OS MEUS DOMINGOS – DOS INCONVENIENTES DE SER HUMORISTA – por ANDRÉ BRUN

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(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

 

IV

(continuação)

“… Se lhe contasse, minha senhora, três dúzias de histórias que me aconteceram e as múltiplas fatalidades que me têm desabado em cima por ter, mal ou bem, angariado fama de espirituoso…

Uma vez, começava eu a ser humorista, fui convidado para jantar em casa dum sujeito.

– Minha mulher e minha cunhada têm muita vontade de o conhecer, dissera-me ele, abraçando-me com um ar protector.

Fui ao tal jantar e, por infelicidade minha, nesse dia estava arreliadíssimo. Logo de entrada, vi que o melhor prato do menu era eu. A esposa e as cunhadas tinham convidado várias pessoas e toda aquela gente estava à espera das gracinhas que eu ia fatalmente dizer. Mal abria a boca, todos se calavam e logo começavam a sorrir. O pior é que não disse nessa noite senão banalidades – o que aliás me acontece a miúde – e a expectativa geral foi abominavelmente iludida. No fim do jantar já ninguém me ligava a mínima importância e todos me tratavam com o desdém que se reserva habitualmente às mulheres perdidas e aos papa-jantares importunos. Só me mirava com simpatia certa senhora de idade, que duma vez que eu pedira pão à criada, rira a bandeiras despregadas e, por mais duas ou três vezes, quando eu afirmara que chovera bastante na véspera e que no verão o calor era natural, soltara umas gargalhadinhas simpáticas. Fui para o pé dela, abandonado como estava por toda a gente e então é que percebi porque se ria quando eu falava. Era surda como uma porta e o dono de casa, sobrinho dela, tinha-lhe sem dúvida explicado, antes de eu chegar, que ia lá jantar um rapaz muito divertido.

…Doutra vez entraram-me pela porta dentro dois rapazinhos, manos por tal sinal, e, sem maiores preâmbulos, convidaram-me a ir fazer uma conferência humorística a uma praia perto de Lisboa. Havia de tarde regatas, natação, corridas de bicicletas e à noite, no clube, distribuição de prémios e baile. Nessa altura eu devia divertir a assistência. A coisa era de ali a três dias.

Para me desculpar de não aceder ao convite, aleguei, entre outras razões, que o tempo era escasso para preparar a minha palestra.

– Qual história! – disse-me um dos manos. – Vossa Ex.ª não prepara nada. Chega lá, diz duas asneiras e pronto …

Confesso que fiquei um tanto estomagado. Só passado um instante voltei a mim e pude aconselhar…

– Se a questão é só de dizer duas asneiras, escuso de lá ir. Acabo de ouvir que o meu amigo é muito capaz de dizer uma. O seu mano que diga outra parecida e pronto…

15 de Abril de 1922
(continua)

 

 

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