CARTA DE LISBOA – A novela Espírito Santo – por Pedro Godinho

lisboa

 

 

Eles pensavam mesmo que eram os donos disto tudo e que tudo lhes era devido, por direito natural, de berço, vinha com o nome, afinal poucos podiam reclamar, como eles, ter uma ligação directa com o espírito santo.

Nunca tiveram dúvidas quanto a isso e comportavam-se conforme, como se compusessem a aristocracia do país com merecimento de direitos de senhoria medieval com o correspondente exército de oficiais, funcionários e amanuenses que lhes tratassem dos interesses que o tempo deles era demasiado precioso para se ocuparem com os pormenores do dia-a-dia – a eles cabia receber as rendas devidas.

À sua volta constitui-se uma corte de prestadores, mais ou menos durões, que na sua diligência procurava as sobras do enriquecimento dos incensados patrões.

O tempo, como sempre acontece, encarregou-se de mostrar o devaneio sem fundação: nada os distinguia, nenhum valor tinham, se não o que doutros se apropriavam; com a colaboração de arrivistas que se promoviam promovendo-os e, em troca das colocações que eles lhes proporcionavam, lhes garantiam negócios e rendimentos com o dinheiro e à custa de outros, incluindo os bens colectivos que tornavam privados, seus, sicilianamente distribuídos pela família.

E veio à luz do dia que, afinal, os ilustres todo-poderosos, tirando a rede corleaneana, nada valiam e o grupo, tantas vezes glorificado e premiado, não passava de simples fraude, de esquema de pirâmide.

Confrontados, talvez pela primeira vez na vida, com a possibilidade de serem responsabilizados pelos seus actos, ei-los a afirmar que, afinal, não fizeram, não viram, não sabiam. A culpa de todos os males é dos que se aproveitaram da sua generosidade e dum tal de “commissaire aux comptes”.

E no grupo modelo, tantas vezes apresentado como exemplo da arte de bem gerir toda a economia e finanças, decerto voluntariamente, tudo faltava e falhava, (inglesando como tanto gostam para dar verniz à gestão): o governance não governava, o leadership não dirigia, o risk management não manageirava riscos, o compliance não garantia quaisquer conformidades, o auditing nada auditava, mas o selling seguia performante vendendo o que era pelo que diziam ser.

E na zanga das comadres, descobrem-se primos maus e primos bons, golpes e golpadas, mentiras e meias verdades, conspirações e traições:

É terça feira
e a feira da ladra
quase transborda
de abarrotada
(…)
E todos querem
regateiam
amarguras
ilusões
trapos e cacos e contradições
[Sérgio Godinho, É terça-feira]

 

A qualidade do guião poderá não ser a melhor mas temos novela para vários episódios. Esperemos pelas cenas do próximo capítulo.

One comment

  1. Pedro Godinho

    Sérgio Godinho, É Terça-feira
    http://youtu.be/mj3pF-re8ro

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