Com uma população economicamente debilitada por uma criminosa política de austeridade, estamos mergulhados na sede de consumo que esta época festiva sempre provoca. Poderia aplicar-se aqui, no plano simbólico, a teoria dos reflexos condicionados. Condicionadas para consumir, desaparecido ou radicalmente diminuído o poder de compra, as pessoas continuam a comprar, a encher grandes superfícies, sacrificando ao vício do consumo a satisfação de compromissos, a aquisição de bens prioritários – quem sabe se não mesmo, cuidados de saúde?
Na entrada “Consumir” do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, temos: Consumir: «v. tr. (do lat. Consumere). Gastar, destruir, extinguir, corroer até completa destruição. Enfraquecer, abater.» E continua com muitas outras acepções terminando com «Enganar, iludir». Pelo meio, tem as acepções mais comuns – «Dar extracção, procurar géneros alimentícios, artigos fabricados, etc.\\ Despender, gastar ||» e outras menos comuns «Matar, assassinar. || Devorar em silêncio. E entra no foro da liturgia católica: «Desfazer a hóstia na boca. || Receber (o sacerdote), na missa, o corpo e o sangue de Cristo, sob as espécies do pão e do vinho consagrados.»
A relação entre valor de uso e valor de troca, outrora base de negócios importantes, quase deixou de funcionar, pois o valor de uso. foi substancialmente depreciado. O que é usado, o que não está em moda, o que funcionando perfeitamente foi ultrapassado por um modelo mais recente, quase não tem valor.
Em países do chamado Terceiro Mundo, as pessoas vestem roupas cerzidas, sapatos remendados e deslocam-se em automóveis que na nossa sociedade há muito teriam sido considerados sucata. Todos os anos deitamos fora roupas em bom estado, porque já não se usam. O hábito de trocar de carro, leva-nos a vendermos por tuta e meia carros que funcionam perfeitamente. Isto é, o modelo de sociedade em que vivemos, alimenta-se do consumo supérfluo. Os jovens vendem a alma ao diabo por umas sapatilhas da Nike. O choque consumista nas famílias pobres é de efeitos devastadores. Incapazes de compreender por que razão os pais insistem em os vestir na loja do chinês, jovens enfurecidos vão ao ponto de assaltar estabelecimentos. Trazem as sapatilhas, as t-shirts, as jeans, das almejadas marcas (muitas vezes de qualidade semelhante à da loja do chinês e confeccionadas também em países do Terceiro Mundo em regime de quase trabalho escravo). Mas ostentam a marca o que, para eles, faz toda a diferença.
O consumo transformou-se numa religião.
Por isso, fica-se na dúvida – Quando desejamos um Bom Natal, o que queremos dizer? Será que ainda faz sentido?
