A GALIZA COMO TAREFA -Os dias históricos da Galiza- Ernesto V. Sousa

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Em julho de 2002, a muito louvada e tristemente naufragada Edições do Castro, do Grupo Sargadelos, que amparava o saudoso e imenso Isaac Diaz Pardo, publicava, em edição e notas do bom Afonso Mato, o manuscrito, inédito – e infelizmente em fase de rascunho e cheio de lagoas [lacunas] – de “Los días Históricos de Galicia”. Notas, a modo de almanaque cronológico em que o inesquecível Alberte Vilanova (Ourense, 1910-1985), deixava constância da sua erudição e da vontade compilatória e patriótica que marcou a sua vida e lhe serviu de refúgio e agasalho durante o longo exílio.

dias hcos0001Na tradição das cronologias, dos dicionários, das notícias, das compilações de sucessos ou personagens, conforma, junto com outros destacados exemplos da erudição galega (Gándara, Feijó, Murguia, Besteiro Torres, Castelao, Couceiro Freixomil, Lanza…) o que podemos denominar de História fragmentar da Galiza, que é a própria das culturas resistentes às quais dalgum jeito se negou a capacidade de narrar como conjunto estruturado a própria história.

Poucos povos haverá na Europa que tenham uma história tão longa e rica em factos como o galego e que ao mesmo tempo fossem obrigados a viver na modernidade numa constante de alheamento, de desinteresse pela cronologia e pela história pátria, como se entre nós fosse normal que predominasse ainda a tendência medieval a digerir a História e a cultivar dela a estória. Como se neste mundo nosso ainda feito à medida humana, a narração da história, não pudesse fixar-se, nem enunciar, na própria voz protagonista, os feitos, casos, assuntos, cenários, gerações, ligações, fitos que nós achássemos importantes.

É por isso que em ausência de verdadeira história e desconfiando popular e preventivamente da que o estado nos aprende na escola, fomos deslocando a narração como sabedoria, e tratando-a de acasalar com essa percepção também obrigada da vida sem tempos e sem destino, extraindo precavidamente o conflituoso e misturando tudo em fábula e conto como contínuo de presente: auroras e solpores, reis, rainhas, condes, monumentos, mouros, celtas, guerreiros, bispos, meigas, conservam-se como personagens símbolos na narrativa coletiva, exemplo, anedotas ou conselhos.

Como no livro de Vilanova, a nossa História, as achegas dos historiadores, são incompletas. Limitam-se, as mais a momentos, feitos e episódios isolados, protagonizados por galegos, a serviço de qualquer Rei, de qualquer projeto nacional, de qualquer bandeira, o que ainda define a nossa narrativa histórica; ou são histórias que pertencem a outras narrativas nacionais, nomeadamente às de Espanha, Portugal, antes de elas existirem, as das novas nações da América, episódios e personagens dos países de Europa, da Austrália e onde os galegos chegaram. Porém não são História da Galiza: são histórias de galegos e galegas.

Condenados à fragmentação episódica, os historiadores interessados nas cousas e Galiza, como bem destacou o mesmíssimo Benito Vicetto devem procurar ainda nas Histórias de outros e mesmo nas contrárias. Fantasia, folclore, costumismo e paisagem, lírica, sentimentalidade… descontinuidade, rascunhos, notas, por toda a parte; mas falta, como na pintura, ou na literatura, ou na música, uma estrutura, uma ligação: falta o direito reconhecido a inventar a Nação. Não há história, nem pintura histórica, nem uma literatura, uma música nacional, sem um sentido conjunto, sem um projeto de Estado.

A inexistência ou negação de uma Galiza na história, continua no presente. E não afeta apenas a interna compreensão da Galiza, obra como sortilégio e apaga a interpretação histórica e do presente, dos galegos e das galegas, de qualquer Galiza possível, na Espanha e em Portugal.

4 Comments

  1. Excelente narração para perceber o drama da história da Galiza, e também para uns alicerces de futuro, pois há muito onde trabalhar, tecer, arrumar, limpar, recuperar e desentumecer. Estamos em andamento. Parabéns!

  2. Magnífico texto, como sempre, amigo Ernesto. Mas essa ausência de história da Galiza, porém presença constante de histórias dos galegos e galegas, não será uma vantagem e um regalo? Somos redes, nómades internos (e externos, claro), não maquinaria de Estado. Abraço!

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