à soberania da vontade comunitária, se não aprofundamos a realidade vivida na segunda metade do século XVIII, somos induzidos à opinião de que o confronto decorria entre um déspota de mentalidade medieval e uma organização onde brilhava o sol do iluminismo e do alvor da democracia.

Raspando a camada superficial, apercebemo-nos de que a Societas Iesu, fundada em 1534 por Inácio de Loyola, conseguira, apostando no trabalho missionário e, sobretudo, no ensino (que exercia com um rigor científico sem paralelo na época) impregnar a sociedade das suas ideias. Dos púlpitos, eloquentes oradores da Companhia, modelavam as consciências e defendiam o primado da vontade popular em detrimento de uma unção divina em que só um cérebro deficiente pode acreditar.

O Marquês sabia o que fazia. Usou o poder régio, o absolutismo, como muralha aposta à demagogia jesuítica que condicionava a vontade popular à aceitação sem luta da injustiça social, dos ricos que não entram no céu e dos pobres dos quais o reino celeste será – talvez se tenham esquecido de dizer que o inferno dos ricos tem ar condicionado, spa e cuisine française, e que o céu dos miseráveis é um bairro degradado numa qualquer área metropolitana. O Marquês não podia invocar Marx e, caçando com gato, invocava a divindade do poder real. Um tirano oprimindo uma nobreza beata, executando sem piedade e com ‘ democrática’ brutalidade, fidalgos, padres, colonos, comerciantes e lavradores ciosos de interesses corporativos, ratos nojentos, marginais…

Foi há dois séculos e meio. As coisas mudaram muito… Bem, pelo menos, mudaram os nomes das coisas.

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