
Perdido nas Entrelinhas do Comentarês
Devo confessar que o meu interesse pelo futebol termina, de um modo geral, noventa minutos depois de o meu clube começar a jogar. O resto passa-me ao lado. Mas, desta vez, resolvi ver a final do Campeonato do Mundo. Desta vez, porque estava com vontade, já que queria ver a Argentina perder.
Vi, e aprendi imenso. Não sabia que agora era assim que se descrevia um jogo de futebol, com faltas que o não foram, com agressões que ninguém viu, e com a complacência dos senhores que mandam no jogo e decidem se apitam ou não.
Também aprendi com o que ouvi dos comentadores / analistas, coisas de que não fazia a mínima ideia do que eram, a serem faladas com a maior naturalidade.
Passo a descrever:
Num jogo que se joga com os pés e num campo de tamanho limitado e perfeitamente horizontal, fiquei surpreendido com a verticalidade do jogo, com os cortes cirúrgicos (e a possível urgência em chamar uma ambulância), com jogadores que flutuam entre o segundo avançado e o médio (talvez pudesse e devessem usar coletes salva-vidas), com o futebol ecológico (espera-se que o relvado tenha certificado ambiental), com o jogo a decorrer em águas muito calmas (altura em que fiquei à espera dos nadadores-salvadores), com a necessidade de colocar mais carne no assador, com o ataque aéreo (olhei instintivamente para o céu, mas não vi a força Aérea), e, finalmente, com uma bola teleguiada.
Suspeito que, se um jogador espirrar perto da linha lateral, aparecerá imediatamente um comentador a explicar que se tratou de uma alteração táctica do eixo respiratório.
Comecei a desconfiar que o futebol deixou de ser um jogo para passar a ser um dialecto. O problema é que ninguém distribui um dicionário à entrada do estádio.
Aquando da minha meninice, dizia-se simplesmente que um jogador passava a bola ao colega. Hoje, parece que executa uma reorganização dinâmica dos corredores interiores em contexto de pressão alta. Antigamente dizia-se que o avançado rematou ao lado. Hoje, que o atleta procurou um reposicionamento balístico do objecto esférico em contexto de inferioridade posicional. Os jargões de hoje, incomodam-me. Os comentadores analistas falam como se estivessem a revelar mistérios iniciáticos.
Não sei se volto a tentar ver outro jogo, mas se o fizer, por certo que só o farei com o som desligado. Sempre ouvi dizer que o futebol era um espectáculo para se ver. Afinal, parece que passou a exigir tradução simultânea. E descobri que o futebol continua a jogar-se com onze jogadores de cada lado. E, finalmente, percebi que durante mais de sessenta anos, nunca entendi o que quer que fosse de futebol.
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lol fartei-me de rir adorei adorei adorei os políticos também gostaram do mundial. Cada jogo tinha conotações políticas e conclusões políticas. Isto pareceu mais um jogo de política que de futebol