Num momento em que se ameaça privatizar mais bens que a todos
serviam ( Metro e TAP); num momento em que todos andamos a pagar as contas em offshores de muitos dos nossos ex-governantes e seus compadres; num momento em que as leis feitas à medida permitem aos corruptos nacionais não serem julgados, enquanto outros implicados de outros países são condenados (submarinos), eis que os professores obrigados a fazerem provas o fazem sob supervisão da polícia de intervenção!
No passado dia 19 assistimos todos, passivamente, à humilhação por que sofreram os professores do nosso país. Professores contratados realizavam a Prova de Avaliação de Capacidades e Conhecimentos (PACC), tornada obrigatória para todos os docentes com menos de cinco anos de profissão que quisessem candidatar-se a dar aulas numa escola. Dizia o Ministério que a prova se inseria “ num conjunto de medidas tomadas para «melhorar progressivamente a qualidade da docência» e permitir que «o país venha a ter uma geração de professores altamente qualificada»… Para a prova havia 2.861 professores inscritos, um número muito abaixo dos 13.500 que se inscreveram em 2013. Faltaram ao exame 347 professores, que decorreu em 80 escolas de todo o país.
No ano lectivo anterior, a realização da PACC fora marcada por manifestações que impediram que alguns dos professores inscritos a efetuassem. Vai daí o Ministério da Educação e Ciência, em colaboração com o Ministério da Administração Interna, convocaram o corpo de intervenção da PSP para estar de prevenção.
A Fenprof e outras seis organizações sindicais tinham apresentado, entretanto, um pré-aviso de greve para esse dia. «Em coerência com a apreciação feita sobre o mecanismo — uma praxe injustificável a que o Ministério da Educação e Ciência (MEC) continua a querer submeter os docentes e a profissão […]”. Como resposta, o Ministério decidiu pedir que fossem decretados serviços mínimos para a greve de professores, marcada para o dia da Prova, decisão de que voltou atrás, depois de o Colégio Arbitral ter manifestado o seu desacordo.
Entretanto, a prova foi acompanhada de forte policiamento do Corpo de Intervenção da PSP que recebeu ordens para estar pronto para actuar em qualquer uma das 80 escolas onde se realizaram as provas. Gozando com a malta o MEC congratulou-se com a tranquilidade com que estas de tinham processado!

A humilhação é do governo e do ministro Crato, que assim se obrigam a dar mais um passo rumo à total coincidência com os métodos salazarentos. Já temos a “polícia de choque” a intimidar pacíficos docentes: uma “pide” não andará longe dos inconfessos anseios destes senhores.
Tal como nos tempos do fascismo, o “poder” não consegue disfarçar o medo da Democracia e da Liberdade e, sobretudo, neste caso, de que os professores dêem aos jovens aulas práticas sobre o significado desses conceitos e de como se traduzem no exercício da Cidadania.
Também se torna claro como é fácil, para quem é eleito democraticamente – enganando os eleitores com falsas promessas -, resvalar para a autocracia e a corrupção (não apenas a que está tipificada na lei, mas a que decorre da submissão de uma política a objectivos ditados pelo poder económico-financeiro, que é quem distribui, antes ou depois do “exercício”, as verdadeiras benesses, acobertadas numa “legalidade” perversamente interpretada pela inexistência de qualquer ética), sobretudo quando em situação de maioria absoluta. E isto, incomodamente para os seus defensores, revela os perigos das maiorias absolutas, sempre tentadas pelo abuso do poder, porque invariavelmente apoiadas na obediência acéfala de deputados sem carácter nem ideias próprias – mas com muitos tachos a pingar – aos chefes partidários, a que se acrescenta a evidenciação de que a proclamada “necessidade” de tais maiorias para uma pretensa “estabilidade política” (mui do agrado de uns tais “mercados” – metáfora dos referidos poderes económico-financeiros…) não passa de uma falácia, para não dizer, de modo mais chão, de uma rematada vigarice.