EDITORIAL: O império, a tortura e os valores morais

Imagem2Em editorial anterior, falámos dos métodos de tortura usados na Idade Média que se mantêm, embora tenham mudado as suas designações. A PIDE, elegeu como método de excelência, a estátua, em que o detido era mantido sem dormir dias a fio, devendo estar imobilizado. O sistema foi depois modificado, permitindo-se que se movimentasse – era a chamada tortura do sono, o velho Tormentum Insomniae que enlouquecia as vítimas do Santo Ofício, correndo descalças pelas pedras que pavimentavam as celas, os pés sangrando, enquanto os dominicanos interrogadores trocavam sorrisos irónicos. Mais umas horas e começa a “cantar”…

 A PIDE, a pataqueira PIDE, com os seus agentes ordinários, escumalha de psicopatas arrebanhada em seminários, recrutada na passagem à disponibilidade, vindos da Guerra Colonial, após um curso na “Academia” de Sete Rios, usava os métodos da Inquisição. Os actuais agentes da CIA, com formação mais sofisticada, recorrem a um leque alargado de modalidades igualmente herdadas dos frades inquisidores, tais como a touca , crismada de waterboarding – um lenço, enfiado até à traqueia do detido. despejando depois água, empapando o pano e produzindo uma sensação de afogamento.

Um relatório do Senado norte-americano, divulgado esta semana fala nestes métodos – simulação de afogamento, dias seguidos de privação do sono, alimentação rectal, foram alguns dos métodos de interrogatório utilizados pela CIA para obter informações a partir de suspeitos de terrorismo, após o 11 de Setembro. Um documento de seis mil páginas onde se relatam casos como os de um detido que – em Agosto de 2002 – esteve fechado 266 horas numa espécie de caixão – 53 centímetros de largura e 76,2 centímetros de profundidade. Esbofeteado, privado do sono e a pelo menos 83 waterboardings (simulações de afogamento). É isto que afirma, ao longo de mais 6000 páginas, um relatório da Comissão de Serviços Secretos do Senado dos EUA divulgado esta semana, onde são revelados métodos de interrogatório “brutais e muito piores” do que a agência de informações antes admitira.

Alimentação e reidratação rectal forçada, waterboarding, banhos de água gelada, humilhações ou ameaças psicológicas, privação do sono até 180 horas – (a PIDE ia mais longe – sabe-se de um estudante de Agronomia que, em 1965, terá estado 22 dias no «sono» – mais de 500 horas!). «Técnicas de interrogatório» utilizadas durante dias ou semanas seguidas, em 39 dos 119 prisioneiros sob custódia da CIA. 26 terão sido detidos indevidamente. Barack Obama, armado em «pide-bom»,veio declarar que estes métodos são contrários aos valores dos Estados Unidos. Em 2009 Barack Obama proibiu o uso de técnicas de tortura em interrogatórios realizados pela CIA, cujo ex-director, Michael Hayden, revelou nunca ter mentido a Bush, ex-presidente dos Estados Unidos, sobre as práticas de interrogatório realizadas pela Agência. Durante sete anos, a presidência assobiou e olhou para o lado.

O teatro do absurdo, de Ionesco, com os seus diálogos sem sentido, como na Cantora Careca, é um modelo de coerência quando comparado com o teatro da crueldade que o império norte-americano, com os seus valores de pacotilha, põe em cena todos os dias, num palco perto de todos nós. Demasiado perto.

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