Afonso Costa que mereceu de Fernando Pessoa classificações como: «José do Telhado de revenda». «O perfeito tipo de salteador político». «Um dos maiores bandidos que têm aparecido à superfície da política lusitana». «Um escroque-nato, uma besta, um piolho da política, um tirano de caca, comparado com João Franco, que seria um tirano de merda».
Pessoa nunca fora muito dado a grandes simpatias pela causa republicana. Afora a sua adoração por Sidónio Pais – a quem chama de «presidente-rei» – o poeta da Mensagem não poupa o regime de 5 de Outubro de 1910. Para Pessoa «A situação em Portugal, proclamada a República, é a de uma multidão amorfa de pobres-diabos, governada por uma minoria violenta de malandros e de comilões.»
Infelizmente para a República e para Portugal, como já vimos não era só Fernando Pessoa que pensava desta maneira. Longe disso. Se Pessoa podia ser distante desses ideais, outros, a que ninguém podia pôr em causa o seu verdadeiro republicanismo, condenaram de forma não menos contundente os caminhos porque enveredava a I República portuguesa.
Magalhães Lima, por exemplo. Numa carta que em 1923 escreve a Teófilo Braga diz de sua justiça: «Os meus princípios de filosofia política, decerto um pouco radicais, evidentemente excedem a orientação dada à República, que nem é a dos insignes enciclopedistas de 89, nem a dos grandes homens de 48, nem sequer a que lhe imprimimos em 5 de Outubro de 1910.»
Pouco anos depois de ter terminado a I República em Portugal, Raul Proença escreve na Seara Nova de 29 de dezembro de 1930:
«O mal da República está na miséria da sua ideologia e na estreiteza de vistas, na fraqueza ou na corrupção de grande parte dos seus homens.
O mal da República está em não ter sido tolerante quando deve, e quando deve, enérgica.
O mal da República está em que prometemos sempre mais rigores do que o permitem os princípios, para, afinal, termos sempre menos do que o exige a prudência.
O mal da República está em que prometemos sempre dominar, por vezes, as nossas paixões de revindicta, outras vezes, muitas mais, os nossos sentimentalismos de piedade, não tendo sabido nunca ser justos ou inflexíveis na punição do crime.
O mal da República está em termos ligado uma importância absoluta às formas exteriores do regime, o hino, as cores, a cartola do Presidente, a bandeira – que para mim me são, estética à parte, absolutamente indiferentes –, e nenhuma às suas aspirações, às suas doutrinas e às suas realidades essenciais.
O mal da República está em nos verem sempre prontos a confiar no primeiro imbecil agaloado que possua os recursos materiais de subverter a ordem legal, e em termos esperado a salvação pública de todos (dos heróis, dos chefes, dos messias e até dos asnos), menos de nós mesmos.
O mal da República está em termos feito consistir o nosso republicanismo em aclamar e vitoriar os homens públicos, em vez de os fiscalizar e controlar.
O mal da República está na criminosa impunidade com que temos dado imperecível alento a todos os movimentos revolucionários, introduzindo, por assim dizer, o direito de insurreição permanente – e sem ideias, entre as regalias fundamentais do cidadão.
O mal da República está em não termos a coragem de castigar o crime, o verdadeiro, o único crime (o de facto, não o de opinião, que não há crimes de opinião numa democracia) – prosseguindo assim, em vez da punição dos verdadeiros delinquentes, dos obstinados inimigos da ordem, a míseros bodes expiatórios, que nada têm a ver com as sucessivas traições à República perpetradas de há vinte anos a esta parte por muitos dos que se dizem republicanos.
O mal da República, finalmente, está em que se deseja prosseguir no mesmo modo de vida – continuar a admitir as mesmas ilegítimas intervenções – e longe de aspirarmos a uma maior e mais efetiva liberdade, a um maior e mais efetivo controlo de todos os poderes por uma reforma total do regime da imprensa (que deveria instituir-se, em grande parte, num serviço coletivo dirigido e fiscalizado por representantes eleitos de todos os partidos), se pensamos em reformar esse regime é, pelo contrário, para colocar toda a imprensa, ou a que conta, sob a tutela do Estado, dirigida por representantes do poder constituído, o que é falsear inteiramente o funcionamento da democracia e suprimir de facto, como fizeram, com os ótimos resultados que se conhecem, o fascismo e o bolchevismo, todo o controlo governativo.
São estes e outros males análogos que é preciso combater.»
Mais perto do nosso tempo, Eduardo Lourenço escreve sobre a I República. Em Portugal como Destino, publicado em 1999, expõe o seguinte: «O triunfo da primeira República, em 1910, a ter durado mais que os seus escassos dezasseis anos, e pelo simples facto de ter posto fim a uma Monarquia de oito séculos de existência, merecia – outros dizem merece – aceder a um estatuto mítico, ser uma referência profunda e íntima da memória nacional»
[…]
«Sem dúvida que o assassinato do rei D. Carlos e do herdeiro do trono, D. Luís, em 1908, num povo tão sentimental como o português não contribui pouco para esse obscurecimento da República. Curiosamente, sem que a Monarquia ou a sua lembrança beneficiassem com isso. Portugal é um povo de longa memória (historial), mas sem memória profunda. O regicídio provocou naturalmente, uma grande emoção. Os assassinatos reais eram moeda corrente na época numa Europa que não sabia que caminhava para a catástrofe. Mas, na nossa história, esse género de dramas pareciam copiados de outros, ininteligíveis. Tiveram consequências políticas, mas não tinham conteúdo político.»
E, falando também de Sidónio Pais, o autor do notável livro O Labirinto da Saudade, acrescenta:
«A República democrática, como se fosse uma pequena Weimar, sonha com uma nova ordem. Em 1918, o primeiro de uma longa série de «caudilhos» dispostos a porem ordem na «desordem» europeia estabelece uma breve ditadura em Portugal. Chamava-se Sidónio Pais e, talvez por ter sido assassinado um ano depois, transformou-se num dos raros personagens lendários da medíocre história portuguesa deste século. Uma vez mais ressuscitou-se nele o espectro regenerador de D. Sebastião. Deste, tinha a coragem e o garbo. Adorado pelas mulheres, em plena aurora do cinema, foi a primeira star da nossa moderna mitologia. Suscitou paixões, de nítido fundo antirrepublicano e pré-ditatorial. Para que nunca mais fosse esquecido, entusiasmou Fernando Pessoa, que nunca morreu de amores pela «democracia à portuguesa». Tínhamos, na tradição de Oliveira Martins, um possível Bismark. Morto, tivemos uma referência para uma nova ordem.» […] «A sua maneira, a República foi para muita gente, sobretudo poetas, um acontecimento «sebastianista». Uma nova era se abria para Portugal. O jovem Pessoa, o próprio Pascoais, tiveram o seu momento «republicano». Portugal descera, com as últimas convulsões da Monarquia, a uma situação dolorosa e intolerável. Era necessário resgatá-lo, não dos seus maus pastores (como dissera Guerra Junqueiro), mas de si mesmo. A ideia de que Portugal, tendo percorrido a senda da sua decadência, para não dizer da sua expiação, devia e estava em condições de renascer tornou-se uma ideia fixa das novas gerações.»
Com 45 Governos em menos de dezasseis anos e tanta tragédia a persegui-la, a I República ficaria para a História como o regime parlamentar mais instável da Europa ocidental.
Começou pela morte de um rei que deixou um político governar como queria. Viu matar um presidente que não quis que os políticos governassem como queriam. Assistiu ao assassinato de um governante que não deixaram que governasse como lhe cabia.
Era um monarca tutelar mas constitucionalista na sua essência. Era um presidente ditatorial, mas o único que foi sufragado por voto popular. Era um chefe de Governo odiado mas que pela segunda vez era solicitado a formar Ministério.
Era, era, era…
Era Portugal. É Portugal!

